Jornal de Brasília

Informação e Opinião

Saúde

Pesquisa mostra que as pessoas estão com medo de paquerar

Medos e perdas que a pandemia nos trouxe continuarão a fazer parte de nossas vidas e nos forçarão a agir de uma maneira diferente

Passou da hora de a gente falar de F… Falar de forma aberta, sem amarras ou preconceitos. Afinal, em tempos pandêmicos, isso é algo que pode acontecer com você, comigo e com qualquer um de nós. Aos mais sensíveis, peço calma, e antecipo-me em explicar que F… nada mais é do que uma sigla em inglês com as iniciais de Fear of Dating Again – que pode ser traduzido, de forma livre, como o medo de namorar outra vez.

Não é difícil presumir que a sigla caiu como uma bomba de bom humor em nossas redes sociais – produzindo memes e textos hilários. Mas, ao mesmo tempo, a brincadeira no mundo virtual mostrou que esse “medo” é bastante comum e compartilhado entre os solteiros. No Twitter, mensagens como “acho que tenho”, “tenho essa síndrome” ou “me identifiquei com isso” são bastante comuns.

Uma pesquisa realizada pelo aplicativo de namoro happn (entre seus usuários) com 1.500 pessoas de mais de 18 anos mostrou que 76% dos solteiros se sentem estressados antes de um encontro, e três quartos pensam ter perdido o hábito de namorar. De fato, entre os solteiros (as) entrevistados (as) pelo Estadão, a expressão “Estou enferrujado” foi uma das mais repetidas de quem está receoso em voltar a flertar.

Segundo Marine Ravinet, diretora de tendências do happn, as pessoas têm se perguntado: “Será que ainda sei flertar? Será que ainda sei como falar com estranhos que eu quero curtir? E beijar? E fazer sexo?”. Estas perguntas e pensamentos trazem à tona um lado mais inseguro nas pessoas”.

Para Marine, só uma reflexão honesta pode evitar que o medo de relacionamentos afete nossa vida para além da pandemia. “Cabe a cada um o poder de decidir se esse sentimento de medo vai ser um empecilho em sua vida amorosa ou não. Por isso, é importante fazermos uma reflexão sobre o que estamos sentindo e o que queremos para nossas vidas e compartilhar com o outro, seja o outro um amigo, uma paquera ou um profissional. Ser claro e honesto consigo mesmo e com o outro é a chave para não deixar o F… impactar os seus relacionamentos”, disse.

Falar de forma aberta sobre F… parece um tabu. Para conseguir ouvir solteiros que se reconhecessem nessa síndrome, a reportagem precisou abrir mão dos registros fotográficos e, em alguns casos, trocar o nome do entrevistado. Admitir que a pandemia mexeu com a libido ou a vontade de conhecer outras pessoas ainda é encarado como algo vergonhoso.

Solteira há 2 anos, a analista de sistemas Carolina Santos, 31 anos, contou que antes da pandemia tinha aquilo que ela define como “vida normal”. “Ia em festas, saía com as amigas, mas acho que perdi o jeito”, disse. “Eu convivo com meus pais. A primeira coisa é essa: não vou arriscar a saúde dos meus pais para conhecer alguém”, completou.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Carolina consegue se imaginar fazendo uma pequena entrevista antes de sair com alguém: “Perguntar como está, se trabalha em home office… Só acho que seria constrangedor pedir o teste negativo de covid antes de sair”, falou. Ela também acha que perdeu o “jeito”, a “mão e enferrujou para o flerte”. “Acho que aplicativos de encontros ajudaram a manter algum contato entre as pessoas – já que não é possível conhecer ninguém em festas, bares e outros lugares”, afirmou.

A engenheira química Patrícia da Mata (nome fictício), 29 anos, contou que mesmo morando sozinha tem sido difícil se relacionar com alguém. “A gente pira, né. No final do ano passado, peguei covid. Então sei bem quais são as consequências”, confessou. “Essa história que flertar é como andar de bicicleta não existe na prática. Perdi a paciência para desenrolar um papo. Acho que a pandemia mudou muita coisa. Mesmo quando ela acabar, não vai existir essa coisa de beijar na boca depois de trocar três palavras”, completou.

Os homens parecem mais resistentes a confessar de que podem estar acometidos pelo F… O publicitário Nico Souza (ele preferiu ser identificado pelo apelido), 37 anos, disse que antes da pandemia era comum sair com duas ou três pessoas em uma semana, mas que agora… “Sinto um bloqueio muito grande, uma preguiça de se relacionar. O que tenho feito para compensar é praticar esportes, andar de bicicleta para espairecer e esse tipo de coisa”, afirmou. “Acho que eu enferrujei bastante. Tenho levado a pandemia a sério. Por isso, para retomar, acredito que vá precisar existir muita conversa, muito jogo da conquista…”, finalizou.

Como se vê, o F… parece ser uma tendência entre os solteiros do Brasil e do mundo – mesmo em lugares em que a vacinação já está bem mais avançada do que no Brasil. “Na minha opinião, o cenário pós-pandêmico ainda é incerto. Acredito que os medos e perdas que a pandemia nos trouxe continuarão a fazer parte de nossas vidas e nos forçarão a agir de uma maneira diferente. Acredito que os solteiros vão sair e conhecer outras pessoas, mas eles serão mais cautelosos na escolha com quem irão se relacionar. Acredito que a normalização de fato acontecerá, ainda mais com a retomada de uma rotina lenta, como voltar ao escritório, por exemplo, mas com pessoas mudadas, com novos pensamentos, comportamentos e atitudes”, disse Marine Ravinet, diretora de tendências do happn.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Estadão Conteúdo






Você pode gostar