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Opinião

NO SENADO FEDERAL: FARINHA POUCA, MEU PIRÃO PRIMEIRO

Para Davi Alcolumbre e seus pares, o cálculo eleitoral parece valer mais que a responsabilidade fiscal e o interesse nacional

Redação Jornal de Brasília

12/06/2026 11h27

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Foto: Agência Brasil

Por Zé Américo Silva*

Existe uma velha expressão popular que resume bem o espírito de determinadas decisões tomadas pela classe política brasileira: “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Em outras palavras, quando os recursos são escassos, cada um trata de garantir sua parte sem se preocupar com as consequências para os demais.

Foi exatamente essa a sensação deixada pelo Senado Federal nesta semana.

Sob a condução de Davi Alcolumbre, a Casa aprovou ou impulsionou uma série de propostas que podem representar centenas de bilhões de reais em novas despesas ou renúncias de receitas para os cofres públicos. Renegociação de dívidas, novos benefícios previdenciários, ampliação de direitos e reajustes salariais foram colocados na vitrine política como presentes para categorias organizadas e grupos com forte capacidade de mobilização.

O problema não está necessariamente no mérito das propostas. O problema está na completa irresponsabilidade com que elas são aprovadas.

A pergunta mais elementar de todas continua sem resposta: quem vai pagar a conta?

O Supremo Tribunal Federal já se manifestou diversas vezes sobre a necessidade de que projetos que criem despesas indiquem seu impacto financeiro e apontem as respectivas fontes de custeio. A lógica é simples. Nenhuma família séria assume uma prestação sem saber de onde virá o dinheiro. Nenhuma empresa responsável amplia despesas sem avaliar sua capacidade financeira. Mas parte do Senado parece acreditar que o Tesouro Nacional funciona como uma espécie de caixa mágico, capaz de produzir recursos infinitos para atender conveniências políticas de ocasião.

O que se viu nesta semana foi uma demonstração explícita de populismo fiscal irresponsável.

Os senadores distribuem benefícios, recebem aplausos, gravam vídeos para as redes sociais, alimentam suas bases eleitorais e transferem para o governo federal a obrigação de encontrar recursos que simplesmente não existem no orçamento. Quando a conta não fecha, a solução costuma ser sempre a mesma: mais impostos, mais dívida pública ou mais inflação. Em qualquer cenário, quem paga é o cidadão.

Mais preocupante ainda é o contexto em que tudo isso acontece. Estamos a poucos meses de uma eleição nacional. Coincidência ou não, propostas bilionárias passaram a avançar com velocidade impressionante. O interesse público foi substituído pelo interesse eleitoral. A responsabilidade fiscal cedeu lugar à conveniência política.

O Senado, que deveria atuar como Casa revisora e moderadora dos excessos da política, parece ter assumido o papel oposto. Em vez de conter impulsos eleitoreiros, passou a estimulá-los. Em vez de proteger o equilíbrio das contas públicas, decidiu participar da disputa por popularidade.

Davi Alcolumbre conhece perfeitamente os impactos dessas medidas. Conhece as limitações fiscais do país. Conhece as exigências legais relativas à criação de despesas. Ainda assim, permite que o Senado caminhe perigosamente na direção de decisões que atendem interesses imediatos, mas empurram consequências pesadas para o futuro. É a política da generosidade com o dinheiro dos outros.

O Brasil já pagou caro por aventuras semelhantes. Em diferentes momentos da história recente, pautas aprovadas sob aplausos acabaram produzindo déficits maiores, crescimento da dívida, aumento dos juros e redução da capacidade de investimento do Estado. A conta nunca desaparece. Ela apenas muda de endereço até chegar ao bolso do contribuinte.

Enquanto isso, obras estruturantes seguem sem recursos, investimentos estratégicos são adiados e setores fundamentais da economia aguardam soluções permanentes. Mas essas pautas não rendem manchetes fáceis nem produzem dividendos eleitorais imediatos.

No Senado de hoje, parece prevalecer a lógica do “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Cada grupo tenta garantir sua vantagem. Cada parlamentar busca agradar seu público. E a nação fica em segundo plano.

O problema é que o Brasil não pode ser governado como feira livre onde se disputa farinhas e pirões.

Porque quando a farinha acaba, não falta o pirão apenas no prato do governo. Falta, principalmente, no prato de quem sempre termina pagando a conta: o povo brasileiro.

*Zé Américo Silva é jornalista e consultor de marketing político

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