SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
No epílogo de “Moana”, animação da Disney que virou um fenômeno mundial há dez anos, a heroína devolve o coração roubado de uma uma deusa da natureza e da criação. O gesto quebra a maldição que espalhava a escuridão pelo oceano, e a divindade, antes um monstro rochoso, recupera a sua forma verde e florida original.
No mundo real, porém, Moana ficou desbotada. Pelo menos essa foi a percepção geral nas redes sociais quando a Disney divulgou o primeiro trailer do filme live-action agora em cartaz nos cinemas, mais uma adaptação com pessoas de carne e osso para uma fábula infantil do estúdio.
O filme tem um visual menos acinzentado do que predecessores como “A Pequena Sereia” e “Peter Pan e Wendy”. Ainda assim, os seus fãs notaram que o oceano, a areia e as vestes indígenas de Maui, semideus encarnado por Dwayne Johnson, o The Rock, e de Moana, vivida por Catherine Lagaaia, ficaram aquém da exuberância do desenho enquanto outros elementos, como a flora tropical, ganharam uma saturação isto é, uma certa vivacidade artificial.
O descontentamento não é de agora e não se restringe a adaptações de animações, já que a tendência tem se espalhado por Hollywood. Fãs estranharam a paleta amarronzada e desbotada de “Supergirl”, sobre a heroína dos quadrinhos da DC, e acusaram o filme de replicar um visual genérico de histórias de heróis. Críticos apontaram que “A Casa do Dragão”, paraquela de “Game of Thrones”, teve sua paleta achatada em tons de cinza e verde, fazendo com que joias, roupas e cenários medievais perdessem o contraste.
As razões para a pasteurização das imagens são variadas, e incluem o abuso de recursos digitais na pós-produção, a padronização das produções para diferentes tipos de telas como celulares e mudanças dentro da própria indústria.
Do lado técnico, a consolidação do filme digital na década passada ajuda a explicar o fenômeno. De acordo com especialistas, quando as gravações eram feitas em película, o trabalho dos diretores de fotografia era mais complexo e a edição depois das filmagens era limitada. Alterações de luz e cor envolviam processos químicos nos laboratórios. Hoje, basta um programa de computador. Essa facilidade exige menos planejamento durante as filmagens e faz com que as cenas, muitas vezes, sejam decididas na sala de pós-produção.
O excesso de manipulação leva à artificialidade. “De repente, temos uma tendência a filmes esverdeados. É um novo recurso que fica na moda, e é replicado mil vezes”, diz Adrian Teijido, diretor de fotografia de “Ainda Estou Aqui”, longa brasileiro vencedor do Oscar, feito de forma analógica. “A película tinha grão, textura. Nós perdemos isso, então buscamos textura com lentes mais antigas, por exemplo”, diz o profissional, que defende que, apesar da possibilidade de acentuar uma cor ou outra, o filme era mais fiel ao olho humano.
Se esse processo abriu um leque de possibilidades a estética de um diretor como Wes Anderson, por exemplo, sabe trabalhar o baixo contraste e a alta saturação cromática, também levou a um novo padrão. É o que diz, por videochamada, Walter Volpatto, colorista de filmes como “Dunkirk”, de Christopher Nolan, “Megalópolis”, de Francis Ford Coppola, e “Star Wars: Os Últimos Jedi”, de Rian Johnson.
“Não é que o sistema que usamos hoje obrigue a criar uma estética com pouco contraste e cor. Isso é uma escolha”, diz. “Muitos coloristas mais jovens simplesmente não têm experiência com outras paletas de cores. Eles começaram a trabalhar com o ACES, se acostumaram com ele e passou a ser algo natural”.
Volpatto se refere ao Academy Encoding Color System, um dos sistemas de padronização de imagens usados por serviços de streaming para facilitar a distribuição em formatos HDR e SDR, tecnologias das telas de televisores, tablets e celulares. Apesar de esses padrões não determinarem cores exatas, as imagens tendem a ter pouco contraste e ficam menos vivas se não houver colorização.
Teijido conta que já precisou alterar o brilho de uma produção para plataformas de streaming. “Lamentavelmente, as pessoas vão menos ao cinema e assistem a esses filmes em celulares ou iPads, e isso pasteuriza um pouco a imagem. Você nunca pode ousar muito para um lado ou para o outro. Projetos mais comerciais têm a aparência estandardizada para poder agradar ao maior número de pessoas”, ele afirma.
Outro vício que contribui para o fenômeno é, ainda, o uso excessivo de lentes grande angulares. O foco no rosto dos atores e o fundo borrado ajudam a disfarçar a falta de profundidade de cenários digitais mas, com menos detalhes, a imersão do público no universo proposto fica rasa. A construção de ambientes inteiros com painéis de luzes dentro de estúdios se popularizou na pandemia, época em que transportar equipes até as locações era arriscado. E a moda pegou, especialmente para live-actions.
“Avatar: O Último Mestre do Ar” adaptação da Netflix da série animada de mesmo nome, apostou no recurso para ambientar os personagens em um mundo montanhoso e em guerra, em que diferentes povos dominam os elementos de terra, fogo, água e ar. Apesar da crítica especializada ter elogiado os efeitos especiais, apontou para uma iluminação plana que minou a profundidade dos ambientes, dando a impressão de que os atores estavam em um teatro.
Os sets não dependem mais de luzes potentes para iluminar os cenários e os atores, como acontecia até o começo dos anos 2000. E, segundo Walter Volpatto, o colorista, há pedidos frequentes para que a luz seja branda para que não destaquem as marcas de idade dos atores.
“Existe uma limitação imposta pela indústria. É preciso que o ator tenha uma boa aparência, porque isso dá dinheiro. Se você é um diretor de fotografia em início de carreira, ou mesmo um profissional mais experiente, depois das paralisações em Hollywood, você precisa trabalhar, e fazer o que mandam.”
Os filmes de fantasia parecem ser os maiores prejudicados pela tendência. Quando “Wicked: Parte II” foi lançado no ano passado, foi duramente criticado pelos rosas e verdes pálidos do mundo mágico, que deveriam ser exuberantes.
No começo dos anos 2000, em contraste, sagas como “O Senhor dos Anéis” e “Harry Potter” marcaram o cinema pela riqueza de detalhes de seus cenários, figurinos, objetos de cena e paletas mesmo que mais escuras em momentos tensos. Apesar de inovarem com técnicas de computação gráfica, os primeiros capítulos das franquias também apostaram nos efeitos práticos, hoje deixados de lado em prol dos efeitos digitais que exigem ajustes de cor na pós-produção para serem integrados às imagens reais.
Prazos acelerados minam a qualidade das cenas de computador, segundo Eduardo Schaal, ilustrador e diretor de arte de efeitos visuais. “São feitas milhares de cenas digitais que, se fossem planejadas melhor, nem precisariam ser digitais”, diz. Diferente de como era há 30 anos, ainda, a pós-produção de um blockbuster agora é dividida entre vários estúdios, por vezes de diferentes países, o que dificulta a manutenção da unidade visual.
Segundo Schaal, o caso dos live-actions é ainda mais delicado. “Existe a tendência, na percepção de alguns diretores ou produtores, de que exagerar nas cores pode ficar cafona e as pessoas não vão achar realista”, afirma. Ao comparar o primeiro trailer de “Moana”, que gerou as reações negativas nas redes sociais, com o último, o especialista opina que a Disney aumentou a saturação.
Na década de 2000, live-actions como “Scooby-Doo” e “Speed Racer” abusaram de tons vibrantes e contrastes agressivos para emular a estética lúdica dos desenhos animados. Apesar do choque visual na época, hoje são lembrados como produções cult por fãs nostálgicos. Desde então, a indústria parece querer fugir do aspecto caricato.
Em tempos de crise de bilheteria, os estúdios preferem apostar em visuais mais sóbrios, que já deram certo antes. Um pouco como a própria aldeia de Moana, que proíbe a garota de navegar por águas desconhecidas mesmo com o avanço das trevas.
MOANA
- Onde Nos cinemas
- Classificação Live
- Elenco Com Dwayne Johnson e Catherine Laga’aia
- Direção Thomas Kail