Para atrair novos clientes, os aplicativos de investimento estão tentando tornar suas plataformas mais atraentes.
Na última década, os investimentos passaram por uma transformação. Antes reservadas aos mais ricos e bem conectados, as ações e agora também as criptomoedas se tornaram muito mais acessíveis, em grande parte graças a uma nova geração de aplicativos de investimentos como eToro, Webull e Robinhood, entre outros.
Esses aplicativos certamente tornaram os investimentos mais fáceis, trazendo designs de usuário elegantes e intuitivos. Entretanto alguns especialistas alertam que isso muitas vezes distrai os consumidores comuns dos riscos inerentes envolvidos nos investimentos. Inúmeras são as advertências sobre perdas no varejo e sobre o fato de que seu capital está em risco, mas a crescente ‘gamificação’ desses aplicativos de investimentos representam um presente perigo. A gamificação neste caso é um conceito de que os avanços no design dos aplicativos de investimentos para os usuários contribuem para uma aparência semelhante a um jogo. Em aplicativos específicos como um app de apostas os usuários estão diretamente cientes dos riscos e de que se trata de uma aposta que pode gerar lucros ou perdas. No caso dos aplicativos de investimento, embora prever o comportamento futuro de ações e de criptomoedas seja algo similar, com riscos, isso pode não ficar tão claro para usuários leigos e investidores iniciantes.
Essa tem sido uma preocupação mundial. No Reino Unido, por exemplo, a Autoridade de Conduta Financeira (FCA) está claramente preocupada com a extensão da gamificação nos aplicativos de investimentos. Recentemente, a FCA alertou as operadoras para revisarem os recursos de seus aplicativos para garantir que elementos semelhantes a jogos não induzam os consumidores a investir além de seu apetite de risco. Os reguladores disseram estar preocupados com recursos como contagem de pontos nos aplicativos, tabelas de classificação, distintivos de recompensas, mensagens de felicitações, notificações push frequentes e altos valores padrão para decisões de investimento.
A FCA pesquisou 3.000 consumidores em uma amostra de cinco aplicativos de investimentos diferentes e descobriu que alguns exibiam padrões de comportamento consistentes com alguns jogos de azar problemáticos. Em três dos cinco aplicativos estudados, entre um quinto e um quarto dos consumidores demonstravam comportamentos de “risco”. Além disso, a Pesquisa de Vida Financeira da FCA em 2022 constatou que 9% dos adultos com investimentos tomaram dinheiro emprestado para cumprir os investimentos – e 49% deles não teriam sido capazes de efetuar o investimento sem fazer isso.
Sarah Pritchard, diretora executiva de mercados da FCA afirmou que alguns recursos de design de produto podem estar contribuindo para um comportamento problemático, até mesmo semelhante a jogos, para os investidores. Segundo ela, se espera que todas as empresas que oferecem negociação de ações aos seus consumidores analisem isso e, quando for apropriado, façam melhorias em seus produtos e aplicativos com base nessas descobertas. Elas também deverão garantir que estão fornecendo suporte aos seus clientes, especialmente aqueles em circunstâncias vulneráveis ou que mostram sinais de comportamento problemático de jogo.
A questão da gamificação tornou-se mais nítida com o surgimento de moedas digitais e NFTs. As trocas de criptomoedas se concentraram compreensivelmente em interfaces de usuário simples e fluxos de compra intuitivos, às vezes às custas da proteção ao consumidor. Dentro do mundo cripto especificamente, isso contribuiu para uma cultura de “compre agora e aprenda depois”, com uma lacuna significativa de conhecimento existente entre aqueles que já haviam dado o salto para investir nessa área.
De acordo com uma pesquisa de 2021 da Cardify, um terço dos consumidores que negociam moedas digitais admitiram não saber nada ou muito pouco sobre no que investiram. Uma pesquisa recente sugeriu que a “alfabetização” em criptomoedas entre os consumidores nos EUA por exemplo está melhorando lentamente.
Negociar em um aplicativo mobile significa que os usuários provavelmente verificarão repetidamente os seus investimentos muitas vezes ao dia, levando-os a comprar e vender com muito mais frequência. Muitos produtos financeiros complicados estão disponíveis nessas plataformas, e uma interface móvel pode simplificá-los a ponto de a negociação se tornar uma adivinhação, ou nitidamente uma mera aposta.
Os especialistas afirmam que não há nada de errado em tornar os investimentos mais acessíveis a todos, mas que todos devem se lembrar que investir não deve ser como jogar um jogo online.