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Resistência de praticantes do candomblé tem sido caminho contra intolerância, diz pesquisadora

Mesmo diante do racismo, a educadora entende que a formação da identidade religiosa relaciona-se a um processo de resistência

Guilherme Fonseca
Jornal de Brasília / Agência de Notícias UniCEUB

– Professora, a senhora é macumbeira?.

A pergunta chocou a educadora Miracema Alves dos Santos, docente de história na rede municipal de Duque de Caxias (RJ). Ela estava vestida toda de branco em uma sexta-feira. Miracema, que é candomblecista e negra, considera que o racismo estrutural faz parte da rotina brasileira e que se relaciona diretamente à intolerância contra religiões de matriz africana, como é o candomblé. Ela foi uma das palestrantes do evento “Herança Africana no Brasil”, que aconteceu nesta semana e do coordenado pelo Centro de Inovação e Estudos Sociais do Centro Universitário de Brasília (Ceub).

Mesmo diante do racismo estrutural e da invisibilidade do candomblé, a educadora entende que a formação da identidade religiosa relaciona-se a um processo de resistência. “O nosso povo resistiu à violência da captura, à violência da travessia atlântica, à violência do trabalho forçado e à violência do processo civilizatório  imposto pelo europeu”, afirma a historiadora.

Barracão

Miracema Alves explica que os rituais religiosos acontecem em um lugar chamado de “barracão”. “O barracão é o lugar da festa onde o orixá é apresentado para o público”. Dentro dessa identidade cultural, a pesquisadora identifica um respeito muito especial pelo saber das crianças na religião. “A criança no candomblé canta, dança, brinca e participa de todos os rituais. Inclusive, a responsabilidade da educação na infância é de toda a comunidade espiritual, de todos os filhos da casa”.

Ela brinca que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) nem precisaria existir para a comunidade candomblecista, em vista de que os principais temas abordados na lei já são seguidos com extremo rigor pelos praticantes da religião. Da mesma forma, o respeito permanente à natureza é outro valor inquestionável para eles. 

Herança

Foi também palestrante o educador Clementino Junior. Filho da atriz Chica Xavier (que morreu em agosto do ano passado), ele salienta que a matriz religiosa do candomblé chegou à geração dele através da avó e da mãe.  “Penso o terreiro como extensão da família e da coletividade. Nós nos entendemos como um povo”. O educador cita que a solidariedade é muito presente nesse ambiente comunitário e religioso. “Através dos rituais, entendemos o sentido da necessidade de  ficarmos juntos contra o preconceito”.     

Para Mônica Lopes, do Ceub, uma das coordenadoras do evento, diz que as discussões ocorreram como forma de celebração e conscientização. “Este evento é uma celebração ao que somos e uma forma de agradecer àqueles que nos deram a sua genética e seu jeito característico de ser.  Devemos celebrar as contribuições africanas que dão forma a nossa identidade social. Devemos celebrar nossas particularidades advindas dessa ancestralidade”.

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