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Política & Poder

Concessionária pressiona governo Lula contra plano de segundo aeroporto no RS

A manifestação ocorre no momento em que os defensores do projeto prometem intensificar uma ofensiva política em Brasília

Redação Jornal de Brasília

03/07/2026 8h35

lula

Foto: Ricardo Stuckert/ PR

ANDRÉ BORGES
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)

A ideia de construir um segundo aeroporto em Porto Alegre defendida por um grupo de empresários e políticos gaúchos levou a concessionária alemã Fraport, que opera o aeroporto internacional Salgado Filho, a procurar o Ministério de Portos e Aeroportos para rechaçar qualquer chance de avanço da proposta.

No mês passado, a concessionária enviou uma carta ao ministério e à SAC (Secretaria Nacional de Aviação) para pedir que o governo descarte o projeto do chamado “Aeroporto Internacional 20 de Setembro”.

A Folha teve acesso ao documento. A empresa afirma que não há justificativa técnica ou econômica para o plano e diz que o Salgado Filho tem infraestrutura suficiente para atender à demanda de passageiros e cargas pelas próximas décadas.

A manifestação ocorre no momento em que os defensores do projeto prometem intensificar uma ofensiva política em Brasília. O ministério afirmou à reportagem que, até o momento, não há nenhum processo formal de análise de um segundo aeroporto na capital gaúcha.

O movimento local é puxado pelo presidente do PSB gaúcho, Beto Albuquerque. Ex-deputado federal e pré-candidato novamente neste ano, ele diz concluir um dossiê técnico para articular a proposta junto ao governo federal. A ideia seria obter autorização para construir um segundo aeroporto com capital 100% privado, entre os municípios de Nova Santa Rita e Portão, a cerca de 27 quilômetros de Porto Alegre.

A ideia é discutida há anos, mas ganhou tração após os estragos provocados pela grande enchente no estado, em 2024, que paralisou o Salgado Filho.

“É uma oportunidade de avanço para o Rio Grande do Sul. Não estamos falando de competir com o Salgado Filho, mas de ter uma alternativa, tanto na carga quanto em relação a outros voos”, diz Albuquerque.

A iniciativa é coordenada pelo Comitê Pró-Aeroporto Internacional 20 de Setembro, liderado pelo ex-piloto da Varig Nelson Riet, e tem o apoio de empresários da região do Vale dos Sinos, entre eles o presidente do Grupo Sinos, Mário Gusmão, além de prefeitos e lideranças locais.

Foi a movimentação mais recente desse grupo, o que levou a Fraport a deixar uma posição mais discreta e acionar o governo diretamente sobre o assunto. Segundo a concessionária alemã, o Salgado Filho deixou de ser o aeroporto limitado que existia antes da concessão.

A empresa afirma que investiu na infraestrutura, ampliou a pista de pouso de 2.280 para 3.200 metros, aumentou a capacidade anual de passageiros de 7,8 milhões para 16,2 milhões e construiu um novo terminal internacional de cargas.

“O aeroporto passou a ter capacidade para atender a demanda projetada até o final da concessão, sem quaisquer restrições, inclusive, à operação de aeronaves cargueiras”, afirma a empresa. A concessão do Salgado Filho teve início em 2018, com prazo de 25 anos e previsão de terminar em 2043.

Uma das principais queixas do grupo que defende o segundo aeroporto é a de que a estrutura do Salgado Filho não teria condições de receber grandes cargueiros e que, em situações em que pousos ficam inviabilizados no local, é preciso seguir para outros destinos, como Florianópolis, por falta de opção local.

A Fraport, porém, diz que recebe operações de grande porte e que ainda tem espaço para expandir seu terminal logístico. Segundo a empresa, desde que assumiu a concessão, o Salgado Filho ficou inoperante apenas durante a tragédia climática de 2024.

“A premissa de que se faz necessário um novo aeroporto como ‘alternativa’ a este não resiste ao menor senso analítico de viabilidade técnica e econômica”, afirma a concessionária, no documento assinado por sua presidente, Andreea-Diana Pal.

A empresa conclui que “não há justificativa viável que dê respaldo a um gasto de milhares de milhões de reais apenas para servir como ‘backup’ ou ‘alternativa’ ao Salgado Filho”. Na visão da Fraport, a construção de um novo aeroporto não passaria de “um desperdício do recurso da União”.

Para Nelson Riet, coordenador do Comitê Pró-Aeroporto Internacional 20 de Setembro, o Salgado Filho pode atingir a saturação nos próximos anos, sem haver uma alternativa em andamento.

“Recebo sem surpresa a posição da Fraport. Afinal, ela está defendendo simplesmente o seu monopólio, só que monopólio não é uma coisa boa para o cliente”, disse, acrescentando que Porto Alegre teria pouca área disponível para expansão.

O Salgado Filho, disse a empresa, tem recebido nota máxima na qualidade de serviço, além de um novo terminal de carga Internacional com capacidade de processamento de 100 mil toneladas.

A empresa declarou que o patamar de passageiros registrado no período anterior à enchente foi retomado já em 2025, que totalizou 7,5 milhões de viajantes, ante os 7,4 milhões registrados em 2023.

A Secretaria de Logística e Transportes do Rio Grande do Sul declarou que “reconhece a importância estratégica” do Salgado Filho e de investimentos para ampliação da capacidade. “Os estudos já realizados sobre o projeto do Aeroporto Internacional 20 de Setembro indicam a necessidade de avaliações complementares antes de qualquer decisão”, afirmou a secretaria do governo gaúcho.

Segundo a gestão estadual, a discussão deve considerar, de forma integrada, todo o sistema aeroportuário e a logística regional. “Nesse contexto, o Plano Estadual de Logística e Transportes (PELT) fornecerá os subsídios técnicos para orientar o planejamento de longo prazo.”

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