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Johnny Massaro vira diretor em ‘A Cozinha’ e vai de nerd a sex symbol com nova fase

“A Cozinha” chega ao Globoplay depois de sessões disputadas em festivais de cinema como o do Rio de Janeiro

Foto: Jorge Bispo/Divulgação

Leonardo Sanchez
São Paulo – SP

Foi meio que de repente que Johnny Massaro percebeu que estava cansado de zelar por uma pessoa pública que, nem sempre, refletia o que ele queria, pensava ou era.

Em outubro de 2021, então, decidiu assumir publicamente o namoro com outro homem, fato não exatamente definidor de sua personalidade, mas simbólico para que o ator passasse a ser mais vocal em relação às suas opiniões.

“Eu já passei por várias fases de compreensão em relação à exposição. Meu status hoje é vou viver minha vida e o que tiver que ser, será. Em algum lugar eu sinto hoje que preciso me provar menos para mim mesmo”, diz o ator de 31 anos de idade e quase 20 de carreira.

Solteiro há pouco tempo, Massaro fala com este repórter no dia seguinte a uma explosão de fotos suas beijando outro homem num festival de música. “Eu não vou beijar porque posso ser fotografado?”, questiona, mostrando que já não liga mais para isso.

Enganou-se aquele Johnny Massaro menos maduro que um dia pensou que a homossexualidade, ou então o engajamento político à esquerda, podariam sua carreira. De lá para cá, o ator só acumulou luzes de holofote, que culminaram no mocinho que viveu recentemente em “Terra e Paixão”.

“Quando eu comecei a atuar, um ator assumido jamais poderia ser mocinho da novela das oito. E recentemente eu vivi isso sendo assumidamente gay. Eu acho esse fato tão deslumbrante”, afirma. “A partir do momento que a gente vive com honestidade com quem a gente é, não tem como a resposta do outro lado ser negativa. E se for, aí não tem a ver comigo.”

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E não foi só como ator que ele cresceu. Nesta semana, Massaro estreia como diretor de longas-metragens com “A Cozinha”, que chega ao Globoplay depois de sessões disputadas em festivais de cinema como o do Rio.

Fruto de uma experiência teatral em seu apartamento, o filme acompanha um rapaz que depois de anos longe decide convidar o melhor amigo de infância para jantar. Mas os planos de rememorar sua paixonite juvenil dão errado quando a ex do hóspede e a atual parceira do convidado também decidem ficar para a noite.

“O Johnny é um esteta, ele pensa imagem. Isso é algo incrível nele como diretor, porque ele tem muito bom gosto. E tem também um olhar afetuoso para os outros, para a vida. O importante era sempre que a equipe estivesse se sentindo bem no set”, diz Felipe Haiut, que escreveu e estrelou “A Cozinha” e já tem duas outras parcerias com o ator na manga – “A Garagem”, espécie de sequência, e o filme “Aumenta que É Rock ‘n Roll”, no qual atuam.

Originalmente, Massaro encarnava um dos personagens de “A Cozinha”, mas precisou abandonar o palco improvisado em seu apartamento para se dedicar a “Terra e Paixão”. Por isso, limitou sua participação na adaptação para o cinema aos bastidores.

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A ausência de seu rosto em cena, no entanto, não denuncia um distanciamento das telonas. Nos últimos anos, Massaro acumulou papéis de destaque –nos últimos três anos, foram seis filmes, entrecortados por trabalhos na televisão.

“Alice e Só” e “O Auto da Boa Mentira”, mais despretensiosos, vieram antes, mas abriram caminho para as tramas com alto teor social e político de “Doutor Gama”, sobre o advogado negro que libertou centenas de escravos, “Os Primeiros Soldados”, sobre a tragédia da Aids na comunidade LGBTQIA+, “Transe”, um romance a três que se desenrola em meio à campanha que elegeu Bolsonaro, e “O Pastor e o Guerrilheiro”, em que viveu um rapaz preso e torturado pela ditadura militar.

“Eu sempre acabo achando alguma razão, e nem sempre durante o trabalho, para estar fazendo algum personagem. Eu percebo que tal papel tem a ver com algo que eu estava passando. Isso aconteceu em todos os trabalhos que eu já fiz, sempre há um motivo”, diz ele, que vê em “A Cozinha”, por exemplo, uma forma de lidar com sua sexualidade e as violências que sofreu por causa disso.

Massaro vê, em seu trabalho, uma extensão das pautas nas quais acredita, embora afirme que não seja obrigação do artista se posicionar politicamente. Mas ele prefere abraçar suas crenças em público, não há dúvidas. Tanto que no ano passado foi a Brasília junto a uma comitiva de artistas para pressionar parlamentares a reverter a decisão de Bolsonaro que vetava a Lei Paulo Gustavo e a Lei Aldir Blanc 2.

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Pouco depois, foi vaiado por bolsonaristas no Festival de Gramado, por estar lado a lado com José Genoino, ex-presidente do Partido dos Trabalhadores, e Juca Ferreira, ex-ministro da Cultura nos governos Lula e Dilma, para a estreia de “O Pastor e o Guerrilheiro”. Em resposta, a equipe do filme fez a letra “L” com as mãos.

Bem antes, já havia usado as redes sociais para lamentar o impeachment de Dilma Rousseff, que chamou de golpe em 2016, fato que gerou uma onda de ódio e o fez repensar o uso de suas páginas para compartilhar posicionamentos políticos –mas, no fim, a passagem só serviu de combustível mais para frente.

Outro ponto de encontro entre vários de seus trabalhos é o desejo de ser mais franco com o sexo –o seu ou o de seus personagens. Se antes ele despontava nas telas colado à imagem de nerd, na série “Floribella” e na novela “Malhação”, como o tímido e atencioso Fernandinho, ele agora orbita a imagem de galã.

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Não houve timidez para tirar várias peças de roupa sob o título sugestivo de “Transe”, tampouco para dançar sob as luzes iridescentes de uma boate gay em “Primeiros Soldados”. Na segunda parte da série “Verdades Secretas”, protagonizou no Globoplay cenas de sexo que deixariam muitos escandalizados –tanto que elas foram cortadas para a exibição na Globo.

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Ele lambeu os dedos e se pôs de costas para Bruno Montaleone, seu par romântico, e em troca colou os lábios nas nádegas do rapaz, inspirando posts e textos na internet que explicavam no que consistia a prática do beijo grego.

“Eu estava falando, outro dia, sobre o Amaury [Lorenzo] e o Diego [Martins] em ‘Terra e Paixão’, e é uma loucura, porque eles são o casal da novela e eles não se beijam. Em que história contemporânea, gay ou hétero, duas pessoas que se amam não se beijam?”, diz em meio às acusações de que a Globo estaria cortando cenas de intimidade gay em “Terra e Paixão”.

“Em ‘Verdades Secretas’ isso não existia, não era uma questão”, continua ele, entre os tragos de um cigarro enrolado durante a entrevista. “É preciso coragem, porque a sexualidade, o erotismo são constituintes do ser humano. E a sexualidade é muito formatada por poderes e forças que a gente desconhece, então às vezes a gente não consegue viver nossos prazeres plenamente, não consegue gozar, e ‘Verdades Secretas’ explorava isso.”

Em suas redes sociais e nos ensaios fotográficos, fica claro o conforto com o próprio corpo e uma disposição em tentar com a carne. Numa das fotos de seu Instagram, Massaro se enrola em couro para fazer cara de mau sobre uma motocicleta. Em outra, retorce o corpo nu enquanto é engolido pela folhagem de um bosque.

Ao ser questionado se se considera um sex symbol, ele dá risada. “Eu amo a ideia de poder ser isso, mas nem todo mundo vai me encarar dessa forma, e tudo certo. Mas eu confesso que eu gosto de brincar com essa imagem. Foi algo um pouco consciente, até porque eu comecei fazendo personagens nerds e eu me questionei se eu só podia ser isso. Eu queria, também, ser mocinho de novela das oito”, diz.

Conseguiu com “Terra e Paixão”, em que foi metade da dupla de irmãos bonitões formada ainda por Cauã Reymond. “Estar em cena com ele é estar em cena com um artista muito presente, conectado e criativo. Tivemos trocas muito importantes nessa novela, fizemos tudo em irmandade”, diz o colega de elenco, que expressa desejo em voltar a trabalhar com o ator.

Massaro leva uma vida que parece estar em constante transformação. Mal realizou o desejo, ele saiu da Globo, que vem abandonando seus contratos fixos, o que lhe permitiu estar na série da HBO “Máscaras de Oxigênio (Não) Cairão Automaticamente”, outro trabalho a falar da epidemia de Aids.

Outra transformação, das grandes, está guardada, mas por enquanto só no fundo da mente. Por mais que goste de atuar, ele se vê, no futuro, se dedicando mais à direção.

“Daqui a uns 15 anos, talvez, eu abandone um pouco essa coisa do ator. É um lugar lindo, mas muito vulnerável. Talvez em algum momento eu migre completamente, mas por enquanto eu continuo interessado em atuar, em deslocar minhas perspectivas para os personagens aos quais dou vida.”

A COZINHA

– Onde Disponível no Globoplay

– Elenco Felipe Haiut, Julia Stockler, Catharina Caiado e Saulo Arcoverde

– Produção Brasil, 2022

– Direção Johnny Massaro






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