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Viva

Entrevista com Djavan: com todas melodias da existência

Arquivo Geral

07/12/2015 6h00

Moradia e estúdio coexistem na mesma propriedade do cantor e compositor Djavan, no Rio. Foi no estúdio, o Em Casa, que o músico alagoano gravou seu novo disco, Vidas Pra Contar, o 23º da carreira, e ali ensaia agora para o show da turnê que inicia em 2016 – em São Paulo, as apresentações ocorrem nos dias 11 e 12 março. Vidas Pra Contar é todo autoral, com 12 músicas inéditas assinadas por ele. “Tive poucas parcerias na minha vida. Faço música e letra desde o início. Gosto dessa coisa solitária de sentar e fazer música.” Nesse novo trabalho, impõe-se um universo de canções amorosas e sobre relacionamentos, cunhadas pela poética particular de Djavan. O DNA sonoro  característico do músico também está lá, soberano, mas a audição mais apurada alerta para as nuances das melodias.

Vidas Pra Contar soa como um disco autobiográfico. Isso foi pensado na hora da composição?

Quando escrevo, em geral, prefiro tentar ficar olhando ao longe. Acho que inventar situações, histórias é o que priorizo. Agora, é impossível não ter ali a minha história, o meu olhar, as coisas que vivenciei. Mas esse disco especificamente é mais biográfico do que os outros. Ele se chama Vidas Pra Contar porque percebi que estou contando algumas vidas ali. Falo do homem de hoje, no contexto político, social e até familiar também na música Enguiçado, falo dos seres tanto animal como humano em Vidas Pra Contar.

Em músicas como Vida Nordestina esse traço é mais nítido. Remete muito à sua origem. 

Nela, quis trazer um pouco o Nordeste de novo para minha vida. É uma espécie de homenagem a uma região que me deu tanto, que me ensinou tanto, que me formou. Foi ali que absorvi as informações gerais, da vida e da música. E tive uma dificuldade extrema, porque pensei: para quem conhece Ary Lobo, Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga, Humberto Teixeira, aquele pessoal que falou do Nordeste de uma maneira linda e densa, o que vou falar sem ser repetitivo? Não é não falar das mesmas coisas, é como falar, e eu precisava falar com afeto. Então, acabei optando em falar da fé do povo, do folclore, da folia nordestina, e fiz Vida Nordestina, que ficou uma canção bem contemporânea, embora falando das coisas que vivi desde a infância. 

Em Dona do Horizonte, você fala da sua mãe, que foi muito importante na sua vida e influência em sua formação musical. Como surgiu a vontade de homenageá-la nesse trabalho?

Quando minha mãe morreu, eu tinha 21 anos, acho que me marcou muito tê-la perdido tão cedo. Ela era uma espécie de parteira sem fazer parto, porque a parteira no Nordeste é aquela mulher que orienta as pessoas do bairro, socorre em todos os níveis, sobretudo psicológico. Minha mãe fazia isso. Lá em casa era uma romaria de pessoas. Às 18h30, 19h, começavam a chegar pessoas com toalhas, esteira. Eu morava numa casa de esquina, com a calçada bem grande. Sentava todo mundo. Eu tinha 6, 7 anos, deitava no colo da minha mãe e ficava ouvindo aquelas histórias. Ali aprendi muita coisa: a contemplação do universo, da natureza, o nome de plantas que sei até hoje. Esse gosto que tenho pela botânica, pela mata, flores e jardins vem dela. E ela tinha uma musicalidade ímpar desde o início. Eu, jovenzinho, 7, 8 anos, ia com minha mãe para a beira do riacho lavar roupa, e ela, com as amigas, ficava cantando aquelas modinhas. Tenho dito sobre essa influência dela, mas eu nunca tinha feito música com isso. 

Temas como amor e as relações são inerentes à sua obra e, nesse novo disco, eles são muito presentes. Qual o desafio de falar disso a cada novo trabalho? 

Acho que falar de relação, de amor é sempre um desafio muito grande, porque é um tema recorrente para todos. E você ganhar algum frescor nessa areia movediça que é esse tema é o grande desafio. E adoro desafio, me expor ao erro, porque isso é vida. Vou falar de amor a vida inteira, porque sempre vou tentar descobrir novos horizontes que tragam um amor distinto, de agora, vivido nesse momento. 

Você falou de uma felicidade que domina o disco. Isso tem a ver, de alguma forma, com o momento que você vive?

Acho que estamos vivendo uma vida tão conturbada, em todos os âmbitos. Eu, ao contrário – embora vivencie tão profundamente também a vida social e política do Brasil -, sou um homem muito esperançoso com esse momento. Quis fazer um disco ao contrário do que se vive hoje, dessa coisa tão feeling blue, tão down, de a gente se entristecer com os valores hoje completamente destrocados, temos de refundar todos eles. Achei que cabia um disco assim, que trouxesse uma aura de esperança, de alegria.

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