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Deputado pede perdão por ‘cabresto’, mas ouve negativa e promessa de investigação

Monica compareceu ao plenário passado um tempo da fala de Moura. Ela pediu a palavra para responder ao deputado

Por FolhaPress 24/05/2022 6h17
Brasília 60 Anos – Congresso Nacional

Bruno B. Soraggi
São Paulo, SP

O vice-presidente da Assembleia Legislativa de SP (Alesp), deputado Wellington Moura (Republicanos), usou sua fala na Casa nesta terça (24) para pedir desculpas à deputada Monica Seixas (PSOL), a quem disse que colocaria um “cabresto” na boca para não importunar o plenário. Monica, porém, afirmou que não o perdoa e que só quer falar com ele na comissão de ética da Casa e na Justiça.

“Não há malabarismo que faça as pessoas acreditarem que não há violência naquela fala que foi ao microfone. Eu não perdoo. Não perdoo a humilhação, não perdoo a violência, não perdoo a agressão e não perdoo o senhor zombar da minha condição de adoecimento mental”, disse ela ao microfone no plenário.

Na semana passada, Moura alegou que Monica importunou o plenário durante a fala de um deputado. “É o que vossa excelência faz. Sempre. Várias vezes”, disse ele. “Mas num momento que eu estiver ali [presidindo a sessão], eu vou sempre colocar um cabresto na sua boca porque não vou permitir que vossa excelência perturbe a ordem”, emendou.

Por causa dessa fala, a deputada protocolou uma representação contra ele no Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Alesp pedindo a cassação do colega. Segundo ela, houve racismo e machismo em sua manifestação. Ela também registrou um boletim de ocorrência sobre o episódio.

Na tarde desta quarta (24), o deputado Wellington Moura usou o púlpito do plenário para pedir desculpas para Monica e para “todas as pessoas que se sentiram ofendidas por qualquer excesso que cometi ao utilizar a expressão cabresto”.

Ele disse que não teve a intenção de cometer injúria racial ou machismo. Segundo o vice-presidente da Alesp, a sua intenção foi de aplicar a palavra com o sentido de “algo que controla a fala que perturbe ordem dos trabalhos da sessão legislativa”.

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Moura argumentou ainda que “não faz sentido algum” ele “ser apresentado como racista ou machista”, usando como argumento que sua avó era negra e que ele é pastor e atuou em projetos que ajudam no combate à violência contra a mulher.

“Inclusive na Igreja a grande parte dos fieis é de origem negra. Em meu gabinete a maioria dos assessores são mulheres e grande parte é de ascendência negra. Então como eu poderia me dirigir desta forma a uma mulher?”, questionou ele. “Não há fundamento de eu ser considerado ‘racista’ ou ‘machista’.”

Monica não estava presente no momento em que Moura discursou. Ele disse que tentou contata-la por Whatsapp e em seu gabinete antes de discursar, para conversar pessoalmente sobre o assunto, mas que ela não quis recebe-lo nem responder-lhe. “Acredito que ela esteja magoada comigo.”

Monica compareceu ao plenário passado um tempo da fala de Moura. Ela pediu a palavra para responder ao deputado, dizendo que não o perdoa e que ele só está pedindo desculpas pelo que falou ao microfone, e não por outras agressões que, segundo ela, ele fez fora do púlpito.

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“O que vazou no microfone não mostrou coisas pela qual o senhor não se desculpa, como o círculo de homens ao final daquela sessão, em torno de mim, todos gritando que iam fazer o quê? Me cassar? Me colocar no conselho de ética? Dizendo: ‘Vai tomar o seu tarja preta'”, questionou ela.

No ano passado, Monica Seixas ficou 120 dias afastada para cuidar da saúde mental.

“Eu tomo [remédio] tarja preta por causa de senhores como o senhor”, respondeu. “Não quero que me ligue, não quero que vá ao meu gabinete. E o senhor só vai conversar comigo no conselho de ética respeitando a doutora [a deputada] Maria Lúcia Amary, que é presidente [do colegiado], e na Justiça”, emendou.

Moura pediu a palavra novamente depois da fala de Monica, lamentando a decisão da deputada. “Se a deputada não me perdoa, não tenho o que fazer”, disse ele. “Mas, novamente, espero que o dom do arrependimento possa entrar no coração de vossa excelência em relação à minha pessoa.”

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