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Davos abdica de vocação para debater soluções e encampa defesa da Ucrânia

Mas as restrições sanitárias e o timing reduziram essas delegações, como observaram participantes com os quais a Folha conversou

Por FolhaPress 28/05/2022 10h26
Presidente Zelenski faz discurso em vídeo conferência transmitida durante evento em Davos. Foto: Fabrice Coffrini/ AFP

Luciana Coelho
Davos, Suíça

A retomada do encontro anual do Fórum Econômico Mundial em Davos, adiado em janeiro de 2021 e novamente no início deste ano devido à pandemia, era grande. Crise climática, economia, sustentabilidade, inclusão, revolução no mercado de trabalho -estava tudo na pauta.

A Guerra da Ucrânia, contudo, ofuscou não só os debates como os humores e os prognósticos do evento, que acabou tendo menos quórum neste ano (muitos convidados com Covid não puderam comparecer, e a agenda mais atribulada de maio, na comparação com janeiro, foi outro percalço).

Diferentemente do que houve em outras crises, porém, Davos abdicou de sua vocação de espaço para se debater a solução de crises e problemas globais e encampou a defesa do governo da Ucrânia, sem espaço para mediações.

Começou com o presidente Volodimir Zelenski, em Kiev, fazendo por vídeo o primeiro discurso no espaço nobre do evento e comparando a invasão de seu país com os estopins da Primeira e da Segunda Guerras Mundiais; terminou com o prefeito de Kiev, Vitali Klitschko, no centro da entrevista coletiva final do encontro, conclamando ação contra uma guerra “sem regras”.

Seus apelos foram reforçados por parlamentares, jornalistas e ativistas ucranianos, tratados como estrelas pela organização. E não faltou quem os ecoasse.

“Uma potência nuclear está se comportando como se tivesse o direito de redesenhar fronteiras. [Vladimir] Putin quer o retorno a um mundo no qual a força determina o que é certo”, disse o premiê alemão, Olaf Scholz, em seu discurso na quinta-feira (26).

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“Não é só a existência da Ucrânia como Estado que está em jogo. Todo o sistema de cooperação internacional criado após duas guerras mundiais devastadoras para impedir que nunca mais isso acontecesse está em jogo.”

Antes, na terça-feira, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, ressaltou que a União Europeia, pela primeira vez na história, estava prestando ajuda militar e econômica a um país (o qual, aliás, não integra o bloco).

A mínima dissonância nos mais de 450 painéis veio do quase centenário Henry Kissinger, ex-secretário de Estado americano que já viveu muitas guerras e participou do debate por telão, advertindo que a negociação entre as partes é urgente e deveria incluir a cessão de território por Kiev. Apoiou os ucranianos, mas sugeriu que os demais governos reduzam a pressão sobre Moscou.

Entre os 107 países de alguma forma representados no evento, a Rússia, outrora um participante ativo, nem sequer constava. A Casa da Rússia, sempre uma das maiores atrações da avenida principal de Davos, a Promenade, desapareceu, e no local foi aberta uma Casa dos Crimes de Guerra da Rússia.

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A China, aliada da Rússia, pouco se fez presente: os estritos controles antipandêmicos de Pequim e Xangai impediram uma participação mais vultosa, como em outros anos.

Os debates sobre economia também foram atravessados pela guerra. Porque a Rússia é um dos principais exportadores de petróleo e gás do mundo, porque é um dos principais produtores de fertilizantes e porque o conflito entre os dois países, grandes produtores de grãos, energia e comida, encareceu esses itens bruscamente desde o início da guerra, em 24 de fevereiro

As altas alavancaram a inflação mundo afora, mesmo em países que desconhecem o fenômeno, como a Suíça, e economistas e especialistas no Fórum alertaram para o risco real de faltar alimentos nas nações pobres e energia nas ricas.

Dívidas soberanas cresceram, as cadeias de fornecimento sofreram interrupções, e o comércio global retraiu. Em suma, a globalização estancou, e o planeta está à beira de uma nova crise devido à guerra, ainda mal saído do caos da pandemia.

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Correta ou não, não é a visão que prevalece na América Latina, na Ásia e na África. E mesmo nos Estados Unidos o impacto é dimensionado com mais nuances.

Mas as restrições sanitárias e o timing reduziram essas delegações, como observaram participantes com os quais a Folha conversou, tornando um evento que nos últimos anos vinha diversificando seus convidados essencialmente europeu. Logo, vizinho à guerra.

E, como ressaltou Scholz, há o temor de que todo o sistema desenhado após 1945 colapse, o que pode impactar ainda mais o peso da região no mundo, ensejando um redesenho da paisagem internacional e, como observou o ministro Paulo Guedes (Economia), uma reorganização das relações econômicas entre os países. Não é pouco.

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