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Exposição transforma acessibilidade em experiência artística e política no Museu Nacional

“Muído em Aleijo ou Aleijo em Miúdos”, de Lua Kixelô Cavalcante, convida o público a experimentar as barreiras impostas pelo capacitismo por meio de uma mostra imersiva, construída coletivamente e ancorada na cultura popular

Alexya Lemos

03/07/2026 5h00

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Foto: Divulgação

A acessibilidade deixa de ser um recurso complementar e passa a ocupar o centro da experiência artística em Muído em Aleijo ou Aleijo em Miúdos, segunda exposição individual da artista visual, sambadeira de roda e pesquisadora indígena do povo Kixelô Kariri (CE), Lua Kixelô Cavalcante. Com curadoria de Gisele Lima e Likidah Mazindandú, a mostra permanece em cartaz até 30 de agosto, com entrada gratuita.

Partindo de sua vivência como pessoa com deficiência física, condição que atravessa sua produção como um “corpo-artístico-político-pedagógico”, Lua constrói uma exposição que reúne memória, espiritualidade popular, crítica institucional e fabulação política para questionar quem tem o direito de acessar, circular e pertencer aos espaços culturais.

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Foto: Divulgação

O conceito central da mostra compreende a acessibilidade como um direito fundamental e condição indispensável para a participação plena na vida social e cultural. Ao investigar como o capacitismo estrutura instituições, espaços e relações sociais, a artista evidencia que a deficiência não reside nos corpos, mas nas barreiras físicas, simbólicas e sociais que limitam sua participação.

Mais do que discutir a experiência das pessoas com deficiência, a exposição desloca o debate para a própria organização da sociedade, construída a partir de uma noção restrita de normalidade. Em vez de associar a deficiência à ausência, à superação ou à excepcionalidade, a mostra a apresenta como um campo de produção de conhecimento, linguagem e crítica social.

Essa perspectiva também atravessa a concepção sensorial da exposição. Em vez de privilegiar apenas a visão, Lua propõe outras formas de relação entre público, obra e espaço expositivo.

“Como que a gente retira o protagonismo do olhar e como que a gente mobiliza os cheiros, os toques, o ajoelhar, o sentar no chão da galeria e como isso vai afetando a minha relação com a arte, com o artista e com as obras. Então, o meu desejo também é um pouco esse lugar de alterar modos corporais mesmo, alterar perspectivas de como o corpo se conforma, de como o corpo se comporta dentro da exposição. Tem esse desejo por outro jeito de ver, outro jeito de se relacionar com a obra, outro jeito de visitar uma exposição”, afirma a artista.

Inversão das regras de acesso

O principal diferencial de Muído em Aleijo ou Aleijo em Miúdos está na maneira como transforma a acessibilidade em uma experiência estética, espacial e política. Concebida como uma vivência imersiva e interativa, a exposição faz do corpo do visitante parte essencial da obra.

Essa proposta se materializa na instalação Sala de Promessas, núcleo central da mostra, que promove uma inversão inédita das lógicas habituais de circulação em exposições. Enquanto pessoas com deficiência podem acessar integralmente o ambiente, visitantes sem deficiência encontram restrições e precisam observar parte da instalação por meio de frestas e aberturas.

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Foto: Divulgação/ Geovanna Belizze

A proposta não pretende excluir, mas tornar perceptível uma experiência cotidiana para milhões de pessoas: a necessidade constante de negociar com espaços que nunca foram pensados para seus corpos. Ao inverter temporariamente essa lógica, a artista convida o público a refletir sobre privilégios frequentemente invisíveis relacionados ao acesso e à participação cultural.

Ex-votos para um mundo acessível

Outro eixo da exposição é sua construção coletiva. A Sala de Promessas reúne objetos doados por pessoas com deficiência, artistas e não artistas, que passam a compor um conjunto de ex-votos contemporâneos dedicados não à cura dos corpos, mas ao desejo de um mundo acessível.

Próteses, muletas, cadeiras de rodas, andadores, fotografias, documentos, terços, bilhetes e objetos afetivos deixam de ocupar o lugar tradicional de testemunhos de milagres para se tornarem registros materiais das barreiras ainda existentes.

Ao deslocar o sentido religioso dos ex-votos, a artista transforma esses objetos em instrumentos de denúncia e reivindicação. Eles não celebram curas nem registram graças alcançadas, mas apontam para aquilo que permanece ausente: condições efetivas de acessibilidade e participação.

Reunidos, esses elementos formam o que Lua denomina “ex-votos para o fim do capacitismo”, oferendas voltadas não à transformação dos corpos, mas à transformação das estruturas sociais.

Cultura popular como fundamento da criação

A trajetória artística de Lua também dialoga profundamente com a cultura popular, dimensão que permeia sua pesquisa, sua prática e sua maneira de compreender a produção artística como experiência coletiva. Segundo a artista, essa relação alimenta não apenas seu processo criativo, mas sua própria forma de existir e construir vínculos.

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Lua Kixelô Cavalcante. Foto: Divulgação

“Eu devo muito da minha existência a esse lugar da cultura popular, de poder ser uma pessoa que brinca, que faz festa, que faz roda. Devo muito às minhas mestras de Lampacheco, à minha mestra Luciana Meirelles, que vão me dando esse alimento. Eu diria que a cultura é alimento. É isso que me faz produzir e devolver esse alimento como eu posso para o outro. Tudo influencia meu modo de me construir, de me ver, de criar autoestima, alegria e vida. Meu desejo é devolver essa vida para todos, principalmente para a comunidade.”

Além da Sala de Promessas, a exposição apresenta a série Mandinga de Aleijadu, composta por textos autorais impressos em tecidos atravessados por bordados e costuras, situados entre manifesto, oração, feitiço e poema. A mostra reúne ainda trabalhos inéditos realizados em colaboração com a artista Isabel Se Oh, autora da escultura Serenidade Amniótica, e com Mestre Din Alves, responsável pelo grande ex-voto em madeira Perna-Sonho.

Serviço
Muído em Aleijo ou Aleijo em Miúdos – Exposição de Lua Kixelô Cavalcante
Visitação: De 3 de julho a 30 de agosto de 2026
Horário: Terça a domingo, das 9h às 18h30
Local: Museu Nacional da República – Brasília (DF)
Entrada: Gratuita

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