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Pesquisa e coleta de sangue da UnB não são Fake News

Informações falsas circuladas na Estrutural afirmam que estudo sobre doenças virais se trata de crime de golpe e injeção da covid-19 no povo

Fotos: Vitor Mendonça/ Jornal de Brasília

Pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) têm encontrado dificuldade com a desinformação para realizar levantamento sobre o impacto de doenças tropicais e da covid-19 nas cidades Estrutural e Santa Luzia. O estudo tem como objetivo realizar inquéritos soroepidemiológicos, por meio da coleta de sangue da população, para entender e conseguir mapear a predominância de anticorpos contra o novo coronavírus, o Sarampo e as variantes da Dengue, Chikungunya e Zika.

Informações falsas, porém, foram espalhadas, afirmando que a pesquisa, na verdade, se tratava de uma coleta de dados pessoais a serem usados por criminosos do Distrito Federal. Outra fake news disseminada dizia que os especialistas estariam com a intenção de inserir o vírus da covid-19 na população com as seringas utilizadas na pesquisa para a coleta de sangue.

No Facebook, um grupo da comunidade da Estrutural discutiu a sobre a autenticidade do estudo após a publicação de um vídeo que mostra um dos pesquisadores explicando a metodologia do levantamento.

Uma das pessoas, no intuito de confirmar a legitimidade da pesquisa, entrou em contato com o Governo do Distrito Federal (GDF), mas, como não há vínculo do levantamento da UnB com o poder público, a não confirmação do governo sobre a investigação epidemiológica colaborou para que a desconfiança se multiplicasse. A recomendação por parte do GDF teria sido para que uma delegacia fosse procurada e um boletim de ocorrência fosse feito.

Em nota de esclarecimento na publicação da rede social, a coordenação do projeto “Infecções virais emergentes e cobertura vacinal no Distrito Federal” tentou explicar a pesquisa, mas não teve interações ou respostas da comunidade. “É importante ressaltar que o Projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Faculdade de Medicina da UnB sob o parecer número 4.495.474”, destacou a organização no comentário.

Por conta da baixa participação da população depois das informações falsas espalhadas, a pesquisa iniciada no dia 27 de junho, pausou as atividades dois dias depois, e permanece parada temporariamente. Reuniões com os líderes comunitários da Estrutural e Santa Luzia serão realizadas para um novo esclarecimento a respeito da pesquisa, a fim de conscientizar a população e o estudo ter condições de retornar.

“A notícia falsa saiu no primeiro dia da pesquisa. Enquanto a informação não era tão repassada, tivemos uma aceitação altíssima sobre o que estava acontecendo. As pessoas nos recebiam tranquilamente. […] Mas no dia seguinte a aceitação já começou a cair, foi mais ou menos. No terceiro dia não tínhamos aceitação quase nenhuma”, relatou a bolsista de pós-doutorado em Medicina Tropical, Ana Tereza Teixeira, que participa da pesquisa.

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Segundo Ana, a pesquisa é importante também para que as desigualdades no acesso à saúde sejam mais claras, estabelecendo assim uma relação entre as doenças e a qualidade de vida da população. Ano passado, de acordo com o professor Walter, houve um surto de Chikungunya na região da Estrutural e Santa Luzia, por exemplo – que pode ter relação com as condições de moradia ali.

“Andando na comunidade de Santa Luzia, por exemplo, temos notícias de pessoas que morreram de dengue, mas sem resultados específicos. Lá não tem água, não tem saneamento básico, então é muito vulnerável e como benefício [da pesquisa] teríamos informações verdadeiras e sérias do que está acontecendo com essas pessoas. Elas nem CEP têm para fazer cadastro no SUS – usam o geral da Estrutural para não ficar sem”, destacou a pesquisadora.

Quem é a equipe

O estudo é coordenado e acompanhado pelos professores pesquisadores Wildo Navegantes de Araújo e Walter Ramalho Pinheiro, do grupo de pesquisa ZARICS (Zika, Arboviroses e outros Estudos de Coorte de Infecções), do Núcleo de Medicina Tropical da UnB – ambos com o currículo disponível no site da UnB e na plataforma acadêmica de currículos Lattes.

Na equipe de pesquisa existem pós-doutorandos, doutores, mestres e especialistas contratados para a realização do levantamento. Vale ressaltar também que não se trata de um estudo com metodologias experimentais, uma vez que os mesmos procedimentos são realizados frequentemente pelo grupo em outros projetos de avaliação de comportamento de viroses no corpo humano.

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A dinâmica nas residências sorteadas é sempre com dois pesquisadores, além do motorista que os leva até as casas e não sai do carro. Nos locais, a dupla de especialistas está identificada com um crachá com nome e função no estudo, uma camiseta branca com a logo da ZARICS na parte da frente e as logos do SUS, FAPDF, UnB, NMT e EBSERH na parte de trás.

Antes de cada abordagem, a equipe leva consigo um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) de duas vias, por meio do qual o projeto pode assegurar o sigilo de todas as informações fornecidas por voluntários, como também garantir que nenhuma colaboração foi forçada. Com o consentimento do cidadão, os dados de identificação (nome, idade, CPF, etc.), sociodemográficos (renda familiar, eletrodomésticos, acesso a saneamento básico, etc), e clínicos sobre se houve contaminação recente com um dos vírus pesquisados são repassadas para uma central sigilosa da UnB.

Para uma maior segurança do voluntário no aspecto da privacidade de informações, todo nome é substituído por um código aleatório, não sendo possível identificar de quem são as amostras colhidas. Todos os materiais utilizados pelos pesquisadores são esterilizados e serão descartados após o uso – como seringas, luvas e lacres. As coletas de sangue são de aproximadamente 6 ml, retiradas diretamente das veias, e colocadas dentro de dois frascos de armazenamento.

Outro objetivo é estimar quantas pessoas na Estrutural tiveram covid, dengue e quantas se vacinaram contra sarampo. Quando há uma epidemia, o controle de outras doenças diminui e estas ficam de lado. “Nós queremos apurar questões individuais para entender e repassar para a saúde pública. Outras instâncias precisam se municiar dessas informações. E o levantamento não vai chegar com o nome das pessoas”, disse o co-coordenador do estudo, Walter Ramalho.

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“Queremos reforçar que o que estamos fazendo é bom para a população. Estamos todos equipados e treinados com os EPIs [Equipamento de Proteção Individual]. […] Infelizmente é muito mais fácil impactar com uma notícia ruim do que com uma notícia boa. A mensagem positiva precisa ser melhor veiculada”, comentou ainda o especialista.

Depois de colhido, o material é transportado para o Hospital Universitário de Brasília (HUB) para a triagem sanguínea e o início das testagens para detecção de anticorpos para os tipos virais procurados pela pesquisa. Cada amostra é separada com códigos, uma vez que o objetivo final é ter uma amostragem geral quantitativa para estabelecer um parâmetro de comparação em relação às outras cidades.

“Queremos nos integrar na comunidade para poder fazer mais trabalhos como esse. Pesquisas como essa servem de base para outros estudos mais específicos ainda sobre essas doenças. Assim nós conhecemos a realidade do que está acontecendo e conseguimos ver aspectos mais intrínsecos da ocorrência dessas doenças”, finalizou a pesquisadora Ana Tereza.

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SAIBA MAIS

  • A expectativa é que 1.100 residências sejam visitadas na Estrutural e Santa Luzia para o levantamento da amostragem.
  • Após a Estrutural, a pesquisa deve ter continuidade nas regiões de Ceilândia, Águas Claras e Plano Piloto.
  • Dúvidas e esclarecimentos sobre a pesquisa e especialistas podem ser confirmados pelos telefones (61) 3107-0185 ou (61) 3107-0051, e pelo e-mail [email protected]
  • A página do projeto no Instagram, @covidzarics, também pode auxiliar a população no acompanhamento da pesquisa.

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