GABRIEL BARNABÉ E GUSTAVO QUEIROLO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Cinco anos depois de o presidente Jovenel Moise ser assassinado a tiros em sua residência em Porto Príncipe, na madrugada de 7 de julho de 2021, o Haiti segue mergulhado em um ciclo de violência que se ampliou e convergiu as crises humanitária, econômica e institucional que desestruturam o país.
Nos últimos anos, facções ligadas a grupos políticos controlam a maior parte da capital haitiana e avançam sobre áreas rurais que antes escapavam de seu domínio. A tentativa mais recente da comunidade internacional de conter esse avanço é a Força de Supressão de Gangues (GSF, na sigla em inglês), uma missão multinacional autorizada pelo Conselho de Segurança da ONU que começou a atuar em Porto Príncipe.
O grupo é uma tentativa de, junto às forças policiais haitianas, enfrentar as milícias armadas que são os principais atores envolvida na onda de violência no país. Desde 2024, o Haiti recebia a Missão Multinacional de Apoio à Segurança, liderada por oficiais quenianos e financiada em grande parte pelos Estados Unidos.
Apesar de sucessos pontuais, no entanto, as tropas não conseguiram conter a expansão das gangues e, portanto, saíram do país em abril deste ano, quando começaram a atuar os integrantes da GSF que reúne agentes de diversos países, principalmente o Chade. Espera-se que a nova missão assuma o papel da anterior com maior força, mas ela só deve atingir seu efetivo planejado de 5.500 integrantes no fim deste ano.
O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, visitou o país em junho e afirmou, na ocasião, que a presença das novas tropas “oferece uma oportunidade real para conter a violência e restaurar a autoridade do Estado” haitiano. “Não podemos desperdiçar essa oportunidade”, disse o português.
A violência, porém, ainda segue em guinada. Em meados de junho, em Porto Príncipe, homens armados sequestraram James Boyard, diretor de gabinete do Ministério da Defesa e inspetor-geral da Polícia Nacional do Haiti. O caso é o sequestro recente de maior escalão hierárquico. Boyard é visto como um dos principais especialistas e líderes da segurança no país.
Dados do Acled, organização que monitora eventos de conflitos armados pelo mundo, demonstram que o número de confrontos entre grupos armados neste primeiro semestre de 2026, a despeito das intervenções internacionais, segue em níveis comparáveis a 2023 e 2024.
A quantidade de eventos e consequentes mortes fica abaixo apenas dos primeiros seis meses de 2025, quando houve o pico histórico na violência do país.
As gangues responsáveis pelas ofensivas contra as forças estatais controlam quase a totalidade da capital no início do ano, especialistas apontavam ao menos 90% da cidade sob seu controle.
Grupos armados ligados a partidos políticos ou com objetivos políticos declarados, classificados pelo Acled de “milícias políticas”, lideram a lista de agentes causadores de mortes em conflitos no país. Os principais confrontos registrados são contra forças estatais, civis, outras gangues ou milícias identitárias aquelas que se reúnem não por objetivos políticos, mas a partir de grupos étnicos, religiosos ou comunitários.
Segundo um levantamento do Unicef, o fundo da ONU para a infância, esses grupos dependem da cooptação de menores como seus membros. Um relatório publicado em fevereiro deste ano correlaciona o deslocamento recorde de 1,4 milhão de pessoas em todo o país com o aumento no recrutamento de crianças e adolescentes.
Em 2025, segundo a estimativa do órgão, entre 30% e 50% dos membros de facções armadas eram menores, incluindo crianças de 9 anos o triplo do registrado no período anterior.
Ainda de acordo com as Nações Unidas, cerca de 1,5 milhão de haitianos de uma população de 11 milhões estão deslocados internamente, e mais de 5 milhões enfrentam insegurança alimentar severa.
Só na capital, mais de 115 mil crianças vivem deslocadas, muitas abrigadas em escolas superlotadas, sem acesso adequado a água, alimentação e proteção.
Um levantamento da ONG Save the Children publicado em junho ainda concluiu que cerca de metade da população infantil do país mais de 2 milhões de crianças, 47% do total morava a menos de 5 km de algum incidente violento nos primeiros cinco meses deste ano.
No Haiti, as crianças são pouco mais de um terço da população, mas 43% delas vivem na região da capital, onde se concentra a maior parte da atividade das gangues.
O levantamento da organização, que se baseia também em dados registrados pelo Acled, aponta um uso crescente de drones armados contra grupos criminosos em áreas urbanas densamente povoadas.
Segundo dados analisados pela ONG Human Rights Watch, pelo menos 1.243 pessoas foram mortas em 141 operações com drones entre março de 2025 e janeiro de 2026.
O relatório da Save The Children conclui ainda que o ambiente tem se tornado ainda mais complexo para a atuação da GSF, uma vez que há um número cada vez maior de civis, incluindo crianças, vinculados a grupos armados. A organização defende, porém, que os menores sejam tratados como vítimas de violações graves, não como combatentes.
“As crianças precisam de proteção, acesso a uma educação de qualidade e oportunidades para um futuro promissor. Com o envio da GSF, estamos em um ponto de virada; no entanto, a segurança, sem um investimento humanitário paralelo, não romperá o ciclo de violência”, afirma Gabriella Waaijman, diretora de operações da ONG.
A violência das gangues também avançou sobre áreas rurais historicamente menos afetadas.
Especialistas da ONU alertam para as disputas territoriais que focam estradas e regiões estratégicas. A organização publicou um relatório, em dezembro de 2025, em que alertou que o país tem se tornado um polo central do tráfico internacional de drogas, com cocaína vinda da América do Sul e escoada por território haitiano rumo à Europa e à América do Norte.
A nova força GSF, celebrada por Guterres, tem um objetivo claro, segundo afirmou Jack Christofides, chefe da missão, ao Conselho de Segurança: “degradar a capacidade operacional das gangues a um nível que as instituições haitianas possam gerir o país de forma sustentável”.