A morte costuma ser entendida como ruptura. Em Do Pó ao Pó, o artista visual Romulo Barros propõe outro caminho: pensar o fim como parte indissociável da vida e da possibilidade permanente de transformação. Em cartaz na galeria A Pilastra, no Guará II, a exposição reúne um conjunto de trabalhos que investigam os ciclos de morte e renascimento, a memória de narrativas marginais e a potência da arte como espaço de elaboração da existência.
Com curadoria coletiva de Belo e Bizarro, Júlia Teodoro, Madá Granja, Ness e Tahak Meneguzzo, a mostra evidencia uma pesquisa que transita entre escultura, instalação, pintura, fotografia e gravura. Natural de Medeiros (MG), Romulo carrega para sua produção referências dos fazeres manuais presentes em sua cidade natal e transforma diferentes materialidades em dispositivos simbólicos, compondo uma atmosfera ritualística marcada pelo afeto e pela experimentação.
Para o artista, a recorrência do tema da morte não nasce de uma decisão racional, mas acompanha naturalmente sua forma de estar no mundo e de produzir arte.

“Essas notas poéticas sobre morte e vida, vida e morte, surgem naturalmente a partir da minha experiência com o mundo. O processo artístico para mim caminha junto aos meus psicologismos e questões diárias. Falar sobre esse assunto e pensar sobre este é algo que vem com naturalidade. Construir trabalhos em arte que tenham esse viés é algo que externa e passa a representar isso.”
Essa reflexão ganha novos significados quando atravessada pela experiência de Romulo como artista trans. Em um país que, há mais de 17 anos, lidera os assassinatos de pessoas trans, abordar a morte deixa de ser apenas uma investigação filosófica para assumir também um caráter político e existencial.
O artista explica que pensar continuamente sobre a morte está relacionado ao desejo de afirmar sua própria existência para além dos marcadores que historicamente limitam corpos dissidentes.
“Quando se é uma travesty ou uma pessoa trans você só quer ser você, com tudo aquilo que te leva a ser você, e fazer isso acontecer e se manifestar no mundo enquanto um corpo que vive para além dos marcadores de gêneros binários, eurocêntricos, brancos e limitantes. Existir é uma experiência única.”

Essa complexidade também orienta a leitura proposta pela curadoria. Em vez de oferecer respostas ou interpretações fechadas, Do Pó ao Pó reúne obras que aproximam dimensões aparentemente opostas, dissolvendo fronteiras entre o erótico e o fúnebre, o sagrado e o abjeto, a delicadeza e a violência.
Um encontro aberto ao público
A exposição parte da reflexão apresentada por Nego Bispo em A terra dá, a terra quer, segundo a qual o horror à morte estrutura parte do pensamento eurocristão-monoteísta. Em oposição a essa lógica, Romulo propõe uma aproximação com a finitude que não busca negar a morte, mas compreendê-la como elemento constitutivo da vida.
Sem estabelecer um percurso único para quem visita a mostra, o artista prefere deixar que cada pessoa construa sua própria experiência diante das obras.
“Eu espero que o visitante tenha a experiência que ele tiver de ter. Espero que se coloquem na presença dessa reunião antológica despretensiosa do que eu venho feito de coração aberto e que, a partir daí, cada pessoa seja balançada em algum lugar tocante para ela, imaginando o existir de infinitas possibilidades.”
Para Romulo, a exposição só se completa nesse encontro entre obra e público. “Eu quero que quem se aproxime do meu trabalho esteja disponível a essa reverberação, que leve consigo esse momento de encontro do que ele é com o meu trabalho, que é parte do que eu sou também.”

Serviço
Exposição: Do Pó ao Pó, de Romulo Barros
Curadoria: Belo e Bizarro, Júlia Teodoro, Madá Granja, Ness e Tahak Meneguzzo
Local: A Pilastra – QE 40 Rua 09 Lote 8 – Guará II, Brasília (DF)
Visitação: 1º de julho a 15 de agosto de 2026
Entrada: Gratuita