Carlos Carone
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Há exatos 120 dias, o contraventor Carlos Augusto de Almeida Ramos, o Carlinhos Cachoeira, acordou assustado com policiais federais batendo a sua porta. Ele era o principal alvo dos mandados de prisão expedidos pela Justiça Federal em decorrência das investigações que culminaram com a Operação Monte Carlo.
Quatro meses depois, o bicheiro ainda está atrás das grades, desta vez sem a tranquilidade presente na ala federal do complexo penitenciário da Papuda. Pior que isso, hoje ele completa uma semana como interno no Centro de Detenção Provisória (CDP), também na Papuda.
A estada do contraventor no sistema penitenciário brasiliense é recheada de curiosidades e também de problemas, provocados pelas circunstâncias que cercam, atualmente, o interno mais famoso da unidade prisional.
A reportagem do Jornal de Brasília teve acesso a uma série de informações sobre a rotina do bicheiro, desde que ele desacatou agentes penitenciários do Departamento Penitenciário Nacional (Depen) na semana passada. O caso acabou resultando em Termo Circunstanciado (TC) – relacionado a crimes de menor potencial ofensivo – registrado na Polícia Federal.
Colchão é único conforto
O motivo da agressividade do contraventor é que ele não queria ser deslocado para o sistema prisional comum, principalmente pelo fato de a ala federal ter 24 vagas e contar, atualmente, apenas com dez presos. A irritação de Cachoeira teria ganhado proporções maiores quando ele viu que dividiria a cela, que tem cerca de nove metros quadrados, com outros sete presos.
O aperto faz com que todos os internos passem as noites no chão. O conforto fica por conta dos colchonetes que as famílias podem entregar aos internos. O bicheiro recebeu um colchão, levado pelos advogados.
De acordo com fontes da Subsecretaria do Sistema Penitenciário do DF (Sesipe), na última semana, Cachoeira teria gritado, principalmente na frente dos agentes penitenciários, que não estava aguentando mais ficar preso. “Ele bradou algumas vezes que não esperava ficar preso tanto tempo e que pensava até em mudar de advogados, já que seu habeas corpus não sai”, contou um servidor.
Outro problema que faz o contraventor sofrer está na comida servida no presídio. Conhecida pelo sabor bem diferente das iguarias servidas nos restaurantes sofisticados antes frequentados por Cachoeira, a comida da cadeia fez com que o contraventor se transformasse em cliente assíduo da cantina local.
“Ele sempre tem R$ 100 no bolso, que é a quantia máxima que o interno pode portar. Desta forma ele compra bastante coisa na cantina do CDP”, afirmou o diretor da unidade, o delegado Nivaldo Oliveira Silva.
Oscilando da irritação a momentos de tranquilidade, em que mantém semblante sereno, o contraventor, segundo agentes penitenciários ouvidos pela reportagem, sente falta do contato com amigos e principalmente da mulher, Andressa Mendonça.
A situação do bicheiro é pior que a dos detentos que já cumprem pena há anos no sistema e têm direito a visitas semanais dos familiares. Como é um preso temporário, Cachoeira só pode receber visitas quinzenais. O bicheiro só deve receber a visita da mulher na próxima quinta-feira, quando completa 15 dias preso no CDP.
“Essa é uma norma estipulada para os internos que estão no pavilhão dele. Não existe regalias. O Cachoeira é tratado como um preso como outro qualquer”, garantiu o diretor do CDP.
Diploma nunca apareceu
Mais um entrave faz com que o bicheiro não possa desfrutar de um pouco mais de conforto. Apesar de afirmar ter curso superior, o diretor do CDP afirmou que o suposto diploma do bicheiro jamais foi entregue no sistema prisional.
“Só soube pela imprensa que ele seria formado em administração de empresas, mas nunca vi o diploma”, afirmou Nivaldo Oliveira. O diploma de Cachoeira é considerado suspeito pela Polícia Federal. O bicheiro teria cursado presencialmente administração, com habilitação em administração de empresas, em uma faculdade de Londrina (PR), mesmo morando em Goiânia.
O certificado anexado pela defesa jurídica aos pedidos de habeas corpus de Cachoeira aponta a conclusão do curso em 17 de dezembro de 2010 e a colação de grau em 31 de março do ano passado. Só que as conversas telefônicas gravadas pela PF nesse período, usadas na Operação Monte Carlo, mostram atuação intensa do bicheiro em Goiânia e em Anápolis (GO), sua cidade natal. A instituição de ensino tem uma unidade em Anápolis, que só oferece cursos de química, radiologia, enfermagem e segurança no trabalho.
Caso o contraventor comprovasse que realmente possui curso superior, ele poderia ser encaminhado para o Centro de Internação e Reinserção (CIR), unidade considerada mais confortável, por abrigar, entre outras alas, a de policiais que cumprem pena e pessoas com curso superior condenadas pela Justiça.
Na quarta-feira, por três votos a zero, os juízes da Segunda Turma Criminal do Tribunal de Justiça do Distrito Federal decidiram manter Carlinhos Cachoeira na prisão. Na semana passada, a Justiça Federal tinha concedido um habeas corpus a Cachoeira, mas ele não foi libertado por causa de outra ordem de prisão, que foi mantida.