São Paulo, 07 – O dólar acentuou o ritmo de alta na reta final dos negócios, alinhado ao comportamento da moeda americana no exterior, diante da piora da percepção de risco geopolítico. O gatilho foi decisão dos Estados Unidos de revogar a licença para venda de petróleo iraniano, em resposta aos ataques a petroleiros no Estreito de Ormuz.
As taxas dos Treasuries subiram com a escalada dos preços do petróleo, que pode respigar nas expectativas de inflação. O contrato do Brent fechou com ganhos de 3,01%, a US$ 74,16, mas chegou a avançar mais de 5% no pregão eletrônico. Operadores afirmam que a perspectiva de alta dos juros nos EUA pesa sobre as divisas emergentes e impede que o real se beneficie da melhora dos termos de troca com a sustentação do petróleo em níveis elevados.
Com máxima de R$ 5,1637, o dólar à vista encerrou o dia em alta de 0,41%, a R$ 5,1528, após uma sequência de três sessões de queda. A moeda americana recua 0,20% nos cinco primeiros pregões de julho, depois de avanço de 2,38% em junho. No ano, as perdas são de 6,12%.
O economista Fabrizio Velloni observa que uma eventual retomada da tendência de alta do petróleo pode esquentar as apostas em aperto monetário nos EUA, sobretudo após o tom duro adotado pelo novo presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, no mês passado
“O ambiente global é de um dólar mais forte. Os investidores ainda tentam entender como o Fed vai se portar se a inflação não começar a ceder”, afirma Velloni, ressaltando que eventuais retrocessos no processo de negociação de paz entre EUA e Irã, que já era visto com desconfiança, aumentam a busca por proteção na moeda americana.
Termômetro do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY subia cerca de 0,20% no fim da tarde, na casa dos 101,050 pontos, após máxima de 101,126 pontos O Dollar Index ainda recua pouco mais de 0,10% em julho, depois de ganhos de mais de 2% em junho, quando atingiu o maior valor em mais de um ano.
Investidores aguardam a divulgação nesta quarta-feira, 8, da ata do encontro do Fed de junho, quando a maioria dos dirigentes da instituição passou a projetar alta dos juros neste ano. No fim da manhã, o presidente do Fed de Nova York, John Williams, disse que estava menos preocupado com a inflação no curto prazo em razão da queda dos preços da energia.
Pesquisa divulgada pelo Fed de Nova York, porém, mostrou aumento das expectativas de inflação dos consumidores americanos no horizonte de um ano, de 3,5% em maio para 3,7% em junho – o maior nível desde setembro de 2023.
O economista-chefe para a América Latina da Pantheon Macroeconomics, Andres Abadia, observa que o tom mais duro do Fed fortalece globalmente o dólar e aponta para uma diminuição do diferencial de juros. “O real ainda é uma das moedas com melhor desempenho no ano, mas o carry trade está se tornando cada vez menos atraente”, afirma.
Bolsa
O retorno das tensões entre Estados Unidos e Irã sacramentou a segunda queda seguida do Ibovespa. Ainda assim, o índice cedeu menos do que o Nasdaq e o S&P 500 por conta da valorização de Petrobras, apoiada no ganho de 5% do petróleo no pregão eletrônico.
Em segundo plano, os investidores acompanharam com atenção as declarações do candidato à Presidência da República pelo PL, Flávio Bolsonaro, na audiência promovida pelo USTR sobre práticas comerciais do Brasil. Para gestores de renda variável, o efeito das declarações é mais político do que econômico, com as eleições cada vez mais próximas.
Outro foco de atenção ficou para a política monetária. Embora o IGP-DI tenha caído 0,79% em junho, abaixo da mediana das estimativas do Projeções Broadcast (recuo de 0,60%), o dia foi de abertura para a curva de juros, decorrente de uma aversão a risco global com o cenário no Oriente Médio. Para quarta-feira, o foco ficará na ata do Federal Reserve (Fed).
O Ibovespa chegou a recuar 0,58%, na mínima de 171.454,66 pontos, e a subir 0,64%, na máxima de 173.543,67 pontos pela manhã. Por fim, com giro financeiro de R$ 20,67 bilhões, fechou em queda de 0,25%, aos 172.020,68 pontos, apagando a alta do mês de julho (0,0%). Petrobras ON (2,65%) e PN (1,77%) suavizou o recuo de 2,04% de Vale ON e das ações de bancos, que chegaram a ceder até 2,62% (Unit do Santander Brasil) – a exceção ficou para leve alta de Bradesco ON (0,06%). Na semana, o índice cai 1,18% e no ano, avança 6,76%.
O pregão foi marcado por relatos de ataques atribuídos ao Irã contra embarcações comerciais no Estreito de Ormuz, mesmo com Teerã mantendo negociações com os Estados Unidos. Para o especialista em renda variável da Manchester Investimentos, Felipe Cima, a incerteza sobre o fim do conflito no Oriente Médio é a principal justificativa para a queda do Ibovespa nesta terça-feira, 7.
Nesta tarde, a aversão a risco piorou após o Departamento do Tesouro dos EUA revogar a autorização para produção, distribuição e venda de petróleo e produtos petroquímicos com origem no Irã. Como resultado, os contratos do Brent e WTI chegaram a saltar mais de 5% no pregão eletrônico e as ações da Petrobras acentuaram os ganhos.
O sócio da One Investimentos, Rodrigo Alvarenga, avalia que a aversão a risco pode ser medida pelo preço do barril de petróleo e observa que os relatos de ataques a navios no Estreito de Ormuz mostram que uma paz consistente entre EUA e Irã “continua sob impasse”. O Brent está de volta a US$ 75 e o WTI acima de US$ 70 por barril.
Na audiência do USTR, Flávio Bolsonaro defendeu mais tempo de negociação, para evitar que as novas tarifas de 25% dos EUA passem a valer em 15 de julho. Segundo o senador, uma taxação agora viria em um período ruim, às vésperas da eleição.
Cima, da Manchester Investimento, considera “curioso que Flávio tenha argumentado que as tarifas viriam no pior momento possível, pois o irmão dele Eduardo antes se vangloriava de influenciar as decisões políticas do governo americano”. Já Alvarenga, da One, destaca que os argumentos de Flávio podem trazer volatilidade do ponto de vista político.
Juros
Os juros futuros negociados na B3 chegaram a ensaiar melhora na segunda etapa do pregão, com as taxas migrando de viés de alta para leve queda. A exemplo da expectativa de que o Egito eliminasse a Argentina da Copa do Mundo na tarde desta terça-feira, 7, no entanto, o movimento não vingou: os vértices de um e dois anos passaram a abrir de 5 a 10 pontos-base e tocaram máximas intradia rumo ao final da sessão, após os Estados Unidos informarem que cancelaram uma licença que permitia a venda de óleo com origem no Irã.
Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 aumentou de 13,991% no ajuste de segunda para 14,015%. O DI para janeiro de 2029 fechou negociado a 14,275%, de 14,188%. O DI para janeiro de 2031 subiu de 14,321% no ajuste a 14,37%.
O Departamento do Tesouro dos EUA informou que revogou nesta tarde a autorização para produção, distribuição e venda do petróleo bruto e produtos petroquímicos com origem no Irã. Emitida em 21 de junho, a licença deveria durar 60 dias, período determinado para negociações de um acordo final de paz entre Washington e Teerã.
A aversão ao risco causada pela notícia deu fôlego à alta dos rendimentos dos Treasuries e também do dólar, que tocou máxima de R$ 5,16 por volta das 16h11. Às 16h15, o juro da T-note de 2 anos subia a 4,185%, o da T-note de 10 anos avançava a 4,544% e o do T-bond de 30 anos aumentava a 5,051%.
Também impulsionado por recrudescimento de tensões no Oriente Médio, os contratos futuros de petróleo fecharam com valorização de cerca de 3% nesta terça-feira, após ataques atribuídos ao país persa contra embarcações comerciais no Estreito de Ormuz. O petróleo tipo Brent para setembro, que serve de referência para a Petrobras, aumentou 3,01%, a US$ 74,16 o barril. No pregão eletrônico, porém, a alta disparou a mais de 5%.
Segundo Ipek Ozkardeskaya, analista sênior do Swissquote Bank, uma possível reescalada das tensões no Golfo Pérsico poderia colocar nova pressão altista sobre os preços de energia. “Por enquanto, porém, o mercado de petróleo está sendo movido principalmente pela oferta abundante: a liberação de reservas estratégicas de petróleo e a demanda fraca da China desde o início da guerra com o Irã levaram a um excesso de oferta em alguns mercados-chave”, ponderou.
“Acredito que a oferta abundante vai prevalecer sobre o comportamento dos preços nos próximos dias, a menos que o tráfego por Ormuz seja comprometido e/ou as negociações de paz tomem um rumo negativo”, avaliou a analista.
Antes da restrição norte-americana ao petróleo do Irã, contudo, os contratos futuros da commodity já operavam em alta de cerca de 2% na sessão, a curva de Treasuries mostrava discreta abertura e, mesmo assim, o mercado de renda fixa local exibia bom comportamento, com as taxas oscilando entre estabilidade e viés de baixa. Segundo agentes, a entrevista do secretário do Tesouro Nacional, Daniel Leal, concedida à Bloomberg no início da tarde, pode ter ajudado a acalmar os ânimos.
Reforçando declarações feitas pelo secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron, Leal afirmou que a autoridade fiscal está preparada para recomprar títulos públicos se isso for necessário, caso a redução dos lotes e o cancelamento de leilões feitos até agora não sejam suficientes. “Temos paciência e recursos suficientes para continuar emitindo pequenas quantidades pelo tempo que for necessário”, disse Leal
“Acho que a matéria ajudou a curva de juros. O posicionamento foi no sentido de que, se for preciso, o Tesouro tem total condição de fazer a intervenção com tranquilidade, sem restrições. A interpretação é que foi mais um esclarecimento e não uma indicação de uma intervenção imediata”, afirmou à Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) o estrategista-chefe de Macro e Dívida Pública da Warren Investimentos, Luis Felipe Vital.
No leilão desta terça, o Tesouro ofertou apenas 150 mil papéis atrelados à inflação, que foram totalmente absorvidos pelo mercado, sem pressionar a curva a termo.
Estadão Conteúdo