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Bolsonaro apela à primeira-dama para diminuir rejeição do eleitorado feminino

As aparições da primeira-dama fazem parte de uma estratégia da campanha de reeleição de Bolsonaro, que tenta diminuir sua rejeição

Foto: Sergio Lima / AFP

O presidente Jair Bolsonaro (PL) aposta em uma solução doméstica para um problema eleitoral: dar mais visibilidade à primeira-dama, Michelle Bolsonaro, para diminuir a rejeição do eleitorado feminino com vistas às eleições de outubro.

A esposa de Bolsonaro, de 40 anos, deu o que falar no domingo passado, ao cumprimentar em rede nacional de rádio e televisão as mães por seu dia, uma mensagem inédita desde o início do mandato do marido, em 2019.

“Ser mãe é um trabalho em tempo integral (…) É chamar para si a maior e mais divina das responsabilidades”, começou Michelle, que desejou um feliz dia a todas as “mães heroínas” do Brasil.

Ao lado da ministra da Mulher e dos Direitos Humanos, a primeira-dama refletiu sobre a maternidade e citou programas sociais do governo para as mulheres, o que lhe rendeu uma denúncia da oposição por campanha antecipada.

Dias antes, viralizou um vídeo dela durante um culto da bancada parlamentar evangélica – religião que ela segue – em que aparecia ajoelhada, chorando e orando por um “despertar” dos poderes.

As aparições da primeira-dama fazem parte de uma estratégia da campanha de reeleição de Bolsonaro, que tenta diminuir sua rejeição junto ao eleitorado feminino, um dos setores mais esquivos, que o criticam, entre outras coisas, pelos comentários machistas, admitem aliados do presidente.

“Boa imagem”

Michelle “suaviza a imagem do presidente (…) e, além das mulheres, alcança outros públicos por seu trabalho para surdos”, cuja língua domina, e “por seu trabalho social na igreja”, explicou à AFP um assessor de Bolsonaro.

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O colaborador antecipou que a primeira-dama terá um papel relevante na propaganda televisiva da campanha, que terá início em agosto.

Michelle é membro de uma igreja evangélica no Rio de Janeiro e tem uma relação próxima com pastores e deputados da bancada evangélica em Brasília. Ela conheceu Bolsonaro em 2007, quando ele era deputado e ela trabalhava no Congresso como secretária e tornou-se sua terceira esposa.

Embora estivesse longe dos holofotes na campanha que levou seu marido à Presidência, desde o primeiro dia de governo começou a ganhar visibilidade, ao mesmo tempo em que se colocou à frente da coordenação de um programa oficial de voluntariado chamado Pátria Voluntária.

Mas nos últimos meses ela tem multiplicado suas aparições, acompanhando o marido em viagens oficiais e participando também de um ato com retórica eleitoral em Brasília no fim de março, durante o qual o beijou no palanque.

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As mulheres são maioria no colégio eleitoral brasileiro (53%), com uma vantagem de quase 9 milhões sobre os homens. As pesquisas apontam para um desequilíbrio entre o apoio a Bolsonaro e seu principal adversário, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), entre homens e mulheres, setor no qual o ex-presidente tem o dobro das intenções de voto segundo algumas pesquisas.

“O eleitorado feminino é o mais difícil para Bolsonaro e onde mais tem que trabalhar para ser reeleito”, disse à AFP Adriano Laureno, analista da consultoria Prospectiva.

“Instrumento eleitoral”

Lula aparece nas pesquisas como favorito para as eleições de 2 de outubro, mas Bolsonaro tem reduzido sua vantagem. Uma pesquisa da consultoria Ipespe de 5 de maio mostrou que o petista lidera a corrida ao Palácio do Planalto por 44% a 31% das intenções de voto. A vantagem é maior entre as mulheres: 47% a 25%.

O próprio presidente ironizou os dados em fevereiro passado, ao garantir a seus apoiadores que “segundo pesquisa, mulheres não votam em mim, a maioria vota na esquerda. Agora, não sei, pesquisa a gente não acredita”.

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Laureno qualificou Michelle como o “principal instrumento eleitoral” do presidente para conquistar o voto feminino e religioso com um discurso “ligado à família tradicional”.

Bolsonaro encontra resistência entre as mulheres crentes especialmente, um grupo que costuma entrar em confronto com a política de liberação de armas entre a população civil, segundo analistas.

Além disso, o presidente tem tido uma relação conflituosa com grupos organizados de mulheres. Antes das eleições de 2018, ele enfrentou grandes protestos sob o lema #EleNão, motivadas por suas declarações sexistas, como quando em 2014 disse à deputada Maria do Rosário (PT-RS) que era “muito feia” para ser “estuprada”.

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Em outra de suas frases mais lembradas, Bolsonaro, pai de cinco filhos, disse que depois de quatro homens, teve “uma fraquejada e veio uma mulher”, Laura, sua filha com Michelle.

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© Agence France-Presse








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