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Conquista de Doria, filiação de vice ao PSDB abala apoios

Entre aliados de Doria, a migração de Garcia ao PSDB é dada como certa e está prevista para os próximos meses

Foto: Divulgação

Carolina Linhares
São Paulo, SP

A possível filiação ao PSDB do vice-governador de São Paulo, Rodrigo Garcia, hoje no DEM, fortalece a ala de João Doria no tucanato, mas tem potencial para acirrar divisões no partido e até prejudicar eventual candidatura do governador paulista à Presidência da República em 2022.

Entre aliados de Doria, a migração de Garcia ao PSDB é dada como certa e está prevista para os próximos meses.

O próprio vice-governador, no entanto, não declarou publicamente que irá trocar de partido e evita responder sobre esse tema. Membros do DEM afirmam não terem sido comunicados da decisão ainda. Mas tucanos e aliados de Garcia admitem que ele está, sim, a caminho do PSDB.

“A vinda de Rodrigo Garcia representa um sentimento de centenas de prefeitos, deputados e militantes. Ele tem mais 20 anos de serviços prestados aos governos do PSDB”, afirma Marcio Vinholi, presidente do PSDB paulista.

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O presidente do DEM em São Paulo, deputado federal Alexandre Leite, diz que o partido não esgotou seus esforços para que Garcia permaneça.

Garcia é o candidato de Doria para sucedê-lo no Governo de São Paulo em 2022. Ao trazê-lo para o PSDB, o governador resolve a demanda tucana de que o partido tenha uma candidatura própria no estado em vez de apoiar o DEM.

Desde 2002, o DEM (antigo PFL) compõe a coligação do PSDB ao Governo de SP. A aliança nacional entre os dois partidos vem desde 1994. Por isso, membros do DEM agora reclamam da falta de apoio dos tucanos a uma candidatura do partido no estado.

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De toda forma, no DEM, prevalece uma leitura pragmática da situação. Se candidato pelo DEM, Garcia enfrentaria um adversário tucano, já que o PSDB não abre mão de lançar um nome. Por isso, a única saída competitiva seria sua filiação ao PSDB, numa coligação que inclua o DEM.

Leite afirma que a candidatura de Garcia ao governo, seja no partido ou no PSDB, é um projeto do DEM e que a migração não deixaria mágoas. “É um sacrifício que merece nosso respeito”, disse.

“A composição política do momento exige essa transferência, mas os princípios [do DEM] vão permanecer nele. Não adianta a gente manter ele no DEM e não ter o apoio do PSDB. Garcia está indo cumprir uma missão para o DEM e pessoalmente para o Doria, resolver um problema de composição do Doria, que, se não for resolvido, vai prejudicar o DEM. Vamos fazer o que for necessário”, completou.

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Os efeitos colaterais, porém, seriam agravar divisões no PSDB de São Paulo, já que parte da militância apoia a candidatura de Geraldo Alckmin (PSDB) ao governo, e inviabilizar o apoio do DEM a Doria caso ele seja candidato ao Planalto.

No xadrez eleitoral estadual, a filiação de Garcia representa um grande entrave para Alckmin, que mantém conversas políticas para viabilizar sua candidatura e prega prévias contra o vice. Já no cenário nacional, zona em que Doria atua para vencer as prévias do partido e se cacifar como candidato tucano, a entrada de Garcia também abala as relações entre PSDB e DEM.

Doria, que já enfrenta forte resistência não só no PSDB, mas entre outros partidos e potenciais presidenciáveis que compõem o campo que denominam de centro, pode ampliar seu isolamento com a filiação de Garcia.

Parte dos líderes do DEM veem a saída de Garcia como resultado de interferência de Doria no partido aliado. Há ainda reclamação a respeito do momento da migração. Como o prazo para filiações partidárias com vistas à eleição de 2022 é abril do ano que vem, membros do DEM atribuem a Doria a pressa de concretizar o movimento neste ano.

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Em paralelo, Doria também defende que as prévias do PSDB –provavelmente contra Eduardo Leite (RS), Tasso Jereissati (CE) e Arthur Virgílio (AM)– sejam mantidas em outubro deste ano, enquanto os adversários e boa parte dos tucanos pregam o adiamento para o ano que vem.

Uma possível consequência da perda de Garcia em meio à investida de Doria, de acordo com integrantes do DEM, é o partido não aceitar eventual coligação de centro em que o tucano seja o candidato.

Embora haja críticas dirigidas a Doria entre políticos do DEM por causa da filiação de Garcia, essa não é a única explicação que circula no partido para a posição de distância do governador. Um motivo lembrado é a rejeição do eleitorado ao nome do tucano.

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É mencionado ainda o desembarque do DEM do bloco de apoio a Baleia Rossi (MDB-SP) na eleição da presidência da Câmara, vencida por Arthur Lira (PP-AL), aliado do presidente Jair Bolsonaro.

O episódio, segundo membros do DEM, demonstra a aproximação da sigla com o presidente e a dificuldade de apoiar um expoente da oposição a Bolsonaro, como é Doria.

Já se o candidato do PSDB for Tasso ou Leite, por exemplo, a avaliação de parte do DEM é de que o partido fique mais propenso a negociar.

Procurado pela Folha, o presidente do DEM, ACM Neto, não respondeu. Ele tem defendido que o partido integre uma costura de legendas, a mais ampla possível, para consolidar a terceira via, que escape da polarização entre Bolsonaro e Lula (PT).

O entorno de Doria aposta que haverá compreensão por parte de políticos do DEM e que as relações são sólidas e não serão abaladas. Nos bastidores, tucanos já duvidavam do apoio de ACM e apontam que o episódio da eleição da Câmara mostra que ele apoiará qualquer presidenciável que lhe for mais útil para eleger-se governador da Bahia.

Leite afirma que, do ponto de vista do DEM paulista, o apoio a Doria na eleição presidencial seria natural, mas admite que há entrave em relação ao DEM nacional.

“Acho difícil que o DEM venha apoiar Doria. ACM já sinalizou uma grande dificuldade. Não acredito que o DEM possa, ainda mais levando Garcia, acompanhar João Doria.”

Aliados de Garcia amenizam o quadro afirmando que ele tem o apoio não só de Doria, mas das bancadas federal e estadual do PSDB e do prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), para integrar o partido.

Tanto no entorno de Alckmin como no de Garcia, há o entendimento de que Covas pode ser o fiel da balança. Embora o vice coloque o prefeito em seu time, outros tucanos próximos a Covas afirmam que, por enquanto, ele não escolheu lados e prefere que haja um entendimento.

Na avaliação de caciques do DEM, Garcia pode dar um tiro no pé ao deixar uma sigla em que é líder inconteste para se envolver no drama que aflige os tucanos no estado, numa rixa com Alckmin pelo mesmo posto.

Auxiliares de Doria afirmam que não cabe realizar prévias se Garcia estiver no PSDB, pois o vice deve ocupar o cargo de governador se Doria for concorrer à Presidência.

Como mostrou a Folha, Alckmin pretende seguir no PSDB, mas não descarta se filiar a outros partidos em que poderia ser candidato ao governo, como PSD, PSB, PSL e Podemos. Nos planos de Doria, Alckmin seria candidato ao Senado, mas José Serra (PSDB-SP) pode concorrer à reeleição na Casa.

Figura política de peso e aliado histórico dos tucanos, Garcia ocupa posição estratégica no governo Doria, exercendo o papel de secretário de Governo –responsável por todas as obras, programas e vitrines da gestão.

Agora rivais, Alckmin e Garcia também têm boa relação. O vice foi secretário do tucano por dois mandatos.
Leite afirma que é preciso construir uma chapa que acomode a todos, inclusive “Alckmin e Serra, que são muito queridos por nós”.

“Com Garcia fora do partido, o DEM passa a ter ainda mais direito à participação nessa composição. Nossos partidos sempre foram irmãos e tiveram apoio um do outro”, completa o presidente do DEM-SP.

As informações são da FolhaPress






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