JÚLIA GALVÃO
FOLHAPRESS
“Você não resolve o problema do cartão, você resolve o problema do cidadão”, afirmou o vice-presidente executivo da Abecs (Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços), Ricardo de Barros Vieira, ao comentar as propostas do governo para reduzir o endividamento das famílias.
Segundo ele, não adianta tentar resolver apenas a questão da fatura do cartão seja no crédito rotativo ou no parcelado de forma isolada. Para que a renegociação seja eficaz, é necessário considerar o “conjunto da obra”, incluindo outras dívidas, como cheque especial e crédito pessoal, para de fato recuperar a capacidade de pagamento do consumidor.
A fala foi feita durante o 19º CMEP (Congresso de Meios Eletrônicos de Pagamento), em meio às discussões do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para enfrentar o endividamento.
Entre as medidas em estudo pelo governo está a liberação de recursos do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) para quitação de dívidas, incluindo um saque extraordinário com uso direcionado e o destravamento de cerca de R$ 7 bilhões hoje retidos como garantia em operações de antecipação do saque-aniversário.
Para Giancarlo Greco, presidente da Abecs e CEO da Elo, iniciativas pontuais podem aliviar a situação no curto prazo, mas não resolvem o problema estrutural. Greco também destacou que há limitações em tentar reduzir o custo de linhas de crédito específicas sem considerar o risco envolvido.
“Enquanto a gente não olhar para isso de uma forma estrutural, dificilmente [resolverá], porque você está tentando pegar o preço de um instrumento de financiamento sem garantia e querendo colocar o preço de um instrumento com garantia”, disse.
Na avaliação do setor, mudanças focadas apenas em produtos podem ter efeitos colaterais. “Você destruir um produto ou simplesmente mexer com um produto talvez seja mais complexo do que você oferecer novas opções”, afirmou o executivo.
Além disso, segundo o presidente da associação, representantes do setor têm participado de reuniões com o Ministério da Fazenda para discutir alternativas relacionadas ao crédito e à inadimplência das famílias.
De acordo com a Abecs, os cartões já representam 59,3% do consumo das famílias e 38,1% do PIB brasileiro. A expectativa é que o volume transacionado ultrapasse R$ 5 trilhões em 2026, com crescimento entre 9,5% e 11,5%. “O plástico [cartão] ainda funciona muito bem porque a conveniência é muito grande”, disse Greco.
Dados da entidade indicam ainda que o crédito rotativo responde por 2,7% do endividamento das pessoas físicas (em fevereiro de 2026). O índice de inadimplência do cartão está em 9,2% e segue em trajetória de alta, ainda que em ritmo menor neste ano. Ao mesmo tempo, a associação afirma que 74,4% do saldo da carteira não tem juros, e cerca de 85% dos consumidores pagam a fatura em dia.
CARTÕES MOVIMENTAM R$ 4,5 TRI EM 2025
Segundo a entidade, os cartões movimentaram R$ 4,5 trilhões em 2025, alta de 10,1% em relação a 2024.
O total de transações chegou a 48,1 bilhões, com média de 132 milhões de operações por dia.
O cartão de crédito liderou o crescimento, com alta de 14,5% e R$ 3,1 trilhões movimentados. O débito somou R$ 1 trilhão. Os pagamentos por aproximação cresceram 31% e atingiram R$ 1,9 trilhão, representando 73,6% das compras presenciais.
A associação também destaca o crescimento do uso do “tap on phone” (celular como maquininha), que atingiu R$ 78 bilhões, com alta de 241,4%.
O parcelado sem juros representou 42,6% das compras com cartão em 2025, com predominância de pagamentos em até seis vezes (64,2%).
SEGURANÇA E PREVENÇÃO A FRAUDES
A segurança e a prevenção a fraudes seguem como prioridades para o setor de cartões. De acordo com a entidade, o índice de fraudes caiu 25,2% nos últimos três anos considerando o valor transacionado e 32% em quantidade de operações.
Levantamento encomendado ao Datafolha aponta que entre os mecanismos utilizados pelos consumidores como prevenção às fraudes estão o recebimento de mensagens de texto a cada compra (57%), digitar a senha em transações presenciais (54%) e o uso de aplicativos do cartão para acompanhar a fatura (54%).
Outras práticas incluem bloquear o cartão em canais de atendimento em caso de suspeita (52%) e utilizar cartões virtuais para compras online (24%).