Brasil

Um ano sob o risco de um inimigo invisível

No dia 26 de fevereiro de 2020, era diagnosticado o primeiro caso de covid-19 no país. Desde então, doença vitimou mais de 250 mil

Foto: Vitor Mendonça/ Jornal de Brasília

Direto da Lombardia para o Brasil

Cezar Camilo
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O empresário brasileiro, de 61 anos, foi contaminado por Sars-Cov-2 enquanto passava férias na Lombardia, região norte da Itália. Ele chegou ao aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, no dia 21 de fevereiro do ano passado – em plena Quarta-Feira de Cinzas, cinco dias antes de testar positivo para o novo coronavírus. O agente patogênico não tinha alcançado o Brasil e nem a América Latina até então.

Segundo o Ministério da Saúde, o homem é considerado o primeiro diagnóstico confirmado no país, no dia 26 de fevereiro. O paciente cumpriu o restante da quarentena no Hospital Albert Einstein e se recuperou. Mas especialistas ainda receiam não ser possível definir quando a pandemia, de fato, chegou em solo tupiniquim.

A Agência Nacional da Vigilância Sanitária (Anvisa) informou que, logo após o ocorrido, outras 46 pessoas que tiveram contato com o paciente foram monitoradas: 30 faziam parte da família do paciente, reunidos em uma festa na casa do adoentado, e 16 estiveram com o empresário no voo.

Em pouco mais de uma semana, a Saúde registrou os primeiros casos de transmissão local do novo coronavírus. Até o dia 5 de março, havia somente casos importados do Sars-Cov-2, como é chamado oficialmente.

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O crescimento de registros no Brasil foi exponencial. Uma pesquisa sobre a dispersão do novo coronavírus no Brasil, capitaneada pelo doutorando em zoologia na Universidade de Oxford, Darlan Cândido, mostrou que 100 infecções foram registradas no país por pessoas que viajaram ao exterior no início da pandemia — a maioria com destino à Europa.

Segundo o pesquisador, é difícil afirmar com precisão o primeiro caso do país. Os motivos para a ocultação de outras ocorrências estão atrelados à falta de orientações de autoridades antes da primeira confirmação, a grande quantidade de pacientes assintomáticos e o fato de que o novo coronavírus pode ter sido confundido com outros problemas respiratórios.

“Nossa estimativa é que o Sars-Cov-2 circulava no Brasil desde a metade de janeiro, pelo menos. Não é possível dar uma data exata pelo intervalo de incerteza, onde outros casos de transmissão podem ter ocorrido sem registros”, disse Darlan Cândido ao Jornal de Brasília. O cientista relata que é impossível afirmar com certeza se houve outro evento antes da primeira detecção pelo Ministério da Saúde, “analisamos por aproximação”.

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Descontrole gera dúvidas

Para especialistas, um dos fatores que colaboram para que a primeira pessoa com o coronavírus no Brasil não tenha sido diagnosticada é a demora de autoridades brasileiras para tomar as primeiras medidas de enfrentamento, mesmo com casos do Sars-Cov-2 passando a ser registrados ao redor do mundo desde janeiro.

“Existe muito tráfego aéreo no Brasil. Em janeiro, por exemplo, muitas pessoas podem ter chegado do exterior sem sintomas ou com sintomas bem leves, como tosse e pouca febre. Não existia um controle ou qualquer orientação sobre o coronavírus, então elas podem não ter procurado atendimento médico. Em uma semana, podem ter se recuperado, mas nesse período podem ter contaminado muita gente”, relata o virologista Bergmann Morais Ribeiro, do Departamento de Biologia Celular da Universidade de Brasília (UnB).

No início de abril de 2020, uma informação do Ministério da Saúde causou polêmica em torno do primeiro caso do novo coronavírus no Brasil. Isso porque a pasta divulgou que a primeira morte em decorrência do vírus no país foi registrada em 23 de janeiro, em Minas Gerais, quase dois meses antes do primeiro óbito confirmado oficialmente.

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No dia seguinte, porém, o ministério retificou a informação. A pasta afirmou que o óbito foi registrado em 23 de março e justificou que houve uma falha de digitação, por isso informava erroneamente que teria sido em janeiro.
Ao corrigir a informação, durante coletiva de imprensa, o então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, afirmou que era possível que o vírus já circulasse no país em dezembro passado ou janeiro.

Mandetta argumentou que a China ainda estava descobrindo casos que ocorreram no começo de dezembro. Por se tratar de um país grande, segundo o ex-ministro, o vírus pode ter se propagado para outras regiões do mundo ainda quando não existia um diagnóstico.

Recorde de mortes na pandemia

Um ano depois do primeiro caso de covid-19, o Brasil registrou o maior número de óbitos pela doença em 24 horas em toda a pandemia. Nesta quinta-feira, foram registradas 1.582 mortes de brasileiros pela doença, segundo apuração do consórcio de imprensa. Com expansão da doença em diversos locais, os dados apontam que o país vive o pior momento da pandemia.

O recorde anterior de mortes (1.554) tinha ocorrido em 29 de julho do ano passado, seguido por 4 de junho, com 1.470 óbitos. O ranking, porém, já é dominado por 2021. Sete dos dez dias com mais mortes na pandemia ocorreram em 2021.

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A média móvel de mortes pela covid foi recorde, pelo segundo dia consecutivo. O valor chegou a 1.150, ontem, com crescimento de 7% em relação ao dado de 14 dias atrás, o que representa uma situação de estabilidade. Na quarta, o valor era de 1.129. Essa média é recurso estatístico busca dar uma visão melhor da evolução da doença, pois atenua números isolados que fujam do padrão. A média móvel é calculada somando o resultado dos últimos sete dias, dividindo por sete.

Já de acordo com os dados do Ministério da Saúde, o Brasil contabilizou 1.541 novas mortes em decorrência do novo coronavírus nas últimas 24 horas, elevando o total de óbitos para 251.498.

No mesmo intervalo, foram contabilizados 65.998 novos casos de covid-19. Com isso, o Brasil chega a um total de 10.390.461 registros da doença. A região Sudeste é com maior número de casos e mortes pela covid-19, 3.779.069 e 116.141, respectivamente. O Centro-Oeste atingiu nesta quinta-feira 1.110.081 casos e 22.174 mortes.

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