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Mais grave é a pandemia da inconsciência

Enquanto 83 pessoas esperam por internação e 12 por UTI, JBr flagra estabelecimentos que desrespeitaram o decreto baixado pelo GDF

Desrespeito logo no começo

Reportagem flagra estabelecimentos abertos, mesmo com a proibição emitida por um decreto

Cezar Camilo, Lucas Neiva, Vitor Mendonça
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A equipe de reportagem do Jornal de Brasília rodou por algumas regiões do Distrito Federal durante as primeiras horas do novo lockdown. A medida que visa conter a lotação do sistema de saúde por pacientes de covid-19 passou a vigorar ontem, com previsão para acabar no dia 15 de março. Mas em algumas regiões, o decreto assinado pelo governador Ibaneis Rocha (MDB), no sábado, ainda não surtiu efeito.

O JBr encontrou bares e lanchonetes abertos durante a primeira madrugada, logo após o toque de recolher. Próximo ao Entorno, em Santa Maria, estabelecimentos permaneceram com música alta até 1h – além de aglomeração e desrespeito às medidas de segurança sanitária. Na fronteira com Goiás, no Novo Gama, empresários relataram que o lockdown só começa na região hoje, dois dias após as portas fecharem na capital.

“Até agora, ninguém da fiscalização passou aqui”, disse o dono de uma creperia goiana ao ser questionado sobre o fechamento da loja, pouco depois da 00h01. A lanchonete fica ao lado de outros comércios noturnos que também mantiveram as portas abertas até tarde. É o caso de uma hamburgueria, também no Novo Gama (GO), com mesas lotadas durante a madrugada do último domingo.

Cliente em bar funcionando fora do horário permitido pelo decreto emitido pelo GDF faz gestos obscenos para a equipe de reportagem. Foto: Luca Neiva/ Jornal de Brasília

A Secretaria de Estado de Saúde do Goiás (SES-GO) disse que a fiscalização em torno do descumprimento de medidas sanitárias durante a pandemia é feita pelos próprios municípios. “Os decretos de restrição também são municipais”, esclarece a assessoria de imprensa. Os prefeitos dos 12 municípios do Entorno e o governador do estado, Ronaldo Caiado (DEM), reuniram no último sábado (27), no Palácio das Esmeraldas, em Goiânia, para alinhar um novo lockdown em conjunto, com validade de sete dias. Até agora, somente a capital Goiânia e Aparecida de Goiás decretaram a medida que passa a valer a partir de hoje.

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Em Santa Maria, região vizinha à cidade de Goiás, alguns bares permaneceram tumultuados e com fluxo normal de atividades. Foi o caso do bar “La Casa de Bebidas”, registrado pela reportagem ainda com música ao vivo às 00h10. Ao se aproximarem para fotografar, a equipe de reportagem foi hostilizada pelos clientes do estabelecimento. Uma pessoa sem máscara apontou os dedos e chegou a correr atrás dos repórteres.
Outros dois negócios não fecharam as portas, “Só Santo” e “Areca Bar” continuaram a distribuir bebidas durante a madrugada de lockdown.

Outro caso de resistência flagrado pela reportagem foi no bar Jardim Sonoro, no Setor de Oficinas Sul. Ao chegar no local, por volta de 1h, a equipe identificou a realização de um show de música ao vivo no local. Também houve resistência ao lockdown no restaurante “Fran’s Café”, no Guará, onde a ordem da gerência foi de manter o atendimento presencial 24 horas.

A postura da maioria dos estabelecimentos foi de prolongar ao máximo o seu funcionamento, com alguns permanecendo abertos após a meia noite por insistência de parte dos clientes que tardaram a sair.

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“É a solução possível”

Outros, como o bar “Uk Music Hall”, na Asa Sul, apenas interromperam o acesso de novos clientes à meia noite, mas permaneceram abertos. No estabelecimento em questão, as atividades se mantiveram até as 2h, como mostra o vídeo abaixo:

A grande maioria dos estabelecimentos, no entanto, optou por obedecer à determinação. Exemplo disso foi o bar Fausto e Manoel, na Asa Sul, onde a cozinha foi encerrada uma hora antes do lockdown e as contas distribuídas minutos antes da meia noite.

O governador Ibaneis Rocha, atualizou o decreto do lockdown no sábado (27). Apesar de decretar o fechamento temporário das academias, o governo liberou a abertura de parques e do Zoológico. As unidades de atendimento à população como as unidades do Na Hora, Creas e Cras, além de agências bancárias e das lotéricas estarão liberadas para funcionar atendendo com rigor os protocolos de segurança sanitária.

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O governo reviu também a situação das feiras populares, que permanecem abertas para o comércio de gêneros alimentícios, sendo vedado qualquer tipo de consumo no local. O texto também prevê a proibição de bebidas alcoólicas após às 20h em todos os estabelecimentos autorizados a funcionar.

A Secretaria de Saúde reforça a necessidade de conscientização da população sobre o perigo de lotar o atendimento público.
“É uma doença que não escolhe classe social, o lockdown é a única solução possível para não termos risco de lotar o sistema público de Saúde e, consequentemente, sobrecarregar a rede privada”, diz o subsecretário de Vigilância em Saúde, Divino Valero.

Saiba mais

Ontem, a casa do governador Ibaneis Rocha (MDB) amanheceu com cartazes e gritos de ordem contra as restrições implementadas no novo lockdown do Distrito Federal – as medidas valem até dia 15 de março.
O empresário Oswaldo Scafuto, dono de dois restaurantes e duas lanchonetes em Brasília, disse ser a primeira vez que vê o empresariado do DF “tão unido”. Segundo ele, diversos segmentos do comércio também estão organizando carreatas. O objetivo é reivindicar uma flexibilização das restrições impostas.

No sábado…

No último dia antes do lockdown estabelecido ontem, no sábado (27), quem precisava resolver alguma pendência fora de casa se apressou para encontrar as lojas abertas e aproveitar as últimas horas disponíveis no comércio local. Assim aconteceu na Feira dos Importados, onde os vendedores também aproveitaram para fazer as últimas vendas de forma presencial.

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A arquiteta Mariana da Silva Duarte, 26 anos, foi ao local garantir teclado e mouse para o trabalho que tem desempenhado em home office desde o primeiro lockdown – Os itens em casa estavam com mau funcionamento. Essa foi a oportunidade para resolver o problema de forma célere. “Vim comprar antes que feche tudo. No meu trabalho não posso ficar sem computador. E ainda peguei uns cabos reserva só por garantia”, disse.

Ela entende que a atual situação do novo coronavírus é delicada e que requer o máximo de cuidados possíveis para evitar que a doença se alastre. Por outro lado, entende também o porquê dos comerciantes estarem tão contrariados com a medida. “É ruim para a economia, só que temos que ajudar a salvas as pessoas. Eu sou a favor do lockdown, mas tem seus ônus e bônus – não dá pra falar que é 100% bom nem que é 100% ruim.”, completou.

Vini Axel, 28, é empresário e dono de uma lanchonete que atende por delivery. Ele também quis ir à Feira dos Importados para garantir as últimas compras presenciais. “Vim trocar uma roupa que ficou apertada na minha prima e uma película para o celular. Como é necessário pra evitar quebrar, vim colocar”, afirmou. Como empresário, ele não aprova a nova determinação de fechamento do comércio.

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“Se a população tivesse um pouco mais de consciência e seguisse os protocolos [de segurança sanitária] contra a covid, talvez não precisasse desse segundo lockdown”, opinou. “Queria que não fechasse nada. Perdemos muito [na economia]. Eu tenho opção de fazer delivery mais facilmente, mas quem trabalha na Feira, infelizmente nem tanto”, complementou.

Comerciantes sentem

O lockdown e a imprevisibilidade de ganhos fizeram com que a empresária Iris Nascente, 55, saísse da Feira dos Importados, após um ano e meio, e tocasse o negócio de impressão em azulejos apenas nas plataformas on-line. “Antes da pandemia conseguia pelo menos pagar as contas dos meus funcionários e as obrigações na Feira, mas depois da primeira parada foi ruim, agora então tenho certeza que não vou conseguir me segurar mais”, afirmou. Dia 27 de fevereiro, portanto, foi seu último dia no local.

“Acho exagero [o lockdown], sinceramente. Já tivemos uma vez e ficou provado que não adiantou para que as pessoas se conscientizassem. Elas têm que evitar aglomerações, festas e bares. Fechar uma cidade inteira falando que o lockdown vai diminuir as mortes, pode até ser que aconteça, mas daí vai morrer muita gente de fome, de depressão porque não está conseguindo pagar as contas. A conta vai ser mais cara ainda em outros aspectos. A fatura vai chegar mais alta”, opinou Iris.

Em sua loja, trabalhavam ela e outros dois funcionários, que ficarão desempregados. “É muito complicado. Tem gente que até consegue segurar uns meses, mas outros não. Vendemos para comprar o material para que amanhã tenha novamente. A maioria aqui não tem capital de giro”, alegou.

Na loja de calçados de Valdemiro Fernandes, 41, que está na Feira há quase três anos, o primeiro fechamento fez com que o movimento caísse em 20% que o anterior. Desta vez, ele não sabe o que esperar. “Vai ser ruim para todos, principalmente para o comércio. Vou ter que correr atrás das vendas on-line, que ajudaram bastante da vez passada. Não dá para ficar parado”, comentou.

Ele pondera, no entanto, que a solução mais efetiva está na vacina. “As manifestações deveriam ser para que fossem garantidas as vacinas para pelo menos 80% da população, porque não adianta reabrir o comércio e não resolver o problema – o vírus vai continuar matando as pessoas”, disse.

O DF, porém, recentemente teve dificuldade em administrar o abastecimento de vacinas para os grupos prioritários (idosos e profissionais da saúde e relativos) por falta de repasse do Ministério da Saúde. Na última semana, 25 mil novas doses chegaram e a vacinação foi ampliada para pessoas de idade entre 76, 77 e 78 anos.






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