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Só 1 de cada 3 autores de estudos sobre Covid-19 é do sexo feminino

“O problema é que a Covid-19 atinge homens e mulheres, mas as respostas para a doença estão sendo pensadas sobretudo por homens”, diz pesquisadora da Universidade de Oxford

Testes de coronavírus feitos no Sesc da 504 Sul. Foto: Vítor Mendonça/Jornal de Brasilia

Sabine Righetti
São Paulo-SP

A ciência mundial nunca investigou tanto e tão aceleradamente sobre um único tema: o novo coronavírus. Mas as pesquisadoras mulheres estão ficando de fora dessa corrida acadêmica.

De acordo com um estudo publicado no periódico BMJ Global Health nesta quinta (11), só um terço de quem assina as pesquisas sobre a Covid-19 no campo da saúde são mulheres. E, vale lembrar, as ciências de saúde são consideradas uma área “feminina”.

Estatisticamente, as pesquisadoras representam 34% de quem participou de alguma forma de resultados científicos publicados no mundo sobre a Covid-19.

Entre quem lidera os estudos sobre o novo coronavírus, a presença feminina cai mais um pouco: só 29% dos trabalhos têm uma mulher no topo da lista de autores –como Ana-Catarina Pinho-Gomes, médica portuguesa e pesquisadora na Universidade de Oxford (Reino Unido) responsável pelo levantamento.

Como as mulheres são metade dos pesquisadores na área da saúde (inclusive no Brasil), a hipótese da pesquisadora era a de que elas também fossem metade dos autores dos trabalhos sobre o novo coronavírus.

“O problema é que a Covid-19 atinge homens e mulheres, mas as respostas para a doença estão sendo pensadas sobretudo por homens”, diz Ana-Catarina. Na prática, a sub-representação das pesquisadoras nos trabalhos acadêmicos tende a criar também uma sub-representação de questões relevantes para as mulheres na pandemia.

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Esse é o primeiro levantamento que analisou, por gênero, a produção acadêmica de saúde debruçada especificamente na Covid-19. Foram mapeados 1.445 estudos científicos publicados na área médica sobre o vírus de 1º de janeiro a 1º de maio.

Os estudos publicados sobre o novo coronavírus no período analisado foram assinados por um total de 6.722 cientistas. O gênero desses autores foi identificado a partir do primeiro nome dos cientistas com a ajuda de um software.

Para os responsáveis pela análise –são seis mulheres incluindo Ana-Catarina e um homem– a participação das pesquisadoras nos estudos tem sido afetada pelas medidas de isolamento social.

“Muitos cientistas estão agora trabalhando de casa e enfrentam demandas concorrentes como a educação dos filhos”, escrevem. “Esses papéis são predominantemente assumidos pelas mulheres, especialmente em países com alta desigualdade de gênero.” Nos países africanos, por exemplo, as mulheres lideram só 7% das pesquisas publicadas sobre o tema.

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Os novos dados, de acordo com a física da UFRGS Márcia Barbosa, uma das principais especialistas em gênero e ciência do Brasil, evidenciam uma desigualdade de gênero que já estava posta.

Agora, as mulheres cientistas, sobrecarregadas ainda mais com as tarefas domésticas, não estão conseguindo migrar para um tema de pesquisa novo como a Covid-19. “As pesquisadoras que estão conseguindo publicar na pandemia acabam ficando em temas nos quais já trabalhavam.”

Na prática, isso vai impactar a carreira dessas acadêmicas no médio prazo. “A publicação científica durante a pandemia será levada em conta, por exemplo, nas progressões de carreira no futuro. Precisamos pensar em políticas compensatórias em todos os níveis”, diz Márcia.

Identificar o problema, claro, é o primeiro passo para resolvê-lo. E depois? “Uma das sugestões é que os periódicos científicos tenham cotas de participação de autoras mulheres”, diz Ana-Catarina.

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Outra ideia seria a simples identificação do gênero dos autores nos trabalhos submetidos. Assim, caberia aos avaliadores decidir se um estudo científico –por exemplo, sobre uma nova doença global– tem representatividade suficiente para ser publicado.

As informações são da Folhapress

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