LAURA INTRIERI, MARIA CLARA MATOS, JULIANA ARREGUY, ALANA MORZELLI E GUILHERME ALMEIDA
BRASÍLIA, DF, SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Expoentes da esquerda e ex-integrantes do governo usaram o 1º de Maio para atacar o Congresso Nacional e vincular a derrubada do veto ao PL da Dosimetria ao escândalo do Banco Master, em resposta a uma semana de derrotas do presidente Lula (PT) no Legislativo.
Pré-candidatos nas eleições deste ano em São Paulo, os ex-ministros Fernando Haddad (Fazenda), Marina Silva (Meio Ambiente) e Simone Tebet (Planejamento), além da deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), participaram de atos sindicais no estado, ensaiando um discurso que deve se estender nos próximos meses.
Parlamentares voltaram a ser anunciados por integrantes do governo Lula como “inimigos do povo” ou responsáveis por atravancar melhorias no Brasil.
A semana foi marcada pela rejeição do nome de Jorge Messias ao STF (Supremo Tribunal Federal) pelo Senado, na quarta-feira (29), e pela derrubada do veto presidencial ao PL da Dosimetria, na quinta (30), em sessão do Congresso. O projeto reduz penas de condenados por tentativa de golpe de Estado, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
No ato da Força Sindical, na Liberdade (centro de São Paulo), Haddad, que disputará o Governo de São Paulo contra Tarcísio de Freitas (Republicanos), afirmou que a aprovação do projeto é resultado de um acordo pela impunidade.
“Sou da opinião de que essa dita derrota no Congresso foi uma derrota do combate à corrupção. Eu compartilho com os analistas que tenho lido nos jornais de que por trás dessa derrota tinha uma pretensão de um grande acordo em torno da impunidade daqueles responsáveis por alguns escândalos recentes no Brasil”, disse o ex-ministro, ao lado de Marina e Tebet.
Em discurso na praça Roosevelt, também no centro da capital, no ato do VAT (Vida Além do Trabalho), Marina, pré-candidata ao Senado, classificou a votação como “uma vergonha”.
“Aqueles que atacaram a nossa democracia, que temem a nossa soberania, querendo diminuir a pena com um discurso falso, hipócrita, de que é por aquele coitado que não sabia o que estava fazendo”, afirmou. “A pena para eles não deveria ser menor, deveria ser maior.”
Conforme mostrou a Folha, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), fez um acordo com a oposição para pautar a derrubada do veto e enterrar o pedido de instalação da CPI do Master, instituição financeira liquidada pelo Banco Central.
Flávio Bolsonaro (PL-RJ) negou nesta sexta o acordo e disse que “quem tem dificultado a apuração é o Partido dos Trabalhadores, que não assinou a instalação da CPMI”.
Também na praça Roosevelt, Hilton, pré-candidata à reeleição e autora de uma das PECs (Propostas de Emenda à Constituição) contra a escala 6×1, classificou a aprovação da derrubada do veto como “uma espécie de anistia disfarçada”.
Em nota, a deputada disse se tratar de proteção a uma classe política “corrupta”, com interesse em atacar o STF e viabilizar impeachment de ministros da corte. “É uma decisão que, inevitavelmente, fragiliza o Congresso diante do povo e a democracia brasileira diante do mundo”, acrescentou.
A ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, conclamou os manifestantes a transformar o ato em campanha eleitoral.
“Nós temos que dar uma resposta. Nós temos que reeleger o presidente Lula, mas nós temos também que eleger parlamentares que tenham compromisso com as pautas sociais, que tenham compromisso com a nossa vida, com a medida social e a liberdade democrática. Vamos juntos para derrotar esse Congresso inimigo do povo.”
As declarações se contrapõem ao posicionamento de cotados à disputa presidencial em 2026 que prometeram anistiar Bolsonaro caso eleitos —Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo), além de Tarcísio, que acabou decidindo disputar a reeleição em São Paulo. Bolsonaro foi condenado a 27 anos e 3 meses de prisão pelo STF por liderar tentativa de golpe de Estado.
O apelo eleitoral no 1º de maio foi reforçado por Haddad, que cobrou a aprovação do fim da escala 6×1 antes do pleito de outubro. O governo enviou ao Congresso, há duas semanas, projeto que reduz a jornada para 40 horas semanais sem corte de salário.
O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Moisés Selerges, pré-candidato a deputado federal pelo PT, afirmou que “a classe trabalhadora está fungando no pescoço dos deputados para que a lei passe”. O presidente da Força Sindical, Miguel Torres, classificou o tema como “um clamor geral da classe trabalhadora brasileira”.
À tarde, no ato dos metalúrgicos no ABC, ao lado dos ministros Luiz Marinho (Trabalho) e Leonardo Barchini (Educação), o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL), atribuiu o travamento da pauta no Legislativo a pressões empresariais.
“Tudo aquilo que depende do governo do presidente Lula está sendo feito. Agora, o que depende do Parlamento, lamentavelmente, travou no lobby da Uber, no lobby do iFood e no lobby das grandes plataformas”, disse a jornalistas.
O deputado Paulinho da Força (Solidariedade-SP), relator do PL da Dosimetria na Câmara e ex-presidente da Força Sindical, esteve no ato da central, na Liberdade. Anunciado para compor a mesa de autoridades ao lado de Haddad, Marina e Tebet, optou por não subir ao palco. No auditório, um manifestante exibia cartaz com a frase “Paulinho, que confusão, o PL da Dosimetria vai soltar estuprador e ladrão”.
Haddad também afirmou que o empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro na pesquisa Datafolha divulgada no dia 11 só pode ser explicado por uma “lavagem cerebral coletiva” e prometeu adotar “escala 7×0” na campanha pela reeleição do petista. O levantamento mostrou Flávio com 46% das intenções de voto contra 45% de Lula no segundo turno, dentro da margem de erro.
Lula não participou dos atos pelo segundo ano consecutivo. Em 2024, o presidente havia criticado a baixa adesão à manifestação realizada em Itaquera, na zona leste paulistana.