Passei a madrugada de olho fechado tentando digerir a eliminação, cheguei a pedir chá no quarto pra ver se o estômago se acalmava, e foi nesse embalo que a fala da Ana Thaís Matos passou de novo na repetição da TV do hotel. A comentarista perdeu a paciência durante o jogo contra a Noruega, bem nos minutos finais, quando a seleção já sofria dois gols e o camisa 10 entrava em campo sem conseguir reverter nada. Ela resumiu ao vivo, sem papas na língua, que a fase do jogador andava turbulenta, lamentou que aquilo era o que se tinha pra entregar naquele momento, e cravou o comentário que virou manchete, “bela participação do Neymar no jogo, pra quem esperava que ele fosse decidir a Copa pro Brasil, está aí arrumando briga na reta final da partida”. O narrador Everaldo Marques ainda completou perguntando pra que ele veio, e eu quase derrubei o chá.
Minutos depois Neymar até marcou de pênalti, não sem antes provocar o goleiro adversário, mas o gol não bastou pra virar o placar a tempo. Brasil amargou a eliminação por 2 a 1, e o detalhe que ninguém quer engolir é que essa foi a primeira vez desde 1990 que a seleção caiu logo nas oitavas, depois de décadas emplacando pelo menos quartas de final em toda edição de Copa.

Nas redes a coisa virou território de guerra em questão de minutos. Torcedor recortando o áudio exato da fala e legendando com fogo, fã clube tentando blindar o jogador, perfil de fofoca colorindo o trecho da ironia em neon, tudo isso enquanto quem costuma sair em defesa da seleção a qualquer provocação escolheu o silêncio mais eloquente da noite.

Aqui do hotel em Nova York, ainda com a mala meio aberta e o coração meio partido, levantei do sofá batendo palma sozinha no quarto, aplaudindo de pé um discurso que nenhuma assessoria teria coragem de escrever.
Eu não vou fingir neutralidade porque não tenho a menor obrigação de ter. Ana Thaís Matos disse com classe o que muita gente diz com xingamento, e isso separa comentarista de virologista de internet.