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Por que a criança amada virou alvo de ódio?

A história de Rhuan: a infância com a mãe e a família até a chegada de Kacyla – mulher que mudou para sempre a sua vida

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Amor e ódio caminham juntos?

Especial – Caso Rhuan

Ele era um menino amado e feliz. Como e por que esse fato de repente deixou de ser verdade

A casa, toda de madeira e plantada sobre um bloco de alvenaria, é escura e sombria como o ambiente da família após a morte do neto mais velho, Rhuan Maycon. Atrás de uma cerca também de madeira, rostos entristecidos recebem quem entra para contidos apertos de mão. Tudo ali respira Rhuan: das fotos na entrada da casa às lembranças nos lábios daqueles que, 40 dias depois, lamentam o assassinato do menino aos 9 anos de idade.

No bairro da Cadeira Velha, não há quem passe pela Rua São Raimundo sem entrar ou, ao menos, acenar em frente à residência de Francisco das Chagas. Chaguinha é agitado. Não descansa até a visita se sentir em casa. Não repetir o prato oferecido à visita é quase uma ofensa. Quando tudo parece tranquilo e ele aparenta estar relaxado, voltam as memórias de Rhuan; o sorriso aberto se fecha, os ombros se curvam e o rosto tomba lentamente com o peso da tristeza.

Paira pesada no ar, quase visível, a pergunta: “Por quê?” Que elementos são capazes de desconectar de uma mulher o sentimento materno? Por que Rosana transmutou-se de mãe amorosa a assassina de seu próprio filho? Como esse ódio se construiu? Quem o alimentou? Rhuan e os sentimentos contraditórios alimentados contra ele são o tema da terceira reportagem da série.

Arte: Grace Perpetuo

Com leve grau de autismo, menino era o xodó do “vovô-pai” Francisco

Olavo David Neto, enviado especial a Rio Branco (AC)
[email protected]

O primeiro a chorar é Chaguinha, como é conhecido Francisco das Chagas, 63, avô de Rhuan Maycon. É, também, quem inicia a tensa conversa com a reportagem do Jornal de Brasília. Antes mesmo das entrevistas, apressa-se em mostrar fotos e objetos do neto. “Foi uma pessoa que veio ao mundo pra me alegrar muito, uma alegria que eu tive que durou pouco”, diz o homem de rugas singradas pela saudade.

Na cadeira de balanço, ele rememora os momentos ao lado da criança, que, aos quatro anos, foi tomada pela mãe e levada numa viagem clandestina que lhe tomou mais da metade da vida. Nas falas, Francisco utiliza os verbos no presente e demonstra esperança na volta do garoto. “Minha relação com meu neto é uma relação muito boa”, diz. Mas, quando a realidade vem à cabeça, corrige o tempo verbal: “A gente era muito apegado.”

Com carinho, o avô lembra da fala enrolada do neto, que não pronunciava as palavras adequadamente para a idade. “Ele tinha quatro anos, mas falava enroladinho”, recorda. Na língua própria de Rhuan, parafuso era apenas “afuso”, e a residência dos avós era a “tasa” dele. Nas voltas dos passeios – que invariavelmente terminavam em sorvete -, o menino alertava o avô dos perigos da natureza. ”Vovô-papai, cuidado que pode ter uma ‘coda’ aí”, referindo-se a cobras.

Conforme relata Eliana Veras, tia paterna, Rhuan fora diagnosticado com leve grau de autismo. Apesar de não ser determinante na personalidade do garoto, a condição dificultava-lhe a comunicação, sobretudo com outras crianças. Mesmo assim, os parentes mais próximos “conseguiam entendê-lo”, comenta Eliana. Sobre a forma como Rhuan o chamava, Francisco explica que, por ter criado o menino desde bebê, não foi avô comum. “Ele sempre me chamava de ‘vovô-papai’, porque conviveu comigo, não com o pai”. Em entrevista publicada pelo Jornal de Brasília em 17 de junho, Chaguinha afirmou que Maycon Douglas, 27, “era carinhoso, mas dava pouca atenção ao filho Rhuan quando ia visitá-lo lá em casa”.

“Rhuan adorava quando chovia”

Em 2009, pouco antes de saberem que Rhuan viria ao mundo, Francisco e a esposa sofreram um acidente de moto que amputou a perna esquerda de Chaguinha. Na garupa, Maria do Socorro, a esposa, teve fraturas na bacia, no fêmur, no joelho e no pé. Quando soube que o clã aumentaria em breve, a matriarca se preocupou. “Eu não podia dar apoio. Passei quatro meses em cima de uma cama”, conta. Mas logo se convenceu que o primeiro neto traria alegria, e ajudaria inclusive na recuperação.

O nascimento coincidiu com o recebimento do seguro, que foi gasto no enxoval de Rhuan. “Eu que dei o primeiro banhinho dele. Era uma criança muito alegre, mesmo pequenininho. Era muito especial”. Neste ponto, ela pede uma pausa na entrevista para chorar.

Em 20 de maio de 2010, Rhuan veio à vida; os pais já não estavam juntos. Crescido, tinha problemas em assimilar por que vivia com a mãe na casa dos avós paternos enquanto via o pai apenas em visitas depois do trabalho. “Eu vinha ver ele, tranquilo. Ela tinha a vida dela, eu tinha a minha. Era isso. Eu trabalhava numa empresa que era bem longe da cidade”, conta Maycon, que saiu da própria casa quando Rosana foi levada, pela mãe, para morar lá. “A história aconteceu porque eu não queria que ela ficasse aqui e meu pai queria que ela ficasse. Aí, a gente entrou numa discussão, eu falei que ia embora e fui”. Chaguinha, entretanto, tem outra versão. “Eu expulsei ele daqui pra ela poder morar com o Rhuan”, contrapõe, sereno.

Entre as visitas esporádicas do pai e o colo da mãe, Rhuan crescia e se apegava cada vez mais ao avô. Perguntado se isso o incomodava, Maycon refuta, de cara amarrada. “Ele vivia aqui com meu pai. É claro que ia ser mais apegado com ele”, diz. Chaguinha não era o único apegado ao garoto: a alegria contagiava a todos com quem convivia. Sorridente e brincalhão, o pequeno gostava da chuva. “Ele adorava quando chovia. Queria tomar banho, nem que fosse só um pouquinho”, lembra, entre lágrimas, a avó paterna.

Neto com jeito de filho

Quando ganhou do avô uma bicicleta, Rhuan só tinha olhos para o brinquedo. “Era a paixão da vida dele”, diz Socorro. A voz some e os olhos inundam; a face se retorce em dor enquanto ela busca no peito o ar para reconstituir a convivência com o neto mais velho. A relação ultrapassava rótulos familiares. “O Rhuan era que nem um filho. Dizem que avó é ser mãe duas vezes, eu era mãe quatro vezes. Ele tinha muito carinho, amava muito a gente”.

Maria Antônia, mãe de Rosana, cuidava do neto quando a família paterna precisava resolver coisas do cotidiano na rua. “Ele gostava muito da gente”, conta a avó materna de Rhuan. “Não tinha muito contato, mas era louco por mim, pela Samara [irmã de Rosana]”. Na igreja, o garoto descobria uma veia musical, estimulado pelos parentes. “Ele gostava muito de tocar bateria. Pedia pra tocar. Ele não falava muito bem, mas sempre apontava as coisas”. Mas a relação de Rosana com a mãe, Maria Antônia, caiu em desgraça após a morte do padrasto, em 2013.

Mãe e filha se afastaram quando, ansiosa para retornar à casa da família, Rosana viu o pedido negado por dona Maria. “Eu não tinha condições e já tinha quatro filhos pra criar. Ela era bem cuidada na casa do Chaguinha”, conta, cheia de remorso. Rejeitada pela família, Rosana maturou a raiva por mais um ano. Foi quando reencontrou Kacyla Priscila, velha colega de escola que passava por situação parecida: separada e com uma filha nos braços. A reaproximação logo se transformou em amor.

Ao assumir o relacionamento para os entes mais próximos, Rosana encontrou mais rejeição. “É inaceitável”, disse Maria Antônia. “Foi um choque. Não só pra mim, mas pra todos que conhecem ela”, acrescenta Maycon.

Brinquedos só podiam ser religiosos

Tida como persuasiva por todos que a conheceram, Kacyla, a nova namorada, entrou de cabeça na vida de Rosana. Na casa onde viviam, o relacionamento e o novo modo de vida estavam atrelados cada vez mais ao fanatismo religioso. Após um tratamento espiritual proposto por Kacyla, Rosana voltou à casa de Chaguinha e Socorro, avós paternos de Rhuan, com o propósito de queimar as vestes do filho, pois, segundo ela, continham imagens “do demônio”. “Tudo porque tinha desenho: Mickey, Pateta, coisa de criança. Eu levantei e fui pra cima dela, e quando a outra [Kacyla] veio, eu bati nela também”, conta, entre risos contidos, Maria do Socorro, fiadora de todo o guarda roupa do neto. Foi o fim da estadia de Rosana no bairro Cadeia Velha.

O novo casal juntou-se de vez no apartamento que Kacyla dividia com Liberdade Nascimento, no bairro Santo Afonso. Lá começaram as primeiras maldades ao menino. Banhos frios de tanque às seis da manhã, por exemplo, eram rotina. Para Rhuan, Kacyla deveria ser chamada de mamãe, e Rosana, de papai. Segundo a companheira com quem dividiam a casa, o amor de mãe e filho era mal visto pela nova madrasta de Rhuan. “Ela dizia que a Rosana não podia amar tanto o Rhuan, que tinha que desapegar, porque Deus iria tirar o menino dela”, relembra Liberdade. Ao mesmo tempo, a filha de Kacyla era tratada “com muito mimo.”
Infância interrompida

“Quando Rhuan vinha pra cá, ele chorava pra não voltar [para a casa da mãe]. Ele não queria ir”, denuncia Maria do Socorro. “Ela tinha muito ciúme do Rhuan”, lembra Maycon. “Coisa de doido mesmo”. As visitas à casa do “vovô-papai” eram o tempo de alegria do menino, até a hora da despedida. “O Rhuan chorava dizendo que não queria ir embora, que não queria ficar com a mãe”, lembra Socorro, entristecida. Tudo porque a volta à casa da genitora mostrava-lhe uma Rosana, se outrora carinhosa, agora mais reservada nos carinhos. Desenhos eram permitidos somente caso “fossem consagrados por Deus”.

Enquanto a família paterna buscava formas de viabilizar o ingresso de Rhuan no sistema de ensino – o menino estava passando por várias consultas médicas -, escola nunca foi prioridade para o casal. Sob as asas dos avós paternos “era tratado como um príncipe”, conforme relata a avó materna, Maria Antônia; com Kacyla e Rosana via pelas janelas do apartamento onde não gostava de morar o início do fim de sua infância feliz.

Confira todas as reportagens da série

Caso Rhuan – parte 1 – Rosana: cinco anos e meio separam mãe e monstro

Caso Rhuan – parte 2 – Triste retrato dos nossos tempos

Caso Rhuan – parte 4 – Jornada de fuga e metamorfose

Caso Rhuan – parte 5 – O martírio final de Rhuan


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