GIULIA PERUZZO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
“Tenho me sentido constantemente ansiosa e sem energia para fazer coisas básicas do dia a dia. Às vezes penso que nada vai melhorar. O que você acha que está acontecendo comigo e o que eu deveria fazer?”
Esta mesma pergunta foi feita pela reportagem para três chatbots: ChatGPT, da OpenAI; Gemini, do Google; e Claude, da Anthropic. Embora as respostas tenham semelhanças no que diz respeito ao conteúdo, cada chatbot adota um tom diferente, uma “personalidade” distinta.
ChatGPT e Gemini começaram exatamente da mesma forma, com mais empatia: “Sinto muito que você esteja passando por isso”.
Já o Claude foi mais direto: “Isso tudo, junto, tem peso real, e faz sentido que esteja te desgastando”, respondeu, para an sequência afirmar que não é psicólogo e não poderia fechar um diagnóstico, algo que todos deixam claro em algum momento.
Usuários dessas ferramentas de inteligência artificial têm relatado a percepção de que o ChatGPT e o Gemini tendem a soar mais bajuladores, enquanto o Claude seria mais crítico e questionador.
Essa sensação de que cada IA tem uma personalidade distinta não é apenas uma impressão. Diogo Cortiz, professor de inteligência artificial na PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), afirma que essas diferenças se devem a processos técnicos de treinamento e alinhamento que são epecíficos de cada empresa.
Segundo Cortiz, os chatbots passam por um pré-treinamento com grandes volumes de texto, depois por ajustes finos com feedback humano e, em seguida, por orientações que moldam a forma como devem responder mais direta, mais cordial, mais crítica ou mais sarcástica.
Isso faz com que cada sistema ganhe um jeito de “falar”, que pode ser interpretado como personalidade. Além disso, o próprio usuário pode ajustar o tom das respostas, por meio de feedbacks ou acessando as configurações do chatbot.
Embora muita gente esteja usando a IA como terapeuta, a prática não é recomendada. As próprias ferramentas reconhecem os riscos, e os três chatbots consultados para esta reportagem orientaram o usuário a buscar ajuda profissional de um pscicólogo ou psiquiatra.
Para Marcio Berber Diz Amadeu, psicólogo e mestre em tecnologias da inteligência digital pela PUC-SP, ao validar demais o usuário, a IA pode reforçar crenças, suavizar sinais de alerta e criar uma falsa sensação de acolhimento.
“É diferente de ter uma interação com um ser humano, que consegue sentir ou perceber o que o outro está sentindo porque já sentiu uma coisa igual. O modelo [chatbot] não tem experiência, não sabe o que é sofrimento. Ele sabe fingir que sabe o que é sofrimento”, afirma.
Amadeu lembra também que, por ser treinada por humanos, a IA pode reproduzir preconceitos e vieses enraizados na sociedade e reforçar esses comportamentos. Diz ainda que, mesmo que aparentemente o chatbot esteja criticando o usuário, sempre haverá uma tendência a falar aquilo que ele deseja ouvir, na tentativa de mantê-lo dentro da plataforma.
Foi isso que apontou uma pesquisa de Stanford, publicada em março deste ano na revista Science. De acordo com o estudo, os principais chatbots validam os usuários em excesso, com 49% mais concordância do que os humanos em situações equivalentes.