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Cinema

Possível fechamento do Cine Brasília preocupa frequentadores e especialistas

Referência da cultura brasiliense, o último cinema de rua do DF pode interromper as atividades por falta de recursos; Secretaria afirma que trabalha para garantir o funcionamento

Isabele Mendes

10/07/2026 5h00

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Foto: Paulo H. Carvalho/Agência Brasília

O Cine Brasília, último cinema de rua do Distrito Federal e o maior do país, corre o risco de interromper as atividades por falta de recursos. A possibilidade de fechamento mobiliza frequentadores, profissionais do audiovisual e especialistas em patrimônio, que veem no espaço um dos principais símbolos da cultura brasiliense e um equipamento essencial para a preservação da memória da capital.

Inaugurado em 22 de abril de 1960, um dia após a entrega de Brasília, o Cine Brasília integra o conjunto urbanístico reconhecido como Patrimônio Mundial da Humanidade. Com sala única e mais de 600 assentos, o local sediou, em 1965, a Primeira Semana do Cinema Brasileiro, que deu origem, dois anos depois, ao Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, inscrito em 2007 como patrimônio imaterial do Distrito Federal. Desde 2022, o espaço é administrado por uma parceria entre a Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa (Secec-DF) e a organização Box Cultural, responsável pela gestão e programação do cinema.

“ O Cine hoje é uma identidade, faz parte da minha identidade”

Para quem frequenta o local, a possibilidade de interrupção das atividades representa a perda de um espaço que ultrapassa a função de exibir filmes. A estudante de Jornalismo Isabella Castelo Branco, de 21 anos, frequenta o Cine Brasília desde os 15 e hoje vai ao cinema, em média, quatro ou cinco vezes por mês. Segundo ela, a programação diversificada, que reúne filmes em cartaz, mostras e sessões especiais, fez com que o espaço se tornasse parte da sua rotina.

“Eu dou preferência a ver filmes no cinema. Não gosto muito de assistir em casa. O Cine Brasília, pelo preço, pela estrutura e pelo que oferece, vale muito a pena”, afirma.

Com o passar dos anos, a relação se tornou ainda mais próxima. Isabella fez amizades no local, criou vínculos com funcionários e passou a integrar o CineBeijoca, cineclube da Universidade de Brasília (UnB), que realiza sessões no espaço. O envolvimento foi tamanho que ela escolheu o Cine Brasília para comemorar o próprio aniversário. A festa teve decoração inspirada no universo cinematográfico, convidados fantasiados de personagens de filmes e terminou com uma sessão de cinema.

“O Cine hoje é uma identidade, faz parte da minha identidade”, diz. “A cada vez que eu vou lá, sinto uma sensação de pertencimento, de fazer parte de uma coisa maior, que é a história de Brasília.”

Entre as lembranças mais marcantes, a estudante destaca as edições do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro e sessões especiais com nomes como Vladimir Carvalho e Kleber Mendonça Filho. Para ela, esses momentos mostram que o Cine Brasília é um espaço de formação cultural, de troca entre realizadores e público e de valorização do cinema nacional.

Ao saber do risco de fechamento, Isabella afirma ter ficado assustada. Ela destaca que, desde a reabertura do espaço, diversas sessões registram lotação e que o cinema reúne pessoas de diferentes idades e classes sociais. Além da programação, ela cita a localização próxima ao metrô e os preços acessíveis como fatores que ampliam o acesso da população ao cinema.

Referência na área cinematográfica

A importância do equipamento também é ressaltada pelo cineasta Marcelo Pontes, formado pela New School University, NYC, está atuando no mercado audiovisual brasiliense desde 2024, ele enxerga o Cine Brasília como uma referência para toda a produção audiovisual do Distrito Federal. Segundo ele, o prédio, projetado por Oscar Niemeyer e integrado ao planejamento urbano de Lúcio Costa, representa um patrimônio que vai além da arquitetura. “Todos que têm seus filmes projetados no Cine Brasília costumam enaltecer a experiência, por ser carregada de uma força estética e política muito importante”, afirma.

Para o diretor, não é possível dissociar a história do Cine Brasília da trajetória do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Ele destaca que, embora o Distrito Federal ainda não tenha um polo de produção tão consolidado quanto São Paulo e Rio de Janeiro, a existência de um cinema público com essa tradição inspira realizadores locais. “Sonhamos em ter nossos filmes projetados neste cinema”, resume.

Marcelo também chama atenção para o papel do espaço na circulação das produções nacionais. Segundo ele, um dos principais desafios do cinema brasileiro continua sendo a distribuição. “Cinema tem que ter público, mas esse público nasce de um processo de formação, do diálogo que essa experiência proporciona e da oportunidade de nos conhecermos por meio do nosso cinema”, afirma. Para o cineasta, equipamentos públicos como o Cine Brasília ajudam a aproximar o público das produções brasileiras e fortalecem toda a cadeia do audiovisual.

Na avaliação dele, a manutenção do espaço depende tanto do compromisso do poder público quanto da presença do público nas salas. Marcelo defende políticas permanentes de incentivo e ações que aproximem a população das produções nacionais. Também destaca que a experiência do cinema de rua vai além da exibição dos filmes. “Não é só sobre ir ao cinema. Tem a pipoca, a conversa depois do filme, o encontro com os amigos e o entretenimento das famílias. Em tempos de vida virtual, é preciso estar atento ao isolamento. Sorte nossa termos uma sala tão especial como o Cine Brasília.”

Função social

O bibliotecário, coordenador do Cineclube BCE-UnB e mestre em Preservação do Patrimônio Cultural pelo Iphan, Jefferson Dantas, também destaca o valor histórico e simbólico do espaço. Segundo ele, o Cine Brasília faz parte da identidade da capital por ser um lugar de encontros, celebrações e por sediar um dos principais festivais de cinema do país.

Para Jefferson, preservar um patrimônio significa manter tanto a estrutura física quanto sua função social. “A cidade perde uma parte da própria vida”, afirma ao comentar o risco de interrupção das atividades. Na avaliação do especialista, o fechamento representaria uma restrição ao acesso à cultura, além de comprometer a identidade cultural de Brasília e privar as futuras gerações de um importante espaço de convivência e formação.

Situação atual

Em nota, a Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa informou que a parcela de recursos ordinários destinada ao projeto está em tramitação financeira no âmbito do Governo do Distrito Federal. A pasta afirmou que acompanha permanentemente a execução da parceria e, para evitar qualquer descontinuidade nas atividades, autorizou, em caráter excepcional e temporário, a utilização de recursos disponíveis na própria parceria, com posterior recomposição dos valores. Segundo a Secretaria, a previsão de pagamento da parcela regular foi emitida há cerca de um mês e o Cine Brasília recebeu autorização para utilizar recursos complementares provenientes de sua própria arrecadação, medida que garante o funcionamento do equipamento até o fim de julho, enquanto aguarda a emissão da ordem bancária pela Secretaria de Economia para efetivar o repasse.

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