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Você transa por quê?

Se, para você, o sexo se tornou sinônimo de cobrança e ansiedade, talvez seja necessário rever como esse sexo está sendo construído por aí

Por Lu Miranda 22/11/2023 4h53
Arte: Lu Miranda

Grande parte das pessoas que procuram o meu trabalho estão em busca de melhorias na vida sexual, o que não é nenhuma novidade já que trabalho como sexóloga. Entretanto, poucas delas refletem sobre o que há por trás de suas vontades e desejos. Para melhor ilustrar meus dizeres, usarei Fabiana (nome fictício) para exemplificar essa situação.

Fabiana buscou pela psicoterapia no início do ano porque queria entender melhor sua relação com o parceiro — e consequentemente consigo mesma. Ela tinha 37 anos e estava numa relação monogâmica com esse mesmo parceiro há oito. Segundo relatos dela, eles eram super parceiros em diversas áreas da vida, mas quando o assunto era sexo, existia muita inadequação e frustração envolvida. “Do nada, meu tesão sumiu, não sei o que aconteceu.”

Trouxe Fabiana ainda no início do processo terapêutico. Conversamos bastante, e entendi que ela, assim como várias outras mulheres e homens, não entendia bem os motivos que faziam esse sexo sair de um lugar tão prazeroso e frequente para algo sem graça e esporádico. A vida sexual do casal, segundo Fabi, foi excelente durante os três primeiros anos de relação. O termo “excelente” usado por ela englobava frequência sexual e orgasmos. Eles transavam, em média, três vezes por semana, e a relação só acabava quando gozavam. Com o passar dos anos, porém, as coisas foram naturalmente esfriando, e aquele tesão que estava quase sempre presente passou a ser uma visita, muitas das vezes, breve.

Os estímulos que recebemos ajudam e muito nessas mudanças. E no caso de Fabi, o sumiço do seu tesão não se deu “do nada”, como ela citou, e como muitas pessoas pensam por aí. Normalmente, nosso tesão diminui por falta de manutenção e conexão com aquilo que nos dá prazer, o que não envolve somente o prazer sexual e genital.

“Você transa por quê, Fabi?”

A pergunta, apesar de soar besta e óbvia, claramente a deixou confusa e surpresa, nos proporcionando, assim, uma grande possibilidade de questionamentos e aprofundamentos sobre questões culturais, religiosas, familiares, e ainda sobre os modelos de relacionamentos e os papéis que ocupamos socialmente. Percebemos juntas, durante o processo terapêutico, que Fabiana transava para agradar seu parceiro, e que muito do seu desejo e tesão estava vinculado a proporcionar a ele prazer e não a si própria.

E convenhamos, né?! Desde cedo, ouvimos que sexo é algo mágico e incrível, mas quando se resume apenas a estímulos genitais, ele pode se tornar pequeno diante de tantas possibilidades. Ter e sentir prazer na vida, no trabalho, consigo mesmo e com amigos e amigas demanda, sim, energia e dedicação. Exige que pensemos e nos conectemos com aquilo que nos faz verdadeiramente bem.

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E como descobrirmos o que nos faz bem?

Pensando, sentindo e questionando. E nisso, os nossos sentimentos e emoções são excelentes em nos auxiliar, afinal, amor e prazer deveriam ser emocionalmente saudáveis e não danosos e angustiantes. Sendo assim, se, para você, o sexo se tornou sinônimo de cobrança e ansiedade, talvez seja necessário rever como esse sexo está sendo construído por aí. Lembrando: todo nosso corpo é capaz de sentir muito, muito prazer.

Pensando nisso, quando for se perguntar sobre os motivos que te fazem transar, lembre-se de aprofundar seus pensamentos e sensações. Afinal, não é do nada que nos perdemos de nós mesmos, isso acontece por acharmos que nunca iremos nos perder. Ou seja, achar que seu tesão é eterno pode te emburrecer sexualmente. Desta forma, é necessário lembrarmos que estamos aprendendo o tempo todo, e que ter certeza das coisas pode ser um grande tiro no escuro.

Prazer é construção e descoberta. Permita-se ser curioso com aquilo que te proporcione tesão, e pergunte-se com frequência: “Estou transando por quê?” Entenda, acolha e comunique a parceria. Sexo gostoso envolve todas as pessoas presentes, não só você.

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