O escândalo de manipulação da Libor, a taxa de juros do mercado interbancário de Londres que baliza trilhões de dólares em operações financeiras mundo afora, deu ao governo Dilma Rousseff mais um argumento para desidratar o Certificado de Depósito Interbancário (CDI). Para fontes da equipe econômica, o CDI, como a Libor, pode ser manipulado. Por isso, a ordem é acelerar o processo de substituição do indicador, principal referência para o sistema financeiro nacional.
Para se ter uma ideia do que está em jogo, a remuneração dos quase R$ 700 bilhões aplicados em CDBs no Brasil é calculada com base em um porcentual do CDI. Na BM&FBovespa, os contratos futuros de juros, que movimentam trilhões de reais mensalmente, também têm como referência o CDI. Em qualquer ranking de investimentos, o CDI é o termômetro que baliza o desempenho de uma aplicação.
Além de mudar as regras da previdência privada aberta – medida anunciada há cerca de um mês -, o governo federal vai desestimular o uso do CDI nos fundos de investimentos com um mix de mudanças tributárias regulatórias.
Assim como a Libor, o CDI é uma taxa calculada com base nos juros cobrados em empréstimos entre bancos. O problema, na avaliação do governo e de especialistas do mercado, é que o número de operações e o volume negociado são baixos.
Em setembro, por exemplo, os dias mais agitados para o mercado de CDI registraram 19 operações. Em volume, foram no máximo R$ 2 bilhões por dia. Quem conhece mercado financeiro sabe que são dados irrisórios. “Como uma taxa que é formada por menos de 20 negócios pode servir de referência para mais de R$ 1 trilhão em aplicações?”, indaga uma fonte da equipe econômica.
Dez anos atrás, o cenário era bem diferente. Em janeiro de 2002, havia, em média, entre 150 e 160 negócios por dia. Segundo fontes do setor, o enxugamento ao longo dos anos é explicado, entre outras razões, pela expansão do crédito na economia. Em vez de deixar o dinheiro parado no caixa, as instituições passaram a emprestar mais.
Um ex-presidente do Banco Central (BC) explica o temor das autoridades. “As instituições que fazem as operações interbancárias que resultam na taxa do CDI são as mesmas que emitem os CDBs, que, como sabemos, são referenciados no próprio CDI.” Em outras palavras, os bancos têm grande poder de definir a remuneração dos CDBs e outros produtos financeiros lastreados no CDI.
A mesma fonte completa o raciocínio: em tese, o CDI tem de acompanhar de perto a taxa básica de juros (Selic), que baliza o custo do dinheiro no Brasil. “Mas existe o risco de os bancos negociarem os empréstimos entre si com juros relativamente inferiores à taxa básica para que, ao final do dia, o CDI seja menor”, disse. “Com CDI mais baixo, a remuneração paga pelos CDBs e outros produtos financeiros cai também.”
O ex-dirigente do BC lembra que, do lado do ativo, as instituições financeiras têm praticamente todo o patrimônio atrelado à taxa Selic. Em síntese, portanto, está se falando do ganho potencial dos bancos com a diferença entre o que recebem aplicando em Selic e o que pagam aos investidores remunerando pelo CDI.
No início do ano passado, a BM&FBovespa lançou duas novas medidas para o custo do dinheiro, uma para três meses e outra para seis meses à frente. Tecnicamente, são as chamadas Taxas de Juros de Referência (TJ). O Estado apurou que o governo tem conversado com a Bolsa sobre a possibilidade de substituir o CDI como referência para os contratos de juros futuros. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo