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Economia

Ibovespa interrompe série negativa com alta de 0,12%; dólar sobe 1,22% e fecha acima de R$ 5,00

Em direção ao fechamento, contudo, os três principais índices de NY viraram para o positivo, o que contribuiu para que o Ibovespa retornasse

Redação Jornal de Brasília

27/09/2023 18h17

Foto: Arquivo/Agência Brasil

Com o real muito pressionado na sessão, em que o dólar à vista tocou, na máxima do dia, a marca de R$ 5,0795, o Ibovespa mostrou resiliência até o início da tarde, mas chegou a sucumbir, depois das 14h, à piora também em Nova York. Em direção ao fechamento, contudo, os três principais índices de NY viraram para o positivo, o que contribuiu para que o Ibovespa retornasse à marca d’água, não tão distante da estabilidade no encerramento do dia, e com sinal positivo no ajuste final.

Na B3, o índice de referência fechou em leve alta de 0,12%, aos 114.327,05 pontos, a meio caminho entre a mínima (113.365,75) e a máxima (115.340,41) do dia, saindo de abertura aos 114.193,51 pontos. Na semana, o Ibovespa cai 1,45% e, no mês, cede 1,22%. No ano, limita a alta a 4,19%. O giro financeiro desta quarta-feira se manteve a R$ 22,8 bilhões, semelhante ao da sessão anterior. E, com o fechamento levemente positivo, o Ibovespa interrompe sequência de quatro perdas, que o havia colocado ontem no menor nível de encerramento desde 5 de junho.

O bom desempenho das ações de commodities, em especial de Petrobras (ON +3,71%, PN +3,17%, ambas nas máximas da sessão no fechamento), contribuía desde cedo para o leve viés positivo do Ibovespa nesta quarta-feira, em dia amplamente favorável ao petróleo, em alta de 3,64% para o WTI e de 2,09% para o Brent, que coloca a referência global acima de US$ 96 por barril, em Londres. A disparada do petróleo na sessão, com a referência americana, o WTI, atingindo o maior nível desde agosto de 2022, a US$ 93,68, decorreu de queda na leitura semanal sobre os estoques nos Estados Unidos, em um contexto de oferta restrita no momento.

Além do forte desempenho de Petrobras na sessão, a oscilação de Vale (ON +0,21%) no fechamento foi importante para o sinal do Ibovespa no fim do dia, com desempenho em geral ruim para as ações do setor financeiro, à exceção de BB (ON +0,87%) entre os grandes bancos. Na ponta do Ibovespa, destaque para Gol (+7,19%), PetroReconcavo (+4,61%) e Prio (+2,92%), além dos papéis ON e PN de Petrobras. No lado oposto, Casas Bahia (-5,00%), Pão de Açúcar (-2,99%), Copel (-2,90%) e Magazine Luiza (-2,86%). 

Mais cedo, as notícias de que o banco central da China vai intensificar o apoio à economia local, e que os líderes do Senado dos EUA fecharam acordo que evita a paralisação do governo, ajudavam a mitigar a percepção de risco desde o exterior, o que também contribuiu, no fechamento, para que o Ibovespa evitasse hoje a quinta perda consecutiva.

“Com o rendimento da T-note de 10 anos a 4,60%, tem-se aí uma taxa livre de risco em nível muito atraente, o que acaba afetando também o nosso câmbio, muito pressionado na sessão de hoje. Há ainda uma preocupação, dúvida, sobre até onde o Federal Reserve poderá ir, embora o consenso, no momento, aponte mais uma alta da taxa de referência americana até o fim do ano. É uma situação de incerteza que afeta também o S&P 500, por lá. Então, com tudo isso, por que vir para um emergente nesse contexto”, diz Cesar Mikail, gestor de renda variável da Western Asset.

Nesta quarta-feira, apesar da melhora observada em parte da tarde, os índices de Nova York fecharam sem direção única, com o Dow Jones ainda em baixa de 0,20%, e S&P 500 e Nasdaq em alta, respectivamente, de 0,02% e 0,22%.

No plano doméstico, Mikail destaca a retomada de receios em torno da situação fiscal, com a percepção de que o governo enfrentará grande dificuldade para cumprir os compromissos com relação ao equilíbrio das contas públicas. “A arrecadação federal nos últimos três meses tem mostrado essa dificuldade, e para melhorar a expectativa será preciso um sinal pelo lado do controle de gastos”, acrescenta.

“Ata dura do Copom apenas, como se viu nesta semana, não me parece que será o suficiente daqui para frente. Serão necessários também sinais do governo quanto a cortes de gastos para que essa melhora de percepção se materialize. Fora disso, com o juro que se tem lá fora, se exigirá aqui mais prêmio. E isso já tem sido observado nos juros longos, que são o que realmente interessa. O fiscal está at risk em risco, o que tem pesado, para além do cenário externo desfavorável. Sinais como os recentes, sobre precatórios, não são bons”, afirma o gestor.

Além das circunstâncias brasileira e americana, “a crise do setor imobiliário na China continua a dar o que falar, com reverberações diretas para nosso mercado”, pela exposição a commodities, observa Gabriel Meira, especialista da Valor Investimentos, referindo-se também ao quadro global, de “juros mais altos por mais tempo”, tendo os Estados Unidos à frente. Assim, como ontem, o dia foi de “dólar para cima e Bolsa para baixo”. E os juros futuros também mostram aversão a risco. 

“O dólar vem ganhando força em relação a referências como o euro, o que se reflete no índice DXY que contrapõe a moeda americana a pares como o próprio euro, a libra e o iene. Na curva de juros, o estresse esteve mais concentrado hoje em vértices curtos e intermediários aqui no Brasil, sobretudo pela manhã, até o início da tarde. E veio devolvendo mais para o fim do pregão, apesar do segundo dia de alta relativamente expressiva”, diz Lucas Serra, analista da Toro Investimentos.

Dólar

O mercado de câmbio doméstico foi engolfado nesta quarta-feira, 27, pela corrida global para a moeda americana e a escalada das taxas de juros longas nos Estados Unidos. Já em alta firme pela manhã, quando ultrapassou a barreira psicológica de R$ 5,00, o dólar à vista ganhou ainda mais força ao longo da tarde, correndo até o nível de R$ 5,07, em sintonia com as máximas das taxas da T-note de 10 e do T-Bond de 30 anos.

Ao temor crescente de juros mais altos por período prolongado nos EUA, reforçado hoje por declarações duras de dirigente do Federal Reserve e pelo avanço do petróleo, soma-se um quadro técnico de pressão das taxas, com leilões robustos do Tesouro americano. Há também receio com a possibilidade de paralisação parcial do governo dos EUA, dado o impasse no Congresso para aprovação do Orçamento. Pela manhã, houve alívio com acordo no Senado para evitar o shutdown, mas o humor voltou a azedar à tarde após o líder da Câmara de Representantes, o republicano Kevin McCarthy, disse “não ver apoio” à proposta na sua Casa. 

Com uma arrancada no meio da tarde, o dólar renovou sucessivas máximas até atingir R$ 5,0795. A moeda perdeu parte do fôlego nas duas últimas de pregão, com arrefecimento do estresse no exterior, e encerrou o dia em alta de 1,22%, cotada a R$ 5,0478 – maior valor de fechamento desde 31 de maio (R$ 5,0730). Como é costumeiro em episódios de aversão ao risco, o real amargou o pior desempenho entre divisas emergentes e de países exportadores de commodities.

A movimentação no segmento futuro, com giro ao redor de US$ 20 bilhões do contrato para outubro, sugere mudanças relevantes de posicionamentos de agentes, em especial dos fundos locais, que mantêm aposta firme a favor do real. Ontem, esses fundos reduziram sua posição “vendida” em dólar em mais de US$ 1,380 bilhão. Operadores observaram que, em determinados momentos do pregão, a taxa à vista ficou acima do dólar futuro mais próximo, o que indica escassez de moeda física.

Dados do fluxo cambial divulgados pelo Banco Central à tarde corroboram esse quadro ao mostrar que há forte saída de recursos do país neste mês. Na semana passada (de 18 a 22), o saldo total foi negativo em US$ 3,646 bilhões, com retiradas líquidas de US$ 3,582 bilhões pelo canal financeiro. No mês, até o dia 22, o fluxo cambial total está negativo US$ 4,795 bilhões. 

O sócio e diretor de Gestão da Azimut Brasil Wealth Management, Leonardo Monoli, afirma que o principal vetor para a alta do dólar hoje é a escalada das taxas dos Treasuries. “O foco do mercado é o comportamento da curva de juros americana, que é influenciada por maior volume de emissão de dívida pelo Tesouro e pela expectativa de juros em média mais elevados por mais tempo nos EUA, como o Fed tem avisado”, afirma Monoli, acrescentando que a alta das cotações internacionais do petróleo também “complicam” o ambiente de juros nos EUA. O contrato do tipo Brent para dezembro fecho hoje em alta de 2,09%, a US$ 94,36 o barril. 

Hoje, o presidente da distrital do Fed em Minneapolis, Neel Kashkari, afirmou que prevê uma elevação adicional de 25 ponto-base na taxa básica americana, mas ressaltou que não descarta a possibilidade de aperto ainda maior. Com direito a voto nas reuniões de política monetária do BC americano, Kashkari disse que o mercado de trabalho e o consumo permanecem muito fortes. “Isso me faz questionar se já fizemos o suficiente”, comentou. 

O diretor de gestão da Azimut Brasil Wealth Management ressalta que o processo de redução do balanço patrimonial do Fed também provoca aperto da liquidez. O BC americano drena recursos que poderiam ser justamente utilizados pelo mercado para absorver as emissões mais robustas do Tesouro. O retorno da T-note de 10 anos ultrapassou hoje a casa de 4,60% e registrou máxima a 4,64350% – nos níveis mais elevados desde outubro de 2007.

“Essa situação resulta na alta global do dólar. É preciso cuidado com divisas latino-americanas de países que estão em ciclo de corte de juros. A alta dos Treasuries está espremida o diferencial entre juros, o que é muito ruim para emergentes”, diz Monoli, acrescentando que a deterioração da atividade da China, embora tenha ficado em segundo plano hoje, também prejudica as divisas latino-americanas. “Temos também um vetor interno de alta do dólar, que é a piora do risco Brasil, com as dúvidas sobre a meta fiscal.” 

Juros

Os juros futuros tiveram nova sessão de forte estresse nesta quarta-feira (27), com taxas voltando a disparar em cima de níveis já muito elevados atingidos nos últimos dias. O ambiente internacional conturbado continuou predominando nos negócios locais, mas o mercado manteve o risco fiscal interno no radar, atento ao noticiário envolvendo a proposta do governo sobre o pagamento dos precatórios. Treasuries, petróleo e dólar formaram a tempestade perfeita a abalar a curva de juros, que ganhou ainda mais inclinação.

Às 17h15, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2025 saltava de 10,702% para 10,895% (máxima de 11,035%) e a de janeiro de 2026 subia de 10,51% para 10,76% (máxima de 10,98%). O DI para janeiro de 2027 voltou a 11,00%, nível que não era visto desde 25 de maio. Tinha taxa de 11,01%, mas com máxima de 11,24% (10,79% ontem no ajuste). E a do DI para janeiro de 2029 marcava 11,51%, de 11,36% no ajuste e 11,73% na máxima.

Dada a adição de prêmios consistente nos últimos dias, o mercado chegou ensaiar um ajuste em baixa, pela manhã, quando a curva dos Treasuries estava relativamente bem comportada respondendo ao acordo fechado pelo Senado dos EUA para evitar o shutdown. No fim da primeira etapa porém, os yields começaram a piorar depois que o líder da Câmara de Representantes, o republicano Kevin McCarthy, disse “não ver apoio” à proposta na sua Casa – que também precisa dar o seu aval.

Além disso, o presidente do Federal Reserve de Minneapolis, Neel Kashkari, alertou para o risco de novas altas de juros caso o aperto já aplicado não surta o efeito desejado na inflação. Previu mais 25 pontos-base, mas disse não descartar a possibilidade de um aperto ainda maior. O alerta, somado aos ajustes decorrentes do leilão de US$ 49 bilhões em T-Notes de 5 anos com demanda abaixo da média, deu combustível para o aumento das taxas. Nas máximas, o retorno da T-Note de dez anos chegou a 4,64%, ainda no maior nível desde 2007, e o do T-Bond de 30 anos a 4,74%.

Com isso, à tarde, as principais taxas dos trechos longo e intermediário do DI chegaram a abrir quase 50 pontos ante os ajustes de ontem, caso por exemplo do janeiro de 2027 que na máxima chegou a 11,24%, de 10,79% ontem no ajuste. “O Brasil está apanhando de todos os lados. A curva bateu stop e não tem mais fundamento”, avaliou o economista Felipe Rodrigo de Oliveira, da MAG Investimentos.

Os preços do petróleo, variável importante para a inflação doméstica, subiram mais de 2%, e, ao mesmo tempo, o dólar manteve-se em valorização generalizada, superando R$ 5 no Brasil No fim da tarde, os mercados como um todo esboçaram reação e os juros dos títulos do Tesouro americano arrefeceram um pouco, afastando os DIs das máximas.

Internamente, os investidores mantêm o foco sobre a questão dos precatórios. “O mercado vê com bons olhos a intenção em regularizar os precatórios, mas reage com cautela na tentativa de reclassificação de tipos de despesa para contabilidade da dívida”, destacam os economistas da Levante Investimentos, em relatório.

Diante da polêmica em torno da proposta para o pagamento das dívidas judiciais, o secretário do Tesouro, Rogério Ceron, deu uma série de entrevistas nesta quarta-feira para explicar a ideia do governo, rechaçando categoricamente avaliações de que o pedido feito ao Supremo Tribunal Federal (STF) tenha caráter de “pedalada”.

“Não tem pegadinha. A gente está resolvendo um problema grave: uma moratória, com ocultamento de dívida pública, que é o que está acontecendo hoje. O Brasil não paga as obrigações em dia perante o mundo. Pagar em dia as contas é uma obrigação do governo”, disse, em entrevista ao Estadão/Broadcast.

Estadão Conteúdo

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