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“Cunhadas”, companheiras de detentos protestam: “não somos criminosas”

Seu marido tinha sido transferido sem aviso prévio para uma outra unidade prisional em São Paulo. Ela tinha acabado de descobrir

Mariana Tollendal
(Jornal de Brasília / Agência de Notícias CEUB)

Marta Carolina, conhecida nas redes pelo nome de usuário no TikTok @guiadapordeuss011 e Leticia Nascimento, a @abencoada011, já acumularam em seus vídeos mais de 5,1 milhões de curtidas em suas páginas do TikTok. Os parceiros foram privados de liberdade e elas agora mantêm uma produção de conteúdo diária, expondo detalhes de suas vidas ao seu público. Elas se autodenominam “cunhadas”. Em vista de que os maridos são “irmãos de cela”, as companheiras estabeleceram uma relação familiar entre elas.

Na primeira tentativa de contato da reportagem, Marta enviou um áudio pedindo para desmarcar. Sua voz estava trêmula. Ela chorava. Ao fundo, uma criança chorava também. Não era todo dia que aquilo acontecia. Seu marido tinha sido transferido sem aviso prévio para uma outra unidade prisional em São Paulo. Ela tinha acabado de descobrir. Não sabia se ele estava no interior ou em uma prisão ainda mais longe do seu alcance. Combinamos de nos falar em um outro momento e dois dias à frente, ela retornou.

O apelido “cunhada” é utilizado para designar mulheres que aguardam seus respectivos parceiros fora dos muros do presídio. Em estudo recente, a cientista social e mestranda da Universidade Federal do Ceará (UFCE), Fernanda Lobato, pesquisou relacionamentos como os de Marta e Letícia, e afirma que mulheres de preso sofrem com invisibilidade social. O preconceito da sociedade e a incompreensão dessa realidade geram um afastamento de atividades diárias que é compensado por calor e audiência nas redes sociais.

Marta explica que a opressão começa quando ligamos no presídio para pedir informações. “Mulheres de presos são vistas como criminosas também. Não acho justo, sinto como se as pessoas não conseguissem separar. Não dá para generalizar.”

O Brasil tem a quarta maior população carcerária do mundo. Cerca de 550 mil pessoas estão presas no Brasil, mas o sistema prisional brasileiro foi projetado para abrigar um pouco mais de 300 mil detentos. O resultado deste déficit é a superlotação, que vem acompanhada de maus-tratos, doenças, motins, rebeliões e mortes.

De acordo com dados do Sistema Integrado de Informações Penitenciárias do Ministério da Justiça, o país tem hoje a quarta maior população carcerária do mundo e está atrás apenas dos Estados Unidos, da China e da Rússia. Nos últimos vinte anos, o número de presos cresceu 251%.

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Elas têm diferentes nichos de produção de conteúdo na internet. Maquiagem, culinária, música, viagens entre outros. Estes nichos representam uma realidade específica de uma bolha social considerada normalizada dentro dos padrões sociais. Foi pensando nessa logística que Letícia criou sua página no TikTok.

“A realidade que eu vivia em silêncio no cotidiano foi a que eu escolhi compartilhar. O estilo de vida das mulheres brasileiras varia. Mulheres de homens presos sempre existiram e sempre vão existir. Mas não temos muitos exemplos de representatividade. A sociedade espera que sejamos isoladas, como se compactuássemos com o que os nossos parceiros fizeram. Mas eu não fui colocada nessa situação por opção.”

Reviravolta

Letícia é auxiliar de dentista e vive em Carapicuíba (SP), visita o companheiro há dois anos, mas está junto com ele desde 2013. Sua rotina consiste em trabalho, dedicação e esforço para pagar contas e viver sua independência. Mas antes disso, vivia um relacionamento tranquilo com o seu parceiro dentro de casa. Ela diz com um sorriso no rosto que não o abandonaria pelo que aconteceu e garante que ele faria o mesmo por ela.

A viagem de ida à vista é animada e cheia de expectativas. A volta é triste e permeada de cansaço, e um trecho de um pagode do Exaltasamba dá o tom do que fica, a saudade: “Olha só como é bom / Amanhecer assim / Nosso amor tem o dom / De superar o fim / Meu amor, fica um pouco mais aqui.”

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Em um vídeo recente ela publicou o texto: “A gente não apoia o traficante, a gente apoia o irmão, o marido, o filho, seja lá qual for a ligação. Acreditamos na mudança, na tão sonhada segunda chance e na pessoa que existe ali dentro, que mesmo cheia de defeitos, não deixamos de amar, afinal, ninguém nasce bandido.”

Para ambas, os comentários nas redes variam. No começo foram recebidas com estranheza, mas ao longo do tempo, pessoas que se identificaram com essa realidade deram forças a criação de conteúdo que elas compartilhavam. Comentários do tipo “Marmita de bandido”, “bandida, tem que ser presa”, foram substituídos por “Eu também passei por isso” e “Admiro sua força”. Mas nem tudo são flores.

Marta comentou que quando recebe comentários de meninas que se sentem inspiradas a viver essa realidade, pensando num cotidiano romantizado, ela contradiz. Não recomenda a ninguém o estilo de vida que está vivendo. “Só Deus sabe como é sofrido. Em alguns casos não existe opção a não ser enfrentar com fé a realidade. Se fosse por opção, a maior parte de nós não estaria aqui. Então, não recomendo que ninguém busque esse tipo de relacionamento.”

As cunhadas estão mais unidas do que nunca e se aconselham entre si. Existem muitas dificuldades por trás de um vídeo de 15 segundos, e as redes sociais só mostram o que os outros decidem postar. Essa é uma projeção criada e não necessariamente a que é vivida.

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Vale destacar que a maior parte das mulheres de presos arcam financeiramente com os advogados dos companheiros e os jumbos, que são a cesta de produtos autorizados pela administração penitenciária para serem enviados pelas famílias dos presos.

As filas de visitação no Brasil têm gênero.

E é sobre isso que fala a socióloga Rosângela Teixeira. Ela estudou como são construídos os laços de afeto em torno da prisão, principalmente nas visitas, que faz com que as mulheres —que ela identificou ser a maioria dos visitantes a pessoas em situação de cárcere — se desloquem centenas de quilômetros toda a semana.

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