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“Comer transtornado”: o que é e como esse comportamento pode ser tratado

O comer transtornado, por exemplo, diferente do que muitos pensam, não é um distúrbio alimentar clássico, mas um padrão de comportamento alimentar desordenado

Foto: Divulgaçao

Por: Simone Dias*

A frequente exposição, nas redes sociais, de corpos definidos por dietas super restritivas pode ter um impacto profundo na saúde física, social e emocional de muitas pessoas, quando estas passam a vê-las como um padrão inflexível. Não raramente os comportamentos compulsivos e restritivos requerem uma abordagem multi e transdisciplinar para que os pacientes entendam e mudem a relação com a alimentação. Entre as estratégias de tratamento mais eficazes, defendo a terapia nutricional, que se emerge como uma ferramenta poderosa para ajudar pacientes a estabelecerem uma relação mais saudável com a comida e com seus próprios corpos.

O comer transtornado, por exemplo, diferente do que muitos pensam, não é um distúrbio alimentar clássico, mas um padrão de comportamento alimentar desordenado, que tem impactos sérios na vida de milhares de pessoas e pode levar a um transtorno alimentar grave. Ele pode englobar atitudes compulsivas emocionalmente, preocupação excessiva com calorias, porções, em perder peso ou controlar alimentos. Pode gerar culpa, vergonha frente aos alimentos, moralizando e baseando sua identidade e valor no que come e no quanto pesa. É considerado comer transtornado a pessoa com práticas de dieta crônica (levando muitas vezes ao efeito sanfona), associadas a medidas purgativas ou compensatórias em prol de seu objetivo.

Nesse cenário desafiador, a nutrição, com abordagem comportamental, surge como apoio imprescindível e compassivo para ajudar no combate ao comer transtornado. Ao reconhecer a complexidade das escolhas alimentares, defendemos que existem múltiplos fatores que a alimentação encerra, além das questões puramente físicas, e consideramos ainda os aspectos emocionais, psicológicos e ambientais envolvidos no comportamento alimentar.

Por isso, para nós nutricionistas, é um desafio que requer atenção especial. Para que possamos ajudar os pacientes, é fundamental estabelecer uma relação de confiança, fornecendo um espaço seguro para que eles compartilhem preocupações e desafios relacionados a sua rotina alimentar. É como sempre digo para minhas pacientes: quando adotamos uma abordagem livre de julgamentos, criamos um ambiente propício para a cura.

Um dos principais objetivos da nutrição comportamental é ajudar o paciente a construir uma relação mais saudável com a comida. Isso é alcançado por meio da promoção de padrões alimentares equilibrados e flexíveis, afastando-se das dietas restritivas. O foco está na conscientização dos sinais de fome e saciedade, bem como na compreensão dos gatilhos emocionais que podem levar ao comer transtornado.

Cada indivíduo é único, e é por isso que a abordagem é personalizada. É preciso trabalhar em conjunto com o paciente para criar um plano alimentar que atenda às suas necessidades, preferências e principalmente aos objetivos do tratamento. É importante ressaltar, e por isso repiso, que o tratamento do comer transtornado exige uma abordagem interdisciplinar. O nutricionista comportamental trabalha em conjunto com psicólogos, psiquiatras, educadores físicos, terapeutas, entre outros, para oferecer uma atenção integral, abordando tanto os aspectos físicos quanto os emocionais relacionados aos distúrbios alimentares.

Portanto, e em resumo, é preciso reconhecer a importância do nutricionista nessa complexidade de emoções que envolvem a relação entre comida e saúde. Defendo o apoio de profissionais qualificados e com o atendimento humanizado para que o atingimento de uma relação mais positiva e saudável com a comida seja cada vez um caminho mais tranquilo.

* Simone Dias é nutricionista especialista em nutrição comportamental






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