O goleiro do Japão contra o Brasil nesta segunda-feira (29) é Zion Suzuki, primeiro goleiro negro a defender a seleção japonesa em uma Copa do Mundo. Nascido em Newark, nos Estados Unidos, filho de pai ganês-americano e mãe japonesa, ele cresceu em Saitama, no Japão, escolheu representar o país asiático e hoje é um dos nomes mais promissores da posição.
Eu estava no Cosme Velho com Brasil x Japão rolando na televisão, a sala discutindo se o Brasil precisava chutar mais ou rezar melhor e alguém equilibrando prato no colo como se fosse prova de resistência, quando o nome de Zion Suzuki começou a circular nos grupos. E aí vale parar a corneta por um minuto, porque a curiosidade sobre ele precisa vir com informação, não com piadinha torta. O goleiro é negro, é japonês, é titular da seleção e já precisou enfrentar racismo justamente por existir nesse lugar.

Zion tem 23 anos, mede 1,90 m e atua no Parma, da Itália, onde tem contrato até junho de 2029. Antes de chegar ao futebol europeu, começou no Urawa Red Diamonds, um dos clubes mais tradicionais do Japão, passou pelas seleções de base japonesas e jogou pelo Sint-Truiden, da Bélgica, equipe conhecida por receber atletas japoneses.
Apesar de ter nascido nos Estados Unidos, Suzuki foi criado no Japão e construiu sua formação esportiva no país. Por isso, sua presença na seleção japonesa não é “curiosidade exótica”, como muita gente tenta tratar. É trajetória. É identidade. É futebol.
A história dele também tem um lado pesado. Na Copa da Ásia, em 2024, Zion foi alvo de ataques racistas após uma derrota do Japão e decidiu denunciar publicamente o que estava sofrendo.
“Gostaria que as pessoas parassem de fazer comentários racistas”, disse o goleiro em entrevista coletiva na época.
Ele afirmou que aceitava críticas pelo desempenho em campo, mas deixou claro que isso não poderia virar ataque à cor da pele. “Não vou deixar que isso me derrote. Quero revidar produzindo bons resultados”, declarou.
O técnico Hajime Moriyasu saiu em defesa do jogador e foi firme. “Sinto muita vergonha e estou indignado por ele ter sido vítima de discriminação racial. Acho que isso não pode acontecer em hipótese alguma. É preciso respeitar os direitos humanos. Isso não tem lugar em um mundo diverso”, afirmou.
Dentro de campo, Suzuki é visto como um goleiro moderno. Tem força física, boa envergadura, reflexo e qualidade na saída de bola. Também chama atenção pelos lançamentos longos, usados pelo Japão para acelerar jogadas desde a defesa. Na fase de grupos, foi destaque e chegou a ser exaltado pela imprensa japonesa após uma sequência de defesas contra a Holanda.
“Claro que grandes defesas são importantes, mas acima de tudo, quero ser um goleiro que traga estabilidade ao time. Fazer o básico bem feito, com consistência. Jogar com a determinação de não sofrer gols. Acredito que é isso que, no fim das contas, inspira quem assiste”, disse Zion em entrevista à Fifa.
A caminhada até a Copa do Mundo também teve drama físico. Em novembro de 2025, Suzuki fraturou a mão esquerda em uma partida contra o Milan, passou por cirurgia e precisou correr contra o tempo para recuperar ritmo antes do Mundial.

Agora, contra o Brasil, ele encara o maior teste da competição. E, enquanto a torcida brasileira olha para Vini Jr., Neymar, Rayan e companhia, o Japão tem no gol um jogador que carrega mais do que luva e camisa 1. Zion Suzuki carrega uma história de pertencimento, resistência e cobrança por respeito.
Então, sim, dá para perguntar quem é o goleiro negro do Japão. O que não dá é transformar a pergunta em deboche. A resposta é simples: é Zion Suzuki, japonês, filho de uma mãe japonesa e de um pai ganês-americano, criado em Saitama, titular de Copa do Mundo e atleta que já precisou lembrar ao mundo que crítica esportiva não é licença para racismo.