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Política & Poder

Advogados de réus da trama golpista temem que judicialização atrase redução das penas

Líderes petistas anunciaram que vão acionar o STF. A sigla entende que a nova lei não respeita o princípio da impessoalidade

Redação Jornal de Brasília

02/05/2026 7h52

golpistas 8 janeiro

Foto: Agência Brasil

LUÍSA MARTINS
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)

Advogados de condenados pela trama golpista e pelo 8 de janeiro já começaram a preparar os pedidos de redução de pena que serão feitos ao STF (Supremo Tribunal Federal) com base no PL da Dosimetria, mas temem que a judicialização do tema atrase a análise desses requerimentos.

Em um novo revés para o governo, o veto do presidente Lula (PT) à proposta foi derrubado nesta quinta-feira (30) pelo Congresso Nacional. Líderes petistas anunciaram que vão acionar o STF. A sigla entende que a nova lei não respeita o princípio da impessoalidade, pois foi articulada para beneficiar um grupo específico de pessoas, entre elas o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Na avaliação de cinco advogados ouvidos pela Folha, representantes de réus dos núcleos 1 e 2 da tentativa de golpe de Estado, nenhuma decisão sobre a diminuição das sentenças será tomada pelo ministro Alexandre de Moraes antes de a corte decidir se a lei é ou não compatível com a Constituição.

A depender de quem for sorteado o ministro relator das ações do PT, esses advogados não descartam a hipótese da concessão de uma liminar que suspenda temporariamente a efetividade do PL da Dosimetria, até que o julgamento de mérito seja concluído pelo plenário do Supremo.

A leitura de que a judicialização pode postergar a efetiva redução das penas também é compartilhada por integrantes da DPU (Defensoria Pública da União), órgão que presta assistência jurídica a mais de 200 pessoas envolvidas na invasão e na depredação das sedes dos Três Poderes, em 2023.

A partir da próxima semana, quando a lei entrar oficialmente em vigor, os advogados e defensores públicos pretendem confrontar as alterações no texto com as penas decididas pela Primeira Turma do STF quando julgou as ações penais. Com esses dados em mãos, vão pedir à corte o recálculo.

As defesas entendem que, se a lei for considerada constitucional, Moraes não terá outra alternativa senão deferir os pedidos, caso a caso. Porém, reconhecem que o tema é sensível e envolto por tensões, especialmente no momento atual da relação entre os Poderes.

O que muda no PL da Dosimetria

 Como eraComo fica
1. Cálculo da pena para crimes em concursoPenas somadas quando há vários crimes no mesmo contexto. Ex.: golpe + abolição do Estado = penas acumuladasAplica-se só a pena do crime mais grave, com acréscimo proporcional. Ex.: Jair Bolsonaro: pena cai de 27 anos e 3 meses para 22 anos e 1 mês
2. Progressão de regime para crimes políticosCrimes com violência ou grave ameaça: mínimo de 25% da pena no regime fechado para réus primários progredirem. Crimes contra a democracia se enquadravam nessa regra mais rígidaPara crimes contra o Estado Democrático: mínimo cai para 1/6 da pena (16%), mesmo com violência ou ameaça. No caso de Bolsonaro, tempo em regime fechado cai do intervalo atual de 6 a 8 anos para entre 2 anos e 4 meses e 4 anos e 2 meses (cabe interpretação)
3. Redutor por participação em multidãoSem previsão de redutor para quem participou de crimes coletivos sem papel de liderança ou financiamentoRedução de 1/3 a 2/3 da pena para quem atuou em contexto de multidão sem ser líder ou financiador. Aplica-se a parte dos condenados pelo 8 de janeiro
4. Progressão para crimes hediondos art. 112 da LEPHomicídio qualificado, estupro, latrocínio: 70% da pena para primários. Feminicídio: 75%. Organizações criminosas: 75%Não muda. Trecho retirado por Alcolumbre antes da votação para não conflitar com a Lei Antifacção, que endureceu regras para esses crimes em março/2026

Em dezembro, quando a Primeira Turma do STF terminou de julgar os réus do núcleo 2, Moraes se manifestou contra o PL da Dosimetria, que seria aprovado pelo Congresso no mês seguinte. “Atenuar as penas seria um recado à sociedade de que o Brasil tolera ou tolerará novos flertes contra a democracia”, disse o magistrado.

O ministro Flávio Dino entende que a mudança na lei penal é uma atribuição do Legislativo, mas também se posicionou contra a medida. “O Congresso pode mudar? Pode. Eu, particularmente, espero que não o faça, porque considero que a lei vigente é boa”, afirmou ele em outubro do ano passado, durante um evento em São Paulo.

O PL da Dosimetria diz que as penas pelos crimes de tentativa de golpe de Estado e de abolição violenta do Estado democrático de Direito não devem ser aplicadas de forma cumulativa quando inseridas no mesmo contexto —caso dos réus da trama golpista e do 8 de Janeiro. Valerá a pena mais grave ou, se iguais, apenas uma delas, aumentada de um sexto até a metade.

Com as novas regras, Bolsonaro, que foi condenado a 27 anos e três meses de prisão por liderar a trama golpista, pode passar menos tempo em regime fechado (ele está em domiciliar temporária, devido a problemas de saúde). Se a expectativa atual é de 6 a 8 anos, a nova lei pode diminuir esse prazo para entre 2 anos e 4 meses e 4 anos e 2 meses, a depender da interpretação.

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