Jornal de Brasília

Informação e Opinião

Professor M.

Mundo BANI versus Mundo VUCA

O Mundo BANI apresenta uma nova visão e um novo olhar com relação à abordagem difundida e adotada pelo Mundo VUCA.

Por Prof. Manfrim 10/01/2021 10h46

 

Para quem imaginava que o Mundo VUCA era suficiente para resumir o estado atual de caos em que vivemos e que a realidade não seria alterada tão drasticamente nos últimos anos, surge o Mundo BANI para atualizar a perspectiva da instabilidade que experimentamos.

Desde que foi criado no final da década de 1980, a concepção de VUCA vem sendo considerada a melhor visão da volatilidade imperativa até então, provando ser um termo útil e que faz sentido frente ao mundo das últimas décadas.

O termo VUCA é um acrônimo do idioma inglês que significa Volatile, Uncertain, Complex e Ambiguous. Na língua portuguesa temos como significado Volátil, Incerto, Complexo e Ambíguo. Emergiu no período pós-Guerra Fria em um cenário de globalização fortemente digital e de interconexão em ascensão.

Surgiu no US Army War College no final dos anos 1980, se popularizando rapidamente no meio militar nos anos 1990 e, no início dos anos 2000 inspirou artigos e livros sobre planejamento estratégico e estratégias de negócios com a abordagem VUCA.

– Volatilidade

Trata-se da velocidade em que as mudanças ocorrem dentro e fora do mundo dos negócios, como ações de empresas, estratégias de marketing, posicionamento de mercado e negociações. [1]

– Incerteza

Por estarmos em um mundo tão volátil, onde tudo pode acontecer e até mesmo nada ocorrer, a incerteza é presente a todo momento. Não há como ter previsões certeiras em um sistema caótico. O simples fato de fazer previsões pode influenciar nos resultados. [1]

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– Complexidade

A junção da volatilidade, incertezas e a velocidade da tecnologia faz com que o mundo dos negócios seja um ambiente altamente complexo e caótico. [1]

– Ambiguidade

Volatilidade, incerteza e complexidade deixa as tomadas de decisões das organizações cada vez mais difíceis e sem chances de previsões. [1]

Assim, o conceito foi rapidamente internalizado pelas organizações, se tornou uma terminologia comum no meio empresarial e passou a ser uma ferramenta para análise de cenários, pensamentos complexos, simulações e modelos de visão de futuro.

Dessa forma, o termo VUCA moldou e orientou as decisões corporativas e governamentais no final do século 20 e início do século 21 mundo afora, suprindo a necessidade de criar perspectivas para um futuro indefinido.

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Contudo, alguns estudiosos e pensadores vem considerando e adotando uma nova abordagem ao momento que vivemos atualmente e sob o futuro que virá para as sociedades, as instituições e as organizações públicas e privadas, o conceito BANI.

O Mundo BANI

Certamente vivemos atualmente um novo paradigma com a questão sanitária e a aceleração do mundo digital em nossas vidas, onde precisamos de uma nova abordagem e linguagem analítica e explicativa, como também uma visão das consequências futuras.

Nesse sentido, o termo VUCA ficou insuficiente e não consegue abordar completamente as consequências contínuas e apresentar as respostas necessárias, abrindo espaço para a abordagem BANI, termo apresentado pelo antropólogo e futurologista norte-americano Jamais Cascio, em um evento no Institute For The Future (IFTF) em 2018.

Jamais Cascio publicou um artigo no Medium intitulado Facing the age of Chaos em abril de 2020, onde manifestou que “Os métodos que desenvolvemos ao longo dos anos para reconhecer e responder às interrupções comuns são cada vez mais inadequados quando o mundo parece estar desmoronando.”

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“Este momento atual de caos político, desastres climáticos e pandemia global demonstra vividamente a necessidade de uma forma de dar sentido ao mundo, a necessidade de um novo método ou ferramenta para entender as formas que essa era de caos vai tomar”, complementou Cascio.

O acrônico BANI vem das palavras inglesas Brittle, Anxious, Nonlinear e Incomprehensible. Na língua portuguesa temos como significado Quebradiço/Frágil, Ansioso, Não-linear e Incompreensível.

Dessa maneira, vislumbra-se uma tentativa nova de olharmos como o mundo se apresenta hoje, procurando tangibilizar os aspectos vividos atualmente e construir uma nova linguagem para o mundo organizacional atual e do futuro.

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O consultor, palestrante e pesquisador alemão Stephan Grabmeier destaca quatro pontos da mudança do mundo VUCA para o BANI:

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– O que costumava ser volátil deixou de ser confiável;

– As pessoas não se sentem mais inseguras, estão ansiosas;

– As coisas não são mais complexas, em vez disso, obedecem a sistemas lógicos não lineares;

– O que costumava ser ambíguo parece incompreensível para nós hoje.

Para Jamais Cascio, “BANI é uma forma de enquadrar melhor e responder ao estado atual do mundo. Muitas das convulsões agora em curso não são familiares, são surpreendentes e completamente desorientadoras. Elas se manifestam de maneiras que não apenas aumentam o estresse que experimentamos, mas também multiplicam esse estresse”.

Vejamos um pouco mais o que cada um dos termos do acrônico BANI significa.

“B” de Brittle, Quebradiço/Frágil.

Se no mundo VUCA a Volatilidade é imperiosa, no Mundo BANI o extremo do “V” foi atingido com o “B”, com a fragilidade, o quebradiço, a suscetibilidade a falhas súbitas e catastróficas de coisas que aparentemente, ou inicialmente, parecem confiáveis, flexíveis e inquebráveis.

“Sistemas frágeis não falham graciosamente, eles se estilhaçam. A fragilidade geralmente surge de esforços para maximizar a eficiência, para extrair até a última gota de valor – dinheiro, energia, comida, trabalho – de um sistema”, afirma Cascio.

Logo, “[…] no mundo atual geopolítico, econômico e tecnologicamente interconectado, um colapso catastrófico em um país pode causar um efeito cascata em todo o planeta”, diz Cascio.

Além disso, “[…] nossos sistemas críticos estão essencialmente interligados e não possuem sistemas à prova de falhas. Se um componente falhar, o resultado pode muito bem ser uma série de sistemas falhando e caindo como dominós, um após o outro”, salienta Grabmeier.

Uma vez que sistemas dependentes de exploração extrema de recursos e produção máxima de produtos e serviços, correm o risco de falhas e quebras de elos podem influenciar o mundo dos negócios interconectado, devemos considerar a probabilidade desse universo ruir organizações, mercados e até sociedades.

“A” de Anxious, Ansioso.

Em um mundo intensamente conectado, imaginar que o planeta ao qual vivemos e da qual conhecemos pode mudar drasticamente, acaba gerando ansiedade nas pessoas. “Se você está ansioso, também se sentirá impotente e incapaz de tomar decisões”, salienta Cascio.

Por outro lado, a mídia, redes sociais e distribuidores de informações parecem querer aumentar o estado de ansiedade das pessoas. Acabamos ficando sujeitos a um ambiente envolto de desinformação, fake news, notícias falsas, pseudo-especialistas, exageros ideológicos, teorias da conspiração e extremismos sociais.

Portanto, “A desinformação é a cristalização do que provoca ansiedade”, enfatiza Cascio.

“No entanto, ao se mover geralmente em um ambiente moldado pela ansiedade, o objetivo é aprender a lidar com essas circunstâncias de maneira produtiva. Depende de nós obter uma visão positiva das coisas – e podemos fazer isso sendo claros em nossas próprias mentes. A partir dessa base, podemos deduzir aspectos positivos, oportunidades e potenciais de melhoria”, destaca Grabmeier.

Logo, não estamos em 100% das vezes no controle de 100% das coisas!

“N” de Nonlinear, Não-linear.

O que significa Complexo na letra ”C” do mundo VUCA se tornou agora o “N” do Não-linear do mundo BANI. A complexidade não deixou de existir, mas agora está sob a ótica de interferências e resultados de decisões e ações tomadas ou não, que podem gerar equilíbrios ou desequilíbrios.

Como disse Cascio, “[…] em um mundo não linear, causa e efeito são aparentemente desconectados ou desproporcionais. Talvez outros sistemas interfiram ou obscureçam, ou talvez haja histerese oculto, enormes atrasos entre a causa visível e o efeito visível”.

Sob o mesmo ponto de vista, Grabmeier destaca que: “(i) Pequenas decisões têm impactos desproporcionais que podem ser benéficos e devastadores; (ii) Mudanças levam a consequências com grandes atrasos ou só mais tarde se tornam tangíveis; (iii) Muito não vai necessariamente ajudar muito, e um grande esforço pode simplesmente fracassar”.

Dessa maneira, não existe uma correlação linear entre as decisões tomadas e (ou) ações realizadas com os resultados, consequências, esforços e temporalidade.

“I” de Incomprehensible, Incompreensível.

Quantas coisas acontecerem diariamente que não somos capazes de compreender e entender a origem e vislumbrar os resultados. O que tratamos como ambiguidade no mundo VUCA aqui vislumbramos como incompreensível.

Apesar de vivermos atualmente em um mundo com acesso e excesso de informação, estamos constantemente procurando respostas e não as achamos. “Nunca tivemos tanto acesso a dados e informações, mas estamos em crise com nossa capacidade de analisar esses dados e transformar tudo isso em conhecimento e ações”, afirma Paula Costa, professora da ESPM.

“Mais dados – até mesmo big data – podem ser contraproducentes, sobrecarregando nossa capacidade de entender o mundo, tornando difícil distinguir ruído de sinal. A incompreensibilidade é, com efeito, o estado final da ‘sobrecarga de informações’”, destaca Cascio.

Contudo, essa incompreensão não é permanente, ela é na verdade temporária, não significa incompreensível para sempre. Certamente, o aprendizado, entendimento e a assimilação de dados e informações levarão a novas descobertas.

Como diz o criador do acrônico BANI, Jamais Cascio, “[…] A estrutura BANI oferece uma lente para ver e estruturar o que está acontecendo no mundo. Pelo menos em um nível superficial, os componentes da sigla podem até sugerir oportunidades de resposta: fragilidade poderia ser enfrentada com resiliência e folga; ansiedade pode ser aliviada com empatia e atenção plena; Não-linearidade necessita de contexto e flexibilidade; incompreensibilidade pede transparência e intuição. Essas podem muito bem ser mais reações do que soluções, mas sugerem a possibilidade de que respostas possam ser encontradas.”

 

Como complemento à visão desse texto, sugiro a leitura dos artigos “A riqueza da informação cria a pobreza da atenção”, “O Cisne Negro das Organizações” e “As Empresas, o Cisne Negro e o Peru Natalino”.

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[1] Wikipédia. Volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade. Acesso em: 10 de jan. de 2021.

 

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Prof. Manfrim, L. R.

Fanático em Gestão Estratégica (Mestrado). Obcecado em Gestão de Negócios (Especialização). Compulsivo em Administração (Bacharel). Consultor pertinente, Professor apaixonado, Inovador resiliente e Intraempreendedor maker.

Explorador de skills em Gestão de Pessoas, Gestão Educacional, Visão Sistêmica, Holística e Conectiva, Marketing, Inteligência Competitiva, Design de Negócios, Criatividade, Inovação, Empreendedorismo e Futurismo.

Coautor do Livro “Educação Empreendedora no Distrito Federal”. Colaborador no Livro “O futuro é das CHICS: como construir agora as Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis”.

Navegador atual nos mares do Banco do Brasil, Jornal de Brasília e Instituto Brasileiro de Cidades Inteligentes, Humanas e Sustentáveis. Já cruzei os oceanos da Universidade Cruzeiro do Sul, Centro Universitário do Distrito Federal (UDF), Cia Paulista de Força e Luz (CPFL), IMESB-SP, Nossa Caixa Nosso Banco, Microlins SP, Sebrae DF e Governo do Distrito Federal.

Contato para palestras, conferências, eventos, mentorias, hackathons e pitchs: [email protected]

Linkedin – Prof. Manfrim

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