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Cinema com ela
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“O Diabo Veste Prada 2” transforma o jornalismo em crise no centro de uma sequência urgente e necessária

A sequência com Meryl Streep e Anne Hathaway estreia nesta quinta-feira (30), e chega mais necessária e pertinente do que qualquer um poderia imaginar

Tamires Rodrigues

30/04/2026 5h00

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Foto: Divulgação/Walt Disney Studios

Existe uma cena clássica da história da televisão em que Walter Cronkite tira os óculos, olha para a câmera e anuncia a morte de Kennedy. O país inteiro acreditou porque havia um rosto, uma voz, uma autoridade construída ao longo de anos. Ninguém perguntou de onde vinha a informação. Ninguém checou no celular. Hoje, uma notícia do mesmo peso disputaria atenção com um vídeo de cachorro e perderia feio. É dentro dessa crise de autoridade, silenciosa mas devastadora, que O Diabo Veste Prada 2 que chega aos cinemas nesta quinta-feira (30), se instala com uma pertinência que surpreende até os mais céticos.

O cinema de moda raramente se permite ser sério. Prefere o brilho à substância, a ironia fácil ao desconforto genuíno. O primeiro filme, lançado em 2006, era sobre uma jovem aprendendo a curvatura necessária para sobreviver num ambiente de vaidade organizada. Bom entretenimento, grande atuação, moral conveniente no final. A sequência, vinte anos depois, joga fora a conveniência e faz uma pergunta muito mais incômoda: o que acontece quando a instituição que ditava as regras percebe que ninguém mais a obedece?

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Foto: Divulgação/Walt Disney Studios

Miranda Priestly, nas mãos de Meryl Streep aos 76 anos, deixou de ser uma antagonista. Tornou-se algo mais perturbador: uma testemunha. Alguém que construiu um império baseado na crença de que o gosto pode ser ensinado, que a excelência tem endereço e hora marcada, e que agora observa esse edifício rachar pelas beiradas sem fazer barulho. Streep não precisa de monólogos. Ela tem olhos que carregam o peso de um mundo que mudou sem pedir licença.

A geração que cresceu com Andy Sachs como modelo de resistência ao sistema entrou nas redações, descobriu que o sistema havia mudado de endereço e continuava igualmente cruel, só que agora usava a linguagem da democratização para justificar o desmonte. Plataformas que prometiam dar voz a todos acabaram dando audiência a ninguém em particular. O barulho aumentou, o sinal sumiu. Anne Hathaway traz para Andy essa memória corporal de quem sobreviveu a uma guerra e não sabe direito se venceu.

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Foto: Divulgação/Walt Disney Studios

O que o longa entende, e que poucos produtos culturais contemporâneos têm coragem de admitir, é que a crise do jornalismo não é tecnológica. É filosófica. Não se trata de papel contra pixel, de assinatura contra clique. Trata-se de uma sociedade que perdeu o hábito de confiar em mediadores e ainda não encontrou nada de igual valor para colocar no lugar. A Runway em colapso é metáfora mais honesta dessa fratura do que qualquer editorial de mídia publicado nos últimos dez anos.

Emily Blunt representa, com uma frieza que incomoda na medida certa, o capital que preencheu o vácuo. Quando o prestígio jornalístico enfraquece, o dinheiro das marcas não some: ele avança. Ocupa o espaço editorial com a naturalidade de quem está simplesmente aproveitando uma oportunidade. Não há vilania no personagem porque vilania exigiria consciência do dano. Há apenas mercado funcionando como mercado sempre funcionou, na ausência de qualquer força capaz de lhe dizer não.

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Foto: Divulgação/Walt Disney Studios

A fotografia de O Diabo Veste Prada 2 faz uma escolha que merece atenção crítica: ela não glamouriza. As roupas são filmadas com respeito, não com idolatria. Há uma diferença enorme entre as duas coisas, e a maioria das produções de moda nunca encontrou essa linha. Aqui, o tecido importa porque a personagem que o veste importa. O figurino de Marci Rodgers funciona como linguagem, não como decoração. Cada escolha cromática conta um estado interno que o diálogo não pronuncia.

Num tempo em que plataformas de streaming entregam conteúdo como se entregam pedidos de delivery, rápido, sem memória e intercambiável, ver um longa que aposta na lentidão calculada de uma cena bem composta é quase um ato de resistência cultural. Há sequências em Milão que simplesmente ficam. Não por espetáculo, mas por silêncio. A câmera para, a luz incide, e o filme confia que o espectador ainda sabe o que fazer com um momento que não explode.

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Foto: Divulgação/Walt Disney Studios

O grande mérito da sequência é ter encontrado o único final possível que não seja desonesto: não resolve o problema. O jornalismo não é salvo por uma virada narrativa. A moda não recupera seu monopólio cultural com um desfile emocionante. O que o filme oferece, no lugar da solução fácil, é algo mais raro e mais verdadeiro: a dignidade de continuar tentando sabendo que o terreno mudou para sempre. É um final que respeita a inteligência de quem assiste.

Conclusão

Miranda Priestly sobreviveu à ira de anunciantes, à traição de assistentes e ao escárnio de concorrentes. A única coisa que ela não sabe como enfrentar é a indiferença. E é exatamente aí que O Diabo Veste Prada 2 toca em algo que vai muito além da moda, do jornalismo ou de qualquer sequência cinematográfica. Toca na pergunta que toda geração que construiu algo com cuidado e convicção eventualmente se faz: quando o mundo para de prestar atenção, o que ainda justifica continuar?

Confira o trailer:

Ficha Técnica
Direção: David Frankel;
Roteiro: Aline Brosh McKenna;
Elenco: Meryl Streep, Anne Hathaway, Emily Blunt, Stanley Tucci;
Gênero: Comédia, Drama;
Duração: 120 minutos;
Distribuição: Walt Disney Studios;
Classificação indicativa: 12 anos;
Assistiu à cabine de imprensa a convite da Espaço Z

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