Jornal de Brasília

Informação e Opinião

Brasília

Companheiras de detentos no DF encaram ônibus lotado e preconceitos

Para que o visitante entre no presídio é necessário que atenda uma série de requisitos, como vestir-se inteiramente de branco, sem nenhum objeto metálico

Fotos: Mariana Tollendal / Agência de Notícias CEUB

Malu Souza e Arthur Monteiro
(Jornal de Brasília / Agência de Notícias CEUB)

Manhã de quinta-feira em Brasília. Uma fila formada por mulheres, com exceção de quatro ou cinco homens, percorre um trecho da Rodoviária do Plano Piloto. Em frente a plataforma A, elas esperam ansiosamente a chegada do ônibus 0.111, que vai em direção ao Presídio Nacional (no Complexo da Papuda), localizado em São Sebastião, a 20 quilômetros dali.

A reportagem acompanhou a viagem. Os 25 minutos dentro do ônibus possuem um silêncio quase constrangedor. O ambiente fica cheio de tensão e ansiedade. Mas também, cheio de mulheres que pouco conseguem se mexer por estarem em um ambiente limitado. A maioria carrega bolsas e mochilas, umas vestem branco, outras não.

Para que o visitante entre no presídio é necessário que atenda uma série de requisitos, dentre eles vestir-se inteiramente de branco (blusa, calça, roupas íntimas e chinelo), sem nenhum objeto metálico. Apresentar o comprovante impresso de vacinação contra a covid-19. É possível levar uma quantidade pré-definida de biscoitos, sendo de maisena ou de água e sal, shampoo, sabonetes, papel higiênico, roupas brancas e dinheiro. As sacolas com os itens devem ser transparentes.

As visitas ocorrem às quartas e quintas-feiras, das 9h às 15h. Para se cadastrar e realizar visitas aos custodiados, familiares precisam agendar seu atendimento nos postos de atendimento do “Na Hora” da Rodoviária do Plano Piloto, Riacho Fundo, Taguatinga ou Ceilândia. É autorizado o contato físico moderado entre visitante e a pessoa presa, consistente em abraço e aperto de mão durante a visitação.

Segundo a Secretaria de Estado de Administração Penitenciária, há 16.150 internos no Presídio Nacional e 13.498 visitantes aptos.

Guarda-volumes

Apesar dos visitantes não poderem entrar com bolsas ou mochilas, ou qualquer outro item pessoal, a Papuda não conta com um guarda-volume para os visitantes. Essas mulheres devem procurar formas, por si só, de guardarem seus pertences para visitarem seus amores.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Observando essa falta de infraestrutura, mulheres se uniram e prestam serviço de guarda-volumes por valores que variam entre quatro e cinco reais. Antes da pandemia também era feito o comércio de alimentos para os visitantes e itens que poderiam entrar no presídio, mas esse serviço foi vetado.

A mais antiga dessas vendedoras é a baiana Aura Dias, de 60 anos. Ela nasceu em Riachão das Neves (BA), município localizado a aproximadamente 919 quilômetros de distância da capital Salvador. Dona Aura veio para o Distrito Federal para trabalhar no Presídio Nacional recém-inaugurado, que tinha apenas um ano de inauguração.

“Um dia eu fiquei desempregada, e a moça que cuidava do meu pai me chamou. Lá ta inaugurando um presídio e meu filho foi transferido para lá. Você quer ir pra lá? Eu perguntei onde era essa cadeia. Ela disse que era em São Sebastião. Eu nem sabia que esse lugar existia. Aí eu vim com ela, fiquei a primeira semana, a segunda semana, na terceira ela foi pro Maranhão e eu fiquei. E estou aqui até hoje”.

Ambulantes

A vendedora estava no estacionamento, próximo à grade com mochilas de pessoas que no momento estavam preparando-se para entrar no presídio. Ali, para se proteger do sol, tinha apenas uma sombrinha, que ela mesma colocou lá. Aura estava com óculos escuros e um colete azul com indicação da Associação dos Ambulantes do Sistema Prisional do DF (AASP), que as próprias vendedoras do local criaram.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

“Nós prestamos esse serviço e o governo não ajuda a gente. Não presta nenhum auxílio. Tudo é nosso, até a sombrinha que a gente usa. Eles não dão auxílio nenhum, nós prestamos isso ao visitante. Porém estamos proibidos de fazer. Às vezes o visitante chega aqui em casos extremos, passando mal. Chega aqui para visita às 9h e descobre que a visita é só 13h”.

Aura Dias afirma que já viu visitantes passarem mal, pois lá não há locais para que eles se alimentem. Há apenas dois banheiros, sendo um masculino e outro feminino, e um bebedouro. Antes da pandemia, eram comercializados lanches para os visitantes, mas esse serviço foi vetado.

“Hoje a nossa briga com o sistema prisional é que desde que existe o complexo, existe essa necessidade. Se a gente não tivesse aqui as visitas não ocorreriam, porque você não pode entrar dessa forma”, finaliza a baiana.

Amor de mãe

Das pessoas que observamos se preparando para fazer as visitas, a maioria eram mulheres. Mulheres loiras e morenas. De diferentes idades e alturas. Que enfrentam obstáculos para encontrar seus familiares que estão privados de liberdade. Algumas preferem não serem identificadas por medo de represálias futuras.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Devido a Papuda ainda estar sobre políticas de distanciamento, T.A , 37 anos, questiona ao comparar tal medida com a flexibilização no uso de máscaras, em novembro de 2021, ou até com a volta de eventos presenciais já decretada pelo Governador Ibaneis Rocha.

A facilidade operacional que essa medida tem para os policiais não prejudica só relações conjugais, que não tem mais visita íntima. Afeta as interações de mãe e filho que acabam se restringindo a encontros quinzenais de apenas uma hora, como o caso da T.A, que ao ser entrevistada interrompeu a última pincelada de seu rímel.

Ela conta com uma certa distância, daquela de quem não quer ser associada a essa realidade, a infelicidade que era não poder abraçar o filho (em tempos em isso tinha sido vetado).

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

“A vida é curta demais para vir parar em um lugar como esse… é muito sofrimento, né?” frase que ao sair da boca dela em uma intransitividade retórica corta aquela atmosfera ritualística de embelezamento no carro, com sua filha, nas horas antes de entrar para visita. Cada pincelada carregava a mentira “tá tudo bem aqui fora”.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Preconceitos

Ligada pelo laço que não pode ser cortado, Jô, 41 anos, de 21 em 21 dias visita seu filho. Há cerca de dois anos, ela faz o trajeto do trabalho para a Papuda e da Papuda para o trabalho, no 0.111. Pessoas associam a ela os crimes cometidos pelo seu filho.

“Eles tem muito preconceito porque acham que porque a gente vem aqui a gente é errado. Eles estão pagando aí, fizeram errado e tem que pagar mesmo. Mas eu acho que a gente que vem visitar, a família, não tem nada haver. Eu dei uma educação muito boa para os meus cinco filhos, a mesma criação que eu dei pra eu dei para os outros quatro. Mas ele foi o mais errado, o que escolheu o lado errado”.

Em sua calça branca, às quintas-feiras, ela se esquiva de olhares preconceituosos. Se esquiva por amor e saudade de seu filho. Não o abandona, e não se vê abandonado. Acredita que ele está pagando pelos erros que cometeu.

“Aqui dentro tem muita descriminação por parte dos agentes. Eles por estarem aqui deveriam instruir mais eles. Deveriam ter um lugar aqui para aqueles que querem mesmo e levassem para um lugar adequado para conversarem. Que tivesse psicólogo ou algo pra estudar mesmo. acho que eles escolhem a dedo quem vai estudar, ou fazer alguma coisa”.

O preconceito que sofre não a faz amar menos o seu filho, ou pensar em deixar de vê-lo. No mês de julho, ele vai para o semiaberto. Os trâmites já estão sendo finalizados. Dia 5 de julho é data que lhe foi dada para ver seu filho trabalhando e sendo ressocializado.

Amor à distância

Diferente da realidade fantasiosa exposta nas redes sociais, as mulheres que visitam os namorados e maridos no Presídio Nacional, não contam a sua vida com tanto glamour. Na verdade, não há glamour. Poucas são as que conhecem “as cunhadas”, e as que conhecem não gostam do veem.

Z.F. é uma dessas mulheres. Ela conhece o fenômeno, mas afirma que as mesmas estão contando mentiras. Ou realidades muito diferentes da que ela vive nas visitas quinzenais. Há um ano e cinco meses visita o marido, pai de suas duas filhas. E seu relato é contado com tristeza e dor.

“Eu faço de tudo que aparece pela minha frente, ultimamente eu to fazendo o curso do GDF. Tô parada. Tenho duas filhas crianças. Ele está há um ano e cinco meses”.

Ela diz que nunca passou por nenhum tipo de humilhação nas visitas, que só “pegou plantão bom”. O momento mais difícil que passou foi quando não pode entrar por conta do cartão de vacina. Foi o momento mais estressante que viveu naquele local.

Eles estão há 12 anos juntos. Antes do crime, ela já o tinha e o conhecia. Ele está na vida dela a um tempo que ela não vê a possibilidade de jogar fora. O companheiro não possui data estimada para saída, enquanto isso entre visitas ela o aguarda aqui fora.

Glamour

Em seu carro, com uma cadeirinha de criança no banco de trás, seu olhar se perde olhando para o nada. Ela aguarda o momento em que poderá entrar novamente no Presídio Nacional e abraçar o marido, pai de seus dois filhos. Suas vestes cumprem o pré-requisito necessário para adentrar as mediações.

Com 25 anos, R.S., agora, trabalha com extensão de cílios. Ofício que teve que aprender para sustentar o lar, que antes era mantido pelo companheiro. Há um ano ela faz visitas recorrentes, o esposo pegou uma sentença de 10 anos. Ela afirma que enfrenta as dificuldades necessárias para vê-lo, pois acredita na família que possuem. E no futuro que há de vir.

“A maiorzinha sente mais falta porque conviveu com ele, o outro eu tive dois dias depois que ele foi preso, ele nem chegou a conhecer ele”.

Ela afirma que nenhum homem conseguiria viver com a esposa presa, fala que é diferente o homem e a mulher. Mas ela acredita firme na sentença que diz que o amor tudo supera. Ela lida com a ansiedade para abraçá-lo e contar sobre como estão sendo os dias com as crianças do lado de fora.

Nas certezas que tínhamos sobre essas mulheres, com mantras prontos justificando os motivos de seguir, se perdem no olhar certeiro de Marília que ao falar de seu Dirceu, diz; “ Não sou confiante nessa teoria (de que ao sair ele a procuraria), confio no que eu sinto… Continuo vindo por amor”.

Diferente do glamour exposto pelas cunhadas ou a notícia cheia de fábulas que um veículo de notícias postou, afirmando que esposas, filhas e mães de presos serviam de moeda de troca lá dentro, essas mulheres enfrentam com coragem suas mágoas, medos e inseguranças em relação aos seus futuros.








Você pode gostar