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Líderes das Farc recebem primeira sentença por sequestros após acordo de paz na Colômbia

Sentença histórica prevê trabalhos sociais, restrições à mobilidade e ações de reparação às vítimas; decisão gera críticas de antigos reféns e organizações de direitos humanos

Redação Jornal de Brasília

16/09/2025 17h35

Foto: RAUL ARBOLEDA / AFP

Foto: RAUL ARBOLEDA / AFP

Quase uma década após assinarem um acordo de paz, líderes da extinta guerrilha das Farc foram sentenciados pela primeira vez, nesta terça-feira (16), a realizarem trabalhos sociais e outras penas alternativas à prisão por mais de 21 mil sequestros na Colômbia.

Sete ex-líderes rebeldes, incluindo seu último comandante, conhecido como Timochenko, receberam a sentença máxima estipulada no acordo de paz de 2016.

Pela frente, terão restrições à mobilidade, deverão realizar atividades para dignificar as vítimas, como colaborar na busca por desaparecidos e participar de processos de desminagem nos territórios onde atuaram.

As penas alternativas à prisão foram acordadas no histórico pacto assinado em 2016 entre as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), a guerrilha mais poderosa do continente na época, e o governo do então presidente Juan Manuel Santos, ganhador do prêmio Nobel da Paz.

A Jurisdição Especial para a Paz (JEP) considerou responsáveis os ex-comandantes do chamado Secretariado pelo sequestro de 21.396 pessoas antes de deporem as armas para fundarem um partido político.

As investigações “mostraram que o sequestro se tornou uma prática sistemática, porque ficou claro que os crimes não só violaram a lei, deixaram feridas abertas que persistem nas famílias, nos territórios, na vida cotidiana do país”, afirmou um magistrado à imprensa em Bogotá na ausência dos ex-líderes rebeldes, que admitiram sua responsabilidade nos fatos em 2022.

Os ex-líderes insurgentes asseguraram, por meio de nota, estar dispostos a “cumprir” com “o propósito de reparar a sociedade colombiana”.

“O sequestro é um fardo moral que pesará nos nossos ombros por muitos anos”, disseram.

– “Caçoada” –

O tribunal levou mais de sete anos para proferir sua primeira sentença, em meio a críticas de detratores do acordo de paz por sua suposta indulgência com os rebeldes, que também são acusados de outros crimes contra a humanidade, como o recrutamento de menores.

Durante sua longa insurgência, as Farc fizeram reféns militares, policiais, empresários e dirigentes políticos, como a franco-colombiana Ingrid Betancourt. Imagens de reféns famintos e acorrentados em celas de arame na floresta deram a volta ao mundo.

Em uma entrevista à AFP, Betacourt assegurou que se sente “caçoada” e “humilhada” pela “desconcertante” decisão do tribunal.

Espera-se que a JEP, cuja vigência se estenderá no máximo até 2037, emita mais sentenças sobre outros crimes envolvendo o Secretariado e membros da força pública acusados do assassinato de civis para apresentá-los como guerrilheiros mortos em combate.

Políticos e paramilitares que enfrentaram a guerrilha também recorreram ao tribunal para confessar seus crimes e, assim, evitar a prisão.

– “Escravidão” –

Como parte do acordo que beneficiou cerca de 13 mil combatentes e colaboradores, os rebeldes das Farc se comprometeram a confessar seus crimes e a reparar as vítimas em troca de participar na política e evitar a prisão.

Entre os condenados está Rodrigo Londoño (Timochenko), atual presidente do partido Comunes, bem como Rodrigo Granda, conhecido como o chanceler das Farc, e dois senadores atuais que ocupam seus cargos graças ao acordo.

Segundo a JEP, as Farc submeteram os sequestrados a “maus-tratos e humilhações” que “ignoravam completamente sua dignidade humana”. Alguns eram obrigados a trabalhar “de graça” para a guerrilha, o que o tribunal qualificou como “escravidão”.

A ONU qualificou a sentença como um “marco nos processos de paz”. Mas a Human Rights Watch questionou que, embora os rebeldes usarão “dispositivos eletrônicos durante 8 anos”, a JEP “guardou silêncio sobre o perímetro dentro do qual estarão restritos de sua liberdade”.

– Sequestro de 14 anos –

Os líderes guerrilheiros tinham pedido, sem sucesso, uma única condenação para todos os seus crimes.

O sequestro é uma das feridas mais profundas causadas pelo conflito na Colômbia. De acordo com a JEP, a retenção mais longa nas mãos do grupo guerrilheiro durou 14 anos.

Um dos casos mais simbólicos foi o da então candidata presidencial Ingrid Betancourt, sequestrada em 2002 junto com sua chefe de campanha, Clara Rojas, que deu à luz um bebê durante seus mais de seis anos de cativeiro.

Com esta prática, a guerrilha demonstrava seu poder em territórios com pouca presença do Estado e pressionava os governos.

Apesar do acordo de paz, continua sendo uma prática de grupos armados ainda ativos na Colômbia. Os sequestros aumentaram 82% este ano em relação a 2024, segundo a Polícia.

© Agence France-Presse

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