O ativista brasileiro Thiago Ávila e o espanhol-palestino Saif Abu Keshek, interceptados na última quinta-feira quando se dirigiam com a flotilha Global Sumud rumo à Faixa de Gaza, já estão em Israel para serem interrogados, informou a chancelaria israelense neste sábado (2).
“Chegaram a Israel. Serão transferidos a fim de serem interrogados pelas autoridades”, acrescentou o ministério israelense das Relações Exteriores.
Na sexta-feira, Brasil e Espanha protestaram após vir à tona a informação de que os dois ativistas seriam enviados a Israel, que os acusa de ter vínculos com a Conferência Popular para os Palestinos no Exterior (PCPA, na sigla em inglês), uma associação acusada pelos Estados Unidos e por Israel de trabalhar por conta do Hamas.
Neste sábado, o governo espanhol denunciou uma detenção “ilegal”.
“Estamos diante de uma detenção ilegal em águas internacionais, fora de toda jurisdição das autoridades israelenses e, portanto, Said Abu Keshek tem que ser posto em liberdade imediatamente para voltar à Espanha”, disse o ministro espanhol das Relações Exteriores, José Manuel Albares, em declarações à rádio catalã Rac1 neste sábado.
A chancelaria israelense assinalou, em postagem no X, que Thiago Ávila e Said Abu Keshek “receberão uma visita consular dos representantes de seus respectivos países em Israel”.
O ministério lembrou que a PCPA está sob sanções dos Estados Unidos e acrescentou que Abu Keshek é “um membro de destaque”, e que Ávila “trabalha” com a mesma e é “suspeito de atividades ilegais”.
Em seu site na internet, o Departamento do Tesouro americano afirmou, em janeiro, ao anunciar as sanções contra a PCPA, que esta organização está por trás da expedição de outra flotilha, que em outubro tentou romper o bloqueio naval imposto por Israel à Faixa de Gaza, e que também foi interceptada pelas forças israelenses.
A bordo da mesma estavam Thiago Ávila e personalidades como a ambientalista sueca Greta Thunberg e a ex-prefeita de Barcelona Ada Colau.
O Tesouro americano sustenta que esta organização tem como objetivo que o Hamas “expanda clandestinamente sua influência política, por meio de um grupo que supostamente representa os interesses da diáspora palestina”.
– Um território sob bloqueio de Israel –
Thiago Ávila e Saif Abu Keshek faziam parte da flotilha humanitária Global Sumud que, com mais de 50 embarcações, partiu de diferentes portos de Itália, França e Espanha rumo a Gaza.
Ávila tinha participado pouco antes de outra flotilha que conseguiu chegar a Havana, no fim de março, para denunciar o bloqueio energético do governo Trump a Cuba.
Os ativistas queriam romper o bloqueio israelense na Faixa e entregar ajuda humanitária a este território devastado por dois anos de guerra entre o Hamas e Israel, que começou em 7 de outubro de 2023, com a ofensiva surpresa de comandos islamistas no sul do território israelense.
O acesso ao território segue sob estrito controle de Israel, meses depois da trégua precária instaurada em outubro do ano passado.
As forças israelenses interceptaram, na quinta-feira, mais de 20 embarcações e com elas, 175 ativistas de várias nacionalidades. Os organizadores denunciaram que 211 companheiros foram “sequestrados” pelos israelenses.
Todos eles, com exceção do brasileiro e do espanhol-palestino, foram levados na sexta-feira para a ilha de Creta pela guarda-costeira grega, para então serem devolvidos a seus respectivos países.
Após chegarem à Grécia, cerca de 30 foram hospitalizados para receber os “primeiros socorros”, segundo as autoridades gregas, que não deram detalhes.
A flotilha publicou no X vídeos de vários ativistas feridos com sinais de golpes nos olhos e no nariz. “Tentamos impedi-los que levassem Thiago e Saif… Foi então que nos agrediram”, explicou um deles.
O movimento islamista palestino Hamas denunciou estes supostos atos de violência e incentivou os militantes a “continuarem com seus esforços para romper o sítio e expor os crimes da ocupação (israelense) contra nosso povo”.
Cerca de 60 voaram na noite de sexta-feira para Istambul, entre eles 18 turcos, cinco argentinos, três espanhóis e quatro americanos.
A AFP verificou, com base em dados fornecidos pelos organizadores, que as embarcações foram interceptadas na zona econômica exclusiva (ZEE) da Grécia.
Agence France-Presse