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Professor M.

Roubaram minha ideia! E agora?

Roubaram aquele insight ou minha ideia sobre um tema, problema ou oportunidade de negócios, e não sei o que fazer. E agora?

Por Prof. Manfrim 13/12/2020 4h55

 

Imagine-se naquele encontro de equipe na empresa ou, naquele bate-papo em uma reunião de trabalho ou, em um cafezinho despretensioso com alguém do trabalho. A conversa rola com naturalidade e, de repente, você solta o insight ou ideia que tem sobre um tema, problema ou oportunidade de negócio. E agora?

Logo, a questão é: palavras ao vento podem ser colhidas ou serem apossadas pelo interlocutor! Pode ser tarde demais para recolhe-las, e existe uma grande chance de serem capturadas por outrem em seu próprio benefício.

Por incrível que pareça, o ato de se apropriar de ideias alheias no ambiente organizacional é mais comum do que se imagina. Uma pesquisa da consultoria americana BambooHR revela que 44% dos profissionais que pediram demissão por causa de um ‘chefe tóxico’, tem entre as principais causas, o roubo de crédito pelo trabalho realizado. [1]

“Em uma pesquisa de 2015 com 1.000 trabalhadores, um em cada cinco chefes admitiu roubar regularmente as ideias de seus funcionários. Pior ainda, cada um tinha feito isso pelo menos uma vez. No entanto, a pesquisa sugere que, em um número surpreendente de casos, seus colegas não perceberam que estavam fazendo isso. Ao todo, quase metade dos trabalhadores sentiu que suas ideias foram sequestradas para fazer outra pessoa parecer boa.” [2]

A ciência denomina esse fenômeno de ‘criptomnésia’, que segundo o psicólogo cognitivo Ronald T. Kellogg é “[…] a crença de que um pensamento é novo quando de fato é uma memória”. É um comportamento que reflete como nós, inconscientemente plagiamos as ideias existentes.

Ronald T. Kellogg, utiliza a atividade da escrita como campo de pesquisa e relata, “[…] observando que os escritores frequentemente recorrem a fontes existentes de maneira consciente – incluindo citações literal, expansões ou resumos, apresentações de pontos de vista alternativos que diferem daqueles do escritor e imitando a voz estilística de outro”. [3]

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O pensamento pode ser inserido no ambiente organizacional, quando Kellogg relata que uma pessoa pode “[…] deixar de reconhecer involuntariamente uma fonte anterior devido à falha em reconhecer seus próprios pensamentos e palavras como não originais”. [3]

De forma inconsciente ou consciente, é uma apropriação indébita intelectual e um ato antiético profissional e pessoal, tomar para si a ideia de outrem, manifestar-se como autor do pensamento de terceiros.

Assim, é bom tomar cuidado para não se transformar em infrator no ambiente organizacional.

Campo de batalha das ideias

De fato, existe uma crença profissional e pessoal de que a “minha ideia” pode ser mais valiosa que a do outro ou, que a “minha ideia” é mais promissora e terá um futuro brilhante na organização.

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Sim, a imposição de inovar é constante nas organizações, o que exige pessoas frequentemente convertendo ideias em inovações para clientes e consumidores, da qual tratei desse assunto no artigo ‘Convertendo Ideias em Inovações nas Organizações’.

Portanto, em um ambiente onde as necessidades humanas e sociais estão cada vez mais demandando soluções das organizações públicas ou privadas pelos clientes, consumidores e mercado, o ambiente empresarial competitivo se tornou mais acirrado, onde inovar virou item de sobrevivência.

Inegavelmente vivemos em um ambiente altamente competitivo, que gera alguns efeitos colaterais, entre eles os ‘Inovadores Narcisistas no ambiente organizacional’, onde em muitas empresas, possuir a imagem de ‘inovador’ proporciona popularidade, prestígio e glória.

De fato, a busca desenfreada pela imagem profissional de inovador pode levar à apropriação indébita intelectual, ao ato de se apropriar da ideia alheia como forma de se destacar profissionalmente, colher benefícios financeiros e posição de status.

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Contudo, é impossível transformar uma ideia em realidade de forma solitária e isolada, sendo necessário na maioria das vezes ocorrer uma construção coletiva e compartilhada, fases de maturação, ambientação e inserção no ambiente para o qual foi imaginada.

Sem um processo colaborativo e contínuo, dificilmente uma inovação será criada, elaborada, desenvolvida e implementada em uma organização. Falei sobre esse aspecto no artigo ‘Inovação, um processo colaborativo e contínuo’.

Mas, existe uma linha tênue entre o compartilhamento de uma ideia e a apropriação dela por terceiro, onde o emissor coloca total confiança no espírito colaborativo e ético do receptor, esperando que o ouvinte não se apodere do relato do locutor.

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Da mesma forma, o desenvolvimento da ideia em grupo pode trazer uma falsa impressão de pensamento coletivo, criatividade comunitária e inteligência de equipe, quando na verdade, os participantes se apropriaram de algo individual, sem atribuir os créditos ao autor originário da ideia.

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De antemão, o elemento primordial para amenizar os riscos é criar relações de confiança e frequentar ambientes confiáveis de compartilhamento de ideias. Compartilhar com pessoas contributivas e com profissionais éticos, que complementem e agreguem à ideia.

Antídotos antifurto de ideias

Desde já, a prevenção é a melhor estratégia de proteção à apropriação indébita de ideias por terceiros, de precaução a terceiro levar os créditos e obter vantagem profissional.

Veja algumas dicas que pode nos ajudar nesse desafio:

  1. Adote um canal formal para a ideia

“Nas empresas, uma causa pode ser a falta de um canal formal para absorver ideias. É como se elas ficassem circulando sem dono, à espera de quem possa assumir sua paternidade. Felizmente, à medida que as empresas perceberam o valor de uma boa ideia, foram criando sistemas para aproveitá-las.” [4]

Definitivamente, quando existe um programa formal de acolhimento e formalização de ideia na organização, onde declaramos e propomos um escopo inicial para avaliação e apreciação, o risco de ‘roubo’ é diminuído drasticamente.

Naturalmente, a ideia tem sua autoria designada e circunscrita a seu idealizador, sem dubiedade, ambiguidade ou plágio.

  1. Limite o compartilhamento da ideia

Visto que existe risco iminente de apropriação indébita em ambientes onde não temos, ou não existe confiança entre as partes, limite o compartilhamento, divida-a com pessoas e profissionais de confiança, ao menos na gênesis da ideia, no início de seu amadurecimento.

Nos estágios posteriores, com a ideia mais estruturada e formatada, com algumas pessoas já sabendo da autoria, e com uma quantidade maior de informações sob domínio, pode-se iniciar a exposição da ideia para mais pessoas, onde o risco de roubo é diminuído.

Apesar dos benefícios envolvidos no compartilhamento da ideia, tais como seu aprimoramento e aperfeiçoamento, não deixe de escolher bem seus parceiros nessa jornada. É válido e justo que eles também recebam crédito pelo desenvolvimento e implementação mas, na proporção da colaboração, e não pela origem, o nascimento, a originalidade; o(a) criador(a).

  1. Informação é a proteção

Como pregoamos hoje em dia, dados e informação compõem o novo tesouro das empresas, o ‘ouro’ das organizações no século XXI e o diferencial competitivo mercadológico. Da mesma forma, é uma boa estratégia de proteção ao idealizador da ideia, bem como sua fonte de riqueza em uma disputa autoral.

Dessa forma, dificilmente o(a) larápio(a) tem o domínio total da ideia, os dados e informações que envolvem a ideação, a formatação e reflexos dela na organização, nos negócios e para com os clientes e consumidores, da fase de insight até a concretização do pensamento.

Domine o máximo possível detalhes como riscos, desafios, ameaças, fraquezas, forças, utilidades, finalidades, aplicações, oportunidades, benefícios, ganhos e vantagens. Assim, o entendimento sistêmico e holístico é comprometido por quem se apossou apenas da ideia macro.

  1. Evolua a ideia para uma proposta formal

“Apresente a ideia como um projeto. Uma boa ideia não merece ser papo de corredor. Ela deve ser apresentada com respeito: por escrito, com estimativa do custo-benefício de sua implantação e/ou em uma reunião”. [4]

De antemão, resista à tentação de expor publicamente uma ideia quando ela ainda é na verdade um insight. Invista mais tempo para leva-la a um estágio acima, exercite a criatividade por um período maior, como descrevi no artigo ‘Criatividade, a habilidade que liberta a Inovação’.

Logo, a perspectiva de projeto é bastante promissora e protetora, aqui entendido como um plano, esquema, estrutura, representação, forma e organização formal da ideia, considerando o temporal e recursos envolvidos.

  1. Mudança de hábito

Antes de mais nada, provar que uma ideia sua foi furtada por alguém do trabalho ou foi apropriada indevidamente pelo seu superior hierárquico, não é tarefa fácil.  Trata-se de uma ação arriscada e desgastante, podendo resultar em descrédito e arranhões na sua imagem, além do risco de desligamento da equipe ou da própria organização.

Logo, ocorrendo o fato lastimável de plágio da ideia, o ideal é alterar seus hábitos junto à pessoa ou ao grupo que se apoderou dela. É uma batalha inglória, onde não haverá ganhadores, apenas perdedores. Como diz o ditado popular: “errar é humano, mas permanecer no erro é burrice”.

Ou, como evoluiu nesse pensamento André de Paula Viana: “Errar uma vez é humano, duas é burrice e três é por opção; de livre e espontânea vontade”.

O fato é, tirar lições e aprendizados quando essa situação ocorrer, mudar atitudes, hábitos, ações, comportamentos e estratégias de exposição e compartilhamento de ideias.  De como torna-las públicas sem arriscar sua autenticidade e autoria.

O futuro é dos idealizadores

“Quem rouba ideias não consegue sustentá-las por muito tempo, pois elas são rasas, necessitam de um contexto, de um aprofundamento que é extremamente pessoal. Um profissional que vive dessa forma, não tem chance de manter o crescimento ou sua marca” (Márcia Oliveira).

Esse é o ponto, o colega de trabalho, o superior hierárquico, ou o profissional da empresa que tem essa atitude de se apoderar da ideia de terceiros, tornando isso corriqueiro em seu dia a dia de relacionamento organizacional, necessita exercitar constantemente esse comportamento para sobreviver.

A sobrevivência desse tipo de pessoa é de origem parasitária, que um dia os hospedeiros organizacionais podem se esgotar à medida que esse comportamento vai sendo observado e descoberto, e esse profissional não encontra mais sustentação.

Enquanto o autor da ideia for detentor dos conhecimentos sobre os riscos, desafios, ameaças, fraquezas, forças, utilidades, finalidades, aplicações, oportunidades, benefícios e ganhos, terá vantagem sobre o usurpador.

Podemos inserir nesse contexto a variável talento, um aspecto que não se pode copiar, plagiar, imitar ou furtar. Pode ser adquirida sim, com a internalização de conhecimentos, habilidades e atitudes, que vão torna-la uma competência profissional, mas não por apropriação indébita.

Como dizia Jacinto Benavente y Martinez: “Muitos pensam que ter talento é sorte; não vem à mente de ninguém que a sorte pode ser uma questão de talento.”

Ter ideia exige esforço inspiracional e transpiracional. Não deixe de investir na transpiração em detrimento da inspiração. Ambos esforços caminham juntos e são variáveis importantes no sucesso de uma ideia.

“Podem roubar a sua ideia, mas nunca o seu talento e sua inteligência”. [5]

É salutar que uma ideia nasça na individualidade e floresça na coletividade. Afinal de contas, é para isso que foi criada, se espalhar mundo afora? Interagir, misturar e gerar outras!

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[1] Produtive. CHEFES TÓXICOS. 27 de mai. De 2020. Disponível em:
< https://www.produtive.com.br/chefes-toxicos/>. Acesso em: 12 de dez. de 2020.

[2] GORVETT, Zaria. Why your colleagues can’t help stealing your ideas.
BBC, London, 10 de jun. de 2016. Disponível em:
<https://www.bbc.com/worklife/article/20160504-why-your-colleagues-cant-help-stealing-your-ideas>. Acesso em: 12 de dez. de 2020.

[3] POPOPVA, Maria. The Psychology of Cryptomnesia: How We Unconsciously Plagiarize Existing Ideas.
Brainpickings, 26 de set. de 2014. Disponível em:
< https://www.brainpickings.org/2014/09/26/cryptomnesia-psychology-of-writing/>. Acesso em: 12 de dez. de 2020.

[4] KASSOY, Gisela. Xi! Roubaram minha ideia! Dicas profissionais. 18 de fev. de 2019. Disponível em:
http://www.dicasprofissionais.com.br/xi-roubaram-minha-ideia/>. Acesso em: 12 de dez. de 2020.

[5] A mente é maravilhosa. Podem roubar a sua ideia, mas nunca o seu talento. 
Recursos Humanos. 26 de jul. de 2019. Disponível em:
< https://amenteemaravilhosa.com.br/podem-roubar-ideia-nunca-talento/>. Acesso em: 12 de dez. de 2020.

 

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Prof. Manfrim, L. R.

Fanático em Gestão Estratégica (Mestrado). Obcecado em Gestão de Negócios (Especialização). Compulsivo em Administração (Bacharel). Consultor pertinente, Professor apaixonado, Inovador resiliente e Intraempreendedor maker.

Explorador de skills em Gestão de Pessoas, Gestão Educacional, Visão Sistêmica, Holística e Conectiva, Marketing, Inteligência Competitiva, Design de Negócios, Criatividade, Inovação, Empreendedorismo e Futurismo.

Coautor do Livro “Educação Empreendedora no Distrito Federal”. Colaborador no Livro “O futuro é das CHICS: como construir agora as Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis”.

Navegador atual nos mares do Banco do Brasil, Jornal de Brasília e Instituto Brasileiro de Cidades Inteligentes, Humanas e Sustentáveis. Já cruzei os oceanos da Universidade Cruzeiro do Sul, Centro Universitário do Distrito Federal (UDF), Cia Paulista de Força e Luz (CPFL), IMESB-SP, Nossa Caixa Nosso Banco, Microlins SP, Sebrae DF e Governo do Distrito Federal.

Contato para palestras, conferências, eventos, mentorias, hackathons e pitchs: [email protected]

Linkedin – Prof. Manfrim

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