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Negacionistas se convertem e abraçam vacina contra Covid

A lista de arrependidos é quilométrica. Podemos citar políticos como Boris Johnson, 56, premiê que não deu bola para conselhos científicos e resistiu à ideia de impor um confinamento até a mortalidade disparar no Reino Unido

Foto: Agência Brasil

Anna Virginia Balloussier
São Paulo, SP

“Mas preciso saber se você vai citar o nome da minha mãe, pois agora a bonita morre de vergonha”, diz a engenheira Hellen, 33, quando a reportagem a procura.


Omitimos seu sobrenome, para que a família não seja identificada, e ela topa contar uma história que vem se reproduzindo num país que neste fim de semana atinge meio milhão de vítimas da Covid-19: pessoas que se arrependem de ter um dia negado a vacina ou aderido ao tratamento precoce contra a doença, já fartamente impugnado por estudos científicos sérios. São os ex-negacionistas.


A “bonita” que “morre de vergonha” tomou ivermectina após ser bombardeada por mensagens no WhatsApp sobre um suposto efeito profilático da medicação. “Inclusive uma prima que trabalha em hospital e disse que tava tomando”, conta a filha.


“No grupo da família só se falava nisso, e ela comprou caixas e caixas”, diz a engenheira sobre um dos remédios propagandeados pelo presidente Jair Bolsonaro mesmo sem dados que comprovem qualquer serventia para este coronavírus em particular. “Ela me encheu tanto a paciência que tomei um comprimido. Insistiu muito pra eu tomar a caixa toda. Eu, hein!”


Com dores no fígado, a mãe de Hellen fez exames de sangue que indicaram alterações nas transaminases TGO e TGP, enzimas que refletem o funcionamento do órgão.


As taxas dela estavam em 63 U/L (TGO) e 67 U/L (TGP). Para uma mulher adulta, uma medida considerada saudável nos dois casos fica entre 10 U/L e 37 U/L.

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O uso indiscriminado da ivermectina, um vermífugo usado para combater parasitas, em geral com dose única, chegou a levar pessoas para a fila do transplante de fígado.


A mãe de Hellen não conta “de jeito nenhum” quantas doses tomou e, segundo a filha, “tenta colocar a culpa em outras coisas”. Suspeitou até de remédios que ela sempre tomou contra azia e que nunca deram efeito colateral antes. “Ela nunca vai admitir que foi a ivermectina. Chegou até a ir a um médico, que disse ‘por que você tá tomando isso?'”


Para a psicanalista Vera Iaconelli, doutora em psicologia pela USP, “a gente tende a achar que as pessoas se dobram aos fatos, mas na verdade elas usam os fatos conforme seus interesses e muitas vezes desejos inconscientes”.


Manter-se a salvo da Covid-19 é o que todos querem, mas “as saídas reais sempre têm limites”, daí preferir atalhos mágicos, diz Iaconelli. “Quem não queria ter algo que pudesse tomar, e [o vírus] não ia me pegar?”

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Embaralhe isso com a dificuldade de “separar o que é ciência e o que é opinião”, e a mesa está posta para o negacionismo –de certa forma, negar o que não podemos controlar. “É uma atitude de desespero, de resposta à angústia”, afirma a psicanalista.


A lista de arrependidos é quilométrica. Podemos citar políticos como Boris Johnson, 56, premiê que não deu bola para conselhos científicos e resistiu à ideia de impor um confinamento até a mortalidade disparar no Reino Unido.


Ou falar do guru indiano Baba Ramdev, 55, que zombou dos “tolos procurando cilindros de oxigênio” para compensar a falta de ar provocada pela Covid, dizendo que “Deus nos deu oxigênio de graça” para respirar. Em junho, após reiteradas amostras de escárnio com a comunidade médica, chamou doutores de “anjos de Deus” e garantiu que tomaria a vacina logo.


A texana Heather Simpson, 30, militava contra toda sorte de imunizantes. No Halloween de 2019, fantasiou-se de sarampo, doença que matou mais de 200 mil pessoas em 2019, segundo a Organização Mundial da Saúde.

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Em abril, ela vestiu uma camiseta preta onde se lia, em inglês, “me beija que eu tô vacinada” para aceitar a primeira de duas doses do fármaco da Pfizer contra a Covid-19. Na véspera, levou a filha de três anos para se imunizar pela primeira vez, contra a poliomielite.


Explicou-se. Após se deixar levar por uma espiral de fake news, como a de que vacinas causam câncer e autismo, Simpson começou a detectar sandices do movimento. Ativistas que ridicularizavam o uso de máscara na pandemia ajudaram a movê-la para o lado da ciência.


No caso da comerciante Cláudia Cheble, 56, esse empurrão veio pela fé. Ela contraiu Covid numa viagem a Trancoso (BA) com outras dez pessoas, incluindo suas gêmeas.

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Meses depois, Cheble não queria se vacinar por achar que “a própria classe médica é muito dividida” a respeito, embora a ampla maioria recomende a imunização. “Optei por ficar do lado dos médicos conservadores.”

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A ficha foi caindo aos poucos. “Cuido do meu pai, que é idoso. Num domingo na igreja, conversando com o pastor Pedrão, as minhas filhas comentaram com ele que eu não queria tomar. Conversamos, e ele me disse que havia tomado, falou da importância de estar fazendo a minha parte, e racionalizei a questão.”


Líder da Comunidade Batista do Rio, Pedrão cita uma passagem bíblica ao lembrar da operação para dissuadir Cheble: “A boa ovelha ouve a voz do seu pastor”.


Um amigo pastor também teve de convencer uma fiel. Pedrão mostra a mensagem enviada pelo colega: “Uma irmã escreveu: ‘Como você teve coragem? Não tomo [a vacina] nem amarrada’.”


“Tomei a vacina e posso afirmar, maior é o que está em mim e não importa o que entra em meu corpo!!!”, replicou o líder religioso. “Sou templo de Deus e minha sentença é fruto do sangue daquele que morreu na cruz por nós!” A boa ovelha escutou.


O motorista de aplicativo Djalma Leitão, 45, estava cabreiro com o que considerava parco tempo de estudo para desenvolver as vacinas.


Não se sentiu “preparado e tampouco confiante” em oferecer o braço à agulha, conta. O efeito manada ajudou positivamente. “Além do índice de pessoas buscando se vacinar rápido para voltar a ter suas vidas normalizadas, percebo que sem o comprovante da vacina nada mudará.”


Descobrir que pastores que admira também se imunizaram o ajudou a mudar de ideia, diz Leitão, que trabalha fora todo dia e tem um recém-nascido em casa.


A palavra soa pejorativa, claro, mas negacionistas são mais do que uma patota de gente afundada em teorias conspiratórias. Christian Dunker, psicanalista e professor do Instituto de Psicologia da USP, o secciona em quatro grupos.


Tem o negacionismo de natureza delirante, quadro clínico que “no fundo é uma impossibilidade de a pessoa em aceitar determinadas ideias porque elas se chocam com um sistema paranoico já estabelecido”.

Outra possibilidade se escora no coletivo: pessoas unidas para repelir o que as desagrada. Seria uma modalidade “de extração meio religiosa”, como fortalecer crenças que negam a morte. Melhor crer que a Covid é uma gripezinha do que uma hecatombe viral.


Há também a negação revanchista, segundo Dunker. “A pessoa sempre se sentiu cancelada, sem oportunidade de se incluir no sistema, e na hora em que pode dizer alguma coisa, ela reage negando a vacina, aquilo que vem como representação da política, das instituições.”


Por último, o negacionismo de alguém que porventura se acha deficitário, “sobretudo diante das transformações que o mundo recente tem trazido”, e trava uma espécie de disputa por reconhecimento. Vai querer que você a convença. “A hora em que você explica –sem insultar–, é possível que aconteça o efeito de gravitação, de deslocamento.”

Até porque o discurso do outro lado seduz. Não há relação de causa e efeito entre tomar cloroquina e se safar da Covid, mas acreditar nessa possibilidade diminui a sensação de impotência.

As informações são da Folhapress






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