Francisco Dutra
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Candidatos ao governo disparam promessas milagrosas para saúde, educação, segurança e geração de empregos. No jogo das urnas valem as belas palavras. Por outro lado, temas polêmicos e importantes para o futuro do Distrito Federal ficam para escanteio. A estratégia é fincar os pés na zona de conforto para evitar a perda de eleitores. Por exemplo, até agora, a revisão da Lei do Silêncio, o consumo de drogas nas ruas brasilienses e os prédios abandonados estão distantes das campanhas.
“Não tenho a pretensão de saber tudo. Certamente, vão surgir temas que eu não tenha pensado antes. Aí terei a humildade de ouvir a população e os detentores do conhecido para descobrir as respostas. Mas tenho propostas para estas três situações”, comenta Eliana Pedrosa (Pros). No debate sobre a Lei do Silêncio, a candidata pretende garantir a paz e o sossego dos moradores. “As famílias têm crianças, idosos e a garantia que não vão sofrer com som alto em casa”, afirma.
Por outro lado, Pedrosa pretende abrir uma linha de crédito no Banco de Brasília (BRB) para que os estabelecimentos possam instalar ferramentas de isolamento acústico, realmente, eficientes. “Também vamos trabalhar no desenvolvimento de novos centros culturais e gastronômicos afastados das áreas residenciais”, completa.
Segundo Pedrosa, as “microcracolândias” serão tratadas em parceria com o entidades religiosas e o Terceiro Setor. “A força da palavra de Deus é impressionante. Tem um poder de persuasão muito maior nestes casos”, justifica. No caso dos esqueletos de concreto abandonados, Pedrosa planeja encaminhar para a Câmara Legislativa um projeto de lei para aumentar a cobrança do IPTU no bolso dos proprietários.
“São três grandes bolas divididas. Mas temos que entender que uma coisa é fundamental para o desenvolvimento da cidade: o diálogo. É preciso dialogar. Algumas questões são de difícil equacionamento. Mas não dá para deixar as coisas paradas por quatro anos ou mais. É preciso encontrar uma solução, mesmo que não seja perfeita”, pondera Júlio Miragaya (PT). Por isso, no impasse da Lei do Silêncio, o petista defende a construção de regras intermediárias longe dos atuais limites draconianos, mas também distantes da liberdade total para comerciantes e músicos.
Para o drama do consumo de drogas, Miragaya propõem o aumento do quadro da Assistência Social. Pelas contas do candidato, hoje não há pessoal suficiente para atender aos dependentes químicos com resolutividade. “Quanto aos prédios, se forem de iniciativa privada o problema é do investidor. Não adianta lascar uma multa se o cara está descapitalizado. Temos de ajudar ele a negociar com o banco. O Estado não pode deixar solto, porque o prédio pode ser objeto de uma invasão e aí sim teremos um problema público”, diz.
Candidato a reeleição, o governador Rodrigo Rollemberg (PSB) argumenta que já existe um projeto de lei para revisar a Lei do Silêncio em tramitação na Câmara. Na avaliação de Rollemberg, o assunto deve ser exaurido no Legislativo. O governador aposta no novo Código de Obras, aprovado neste ano, para frear os prédios abandonados. Neste sentindo, a promessa é de intensificar as ações de fiscalização e intimação ainda em 2018.
Quanto ao consumo de drogas à céu aberto em Brasília, Taguatinga, Ceilândia e demais cidades, o chefe do Executivo planeja reforçar o programa “Viva Brasília, o nosso pacto pela vida”, o Centro Integrado de Operações de Brasília (CIOB). Rollemberg pretende fazer novas contratações para fortificar os quadros da Polícia Civil, Militar e do Corpo de Bombeiros.
Nanico arrisca mais ao propor
Defendendo temas polêmicos desde a pré-campanha, a exemplo da concessão de Metrô, Alexandre Guerra é um ponto fora da curva nesta história. O candidato está bem distante da zona de conforto. “Não estou para vencer a qualquer custo. Minha campanha será verdade nua e crua”, pondera. O candidato é favor da revisão da Lei do Silêncio. “Está desequilibrada. E tem prejudicado o comércio e a cultura”, destaca.
Guerra promete intensificar operações contra traficantes. Por outro, quer aliar os esforços do Estado com grupos religiosos e a sociedade civil para recuperar os dependentes químicos. Para encarar o problema dos prédios abandonados, estuda um plano de revitalização para o centro de Brasília, bem como de apoio outros grande centros comerciais do DF, como a W3.
Do ponto de vista do general Paulo Chagas (PRP), o cabo de guerra da Lei do Silêncio deve passar pela busca de um meio termo e o aumento das ferramentas de isolamento acústico. “Se não chegar a uma decisão, eu vou tomá-la. E quem estiver mais prejudicado sairá ganhando”, antecipa.
O militar não pretende reinventar a roda na questão das drogas. Inicialmente, garante que vai colocar o Sistema Único de Assistência Social para funcionar. O general ensaia uma política de tolerância zero para os esqueletos de concreto. Ou seja, se o empresário não destravar a obra, a demolição será a solução.
Fátima Sousa (PSOL) definiu uma linha de ação para a Lei do Silêncio. “A atual lei precisa ser rediscutida, para garantir o conforto acústico, sem restrição exageradas as ações culturais. Isso precisa ser feito com diálogo, definindo, por exemplo, áreas de interesse cultural, com parâmetros diferenciados”, resume.
A candidata quer ressuscitar equipes de “redução de danos” para abordar dependentes em pontos de alto consumo de drogas. Também estão nos planos melhoras na infraestrutura, iluminação pública e espaços de lazer. Em defesa de uma política de habitação popular, Fátima planeja cadastrar os imóveis vazios. Tendo o devido respaldo jurídico, os edifícios serão empregados para um programa de habitação popular. Outros serão usados em projetos de lazer e cultura.
Entenda
Conseguir voto de base maior… estimula candidato a subir no muro
– Quem tira os candidatos da zona de conforto das promessas vazias é o eleitor. Segundo o analista político, se o população bate palmas para balelas, acabará por ouvir mais palavras vazias.
– Segundo o analista político Marcelo Moraes, até agora, a maioria das campanhas não está tratando o tema do orçamento de maneira responsável e com a devida profundidade. “É super-importante. Mas não se discute porque não dá voto”, explica.
– Para o professor Ricardo Caldas, do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), o atual governo não se empenhou em nenhuma questão polêmica, por vontade própria. “Só fez isso quando obrigado. A desocupação da Orla do Lago Paranoá é uma decisão judicial”, conta.
– No passado, candidatos buscavam ter posições firmes sobre tudo. De acordo com Caldas, isso mudou. Eles preferem ficar em cima do muro, para conseguir votos de uma base maior de eleitores.