A pré-candidatura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República atravessa uma crise após as revelações sobre sua relação com Daniel Vorcaro. Quanto a isso, não pairam dúvidas. Mas existe uma diferença importante entre a leitura do mundo político e a avaliação de especialistas em opinião pública e dirigentes de institutos de pesquisa.
Enquanto parte da política trata o episódio como fatal para o projeto presidencial de Flávio, estudiosos das pesquisas eleitorais são mais cautelosos e dizem que ainda é cedo para decretar o fim da candidatura do “01″ de Jair Bolsonaro. Para eles, o desgaste do senador é reversível e tende a ter impacto limitado se não houver novos desdobramentos do caso até outubro.
“A candidatura do Flávio não acabou, não acredito nisso. Ele deve cair entre 3 ou 4 pontos nas pesquisas de intenção de voto, o que, dependendo do levantamento, é apenas uma oscilação. Mas será isso. Há uma parcela do eleitorado que não o abandona em nenhuma circunstância e outra que não vota no PT sob hipótese alguma. Ele perde agora entre aquela direita órfã da Lava Jato, mas é um eleitor que depois volta para ele”, afirma Renato Meirelles, fundador do Instituto Locomotiva.
Para o especialista, seria necessário um desgaste muito maior para inviabilizar Flávio. Embora as revelações envolvendo Vorcaro tenham movimentado o mundo político nos últimos dias, o tema não chega à população com a mesma intensidade, diz Meirelles.
“O brasileiro comum acompanha o que acontece no País, mas está mais interessado na convocação do Neymar para a Copa do Mundo do que na relação do Flávio com o Vorcaro.”
Na pesquisa Datafolha divulgada nesta sexta-feira, 22, Lula aparece com 47% das intenções de voto no segundo turno, contra 43% do senador, cenário de empate técnico dentro da margem de erro, que é de dois pontos porcentuais para mais ou para menos. Ambos oscilaram dentro do intervalo da pesquisa. Na última rodada, realizada na semana passada, Lula e Flávio tinham 45% da preferência do eleitorado.
Já no cenário de primeiro turno, Lula marcava 38% e agora aparece com 40%, em oscilação positiva. Flávio, por outro lado, passou de 35% para 31%.
Oswaldo Amaral, professor do Departamento de Ciência Política da Unicamp e pesquisador do Centro de Estudos de Opinião Pública (Cesop) da universidade, avalia que as revelações envolvendo Flávio e Vorcaro não sepultam a candidatura do senador bolsonarista.
“O que está acontecendo é muito mais uma disputa dentro do campo da direita do que propriamente o fim da candidatura do Flávio. Todos ali sabem que qualquer nome que consiga construir uma imagem de anti-Lula será competitivo, seja Caiado ou Michelle. É uma disputa interna, numa tentativa de tirar o Flávio do jogo”, afirma Oswaldo. Assim como Renato Meirelles, ele avalia que existe um contingente de eleitores antipetistas que não muda de posição por causa de uma ou outra denúncia.
O Datafolha mostra que Michelle, de fato, teria desempenho semelhante ao de Flávio em um eventual segundo turno contra Lula. Assim como o senador, a ex-primeira-dama aparece com 43% das intenções de voto, enquanto o petista tem 48% no cenário contra ela. Caiado, por sua vez, aparece com 39% contra 48% de Lula. Embora esteja em patamar inferior ao de Flávio e Michelle, o ex-governador de Goiás ainda é desconhecido da maior parte da população. O mesmo ocorre com o mineiro Romeu Zema, do Novo.
Renato Dorgan, CEO do Instituto Travessia e especialista em pesquisas qualitativas, entende que as revelações têm potencial para desgastar o filho de Bolsonaro em um eventual segundo turno contra Lula, sobretudo entre eleitores de centro. No primeiro turno, porém, ele acredita que o impacto tende a ser mais limitado.
“Tem impacto, sim, mas não é algo avassalador a ponto de tirá-lo do segundo turno. O principal prejuízo é numa disputa contra Lula, porque ele perde força entre os eleitores de centro. Mas, para esse desgaste se manter até outubro, o assunto precisa continuar quente, com novos desdobramentos e não apenas Lula e o PT explorando o episódio, mas também os adversários da direita. A terceira via está muito tímida em relação a esse tema”, afirma Dorgan.
Assim como os demais especialistas, Dorgan afirma que Flávio pode recuperar parte do eleitorado que deixou de declarar voto no senador após virem à tona o pedido de dinheiro feito a Vorcaro e o encontro com o banqueiro depois da prisão.
“Para o eleitor voltar para ele, basta que os candidatos de centro continuem com baixa exposição nas redes e campanhas apagadas, especialmente Caiado, e que o caso envolvendo o Banco Master esfrie. Se isso acontecer, ele pode reconstruir sua imagem junto a esse eleitor em quatro meses.”
Cila Schulman, CEO do Instituto Ideia, diz que ainda é cedo para decretar o fim da candidatura de Flávio e que o tamanho da erosão só ficará claro nas próximas pesquisas. Para ela, um dos principais desafios do senador é se tornar conhecido para além da imagem de “filho de Jair Bolsonaro”, e a associação inicial ao caso Master não ajuda e pode ampliar sua rejeição.
Por enquanto, porém, Cila avalia que o eleitor ainda não vê alternativas a Flávio, já que outros nomes da direita, como os ex-governadores Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo), seguem pouco conhecidos nacionalmente. A tendência, segundo ela, é que parte desse eleitorado migre primeiro para branco, nulo ou indecisos.
“Falar hoje em Flávio fora do segundo turno é muito precipitado. E ainda há uma Copa do Mundo no meio do caminho, que tende a desviar a atenção do eleitor da campanha.”
Estadão Conteúdo