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Mortes por Covid no Brasil podiam ter sido evitadas com medidas básicas, dizem Médicos Sem Fronteiras

Médicos Sem Fronteiras (MSF), é uma entidade que está auxiliando no combate à Covid-19 em 90 países, entre eles o Brasil

Manifestação contra a política de enfretamento contra o coronavirus no Brasil. Foto: Sergio Lima/ AFP

Patrícia Campos Mello
São Paulo, SP

Grande parte das 400 mil mortes por Covid-19 no Brasil poderiam ter sido evitadas se o país tivesse adotado medidas básicas de prevenção, que funcionaram no mundo todo. Essa é a visão do médico grego Christos Christou, presidente internacional dos Médicos Sem Fronteiras (MSF), entidade que está auxiliando no combate à Covid-19 em 90 países, entre eles o Brasil, e tem grande experiência em epidemias.

Christou acaba de passar cinco dias no Brasil, acompanhando o trabalho dos MSF em unidades de saúde em Rondônia e conversando com médicos e pacientes. “Muitas mortes e sofrimento podiam ter sido evitados no Brasil”, diz. “Bastava fazer o básico, adotar as medidas que funcionaram em muitos lugares.”

Segundo ele, o Brasil é o único país onde a população ainda usa de forma maciça remédios sem comprovação científica como hidroxicloroquina e ivermectina. “O ‘kit Covid ‘ não é inofensivo. Os médicos que receitam esses remédios fazem mais mal do que bem a essas pessoas”, diz.

Como estava a situação em Rondônia, nas unidades de saúde onde o senhor esteve?

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As coisas estão melhorando, fiquei muito feliz de ver unidades de saúde com vagas, e não havia falta de insumos essenciais. As pessoas que estavam devastadas e exaustas nos últimos tempos estão recuperando seus sorrisos. Essa é a parte positiva. Mas o desafio que permanece é toda essa desinformação que se espalha cada vez mais. Encontrei muitas pessoas que demoraram para ir para o hospital porque acharam que iam se curar com o famoso “kit Covid”, com hidroxicloroquina, ivermectina e vitaminas.

Existe uma posição do governo e de conselhos de medicina de deixar que os médicos receitem o que acharem melhor, dar liberdade aos para receitarem, por exemplo, o “kit Covid”…

O “kit Covid” não é inofensivo. Há pelo menos três consequências. As pessoas não apenas tomam os remédios que não têm comprovação científica contra Covid, elas tomam em excesso, tomam todos os dias, doses maiores do que as recomendadas, supostamente para fazer prevenção —e o resultado é que seus testes de funções hepáticas ficam muito alterados por causa disso.

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Além disso, se eles têm sintomas, ficam em casa e se cuidam pouco, porque acham que o “kit Covid” vai ajudar –e assim vão contaminando outros membros da família. Por fim, eles demoram para ir para o hospital, acham que o “kit Covid” vai curá-los, e chegam muito tarde, mais difícil de reverter a situação.

Os médicos que receitam esses remédios fazem mais mal do que bem a essas pessoas, e isso viola o princípio da medicina. Não digo que isso aconteça de propósito, ou conscientemente, e muitas das pessoas nem consultam médicos, vão sozinhas e compram com ou sem receita. É como acontece com tudo –quando o vizinho tomou e disse que funcionou, é a melhor propaganda.

E se o presidente e ministros tomam e fazem propaganda na TV, nas redes sociais, é uma grande influência?

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Esse é um problema real. Não posso deixar de apontar o governo federal como o responsável pela falta de qualquer mensagem consistente, de uma abordagem científica, e de uma resposta coordenada, centralizada.

Os MSF atuam em 90 países. O Brasil é o único onde grande parte das pessoas está tomando esses remédios sem comprovação científica?

Sim. Certamente temos vários outros problemas em outros países, a maneira pela qual os políticos interpretam a ciência varia muito. Mas não vimos em nenhum outro lugar essa situação com “kit Covid”.

Chegamos na semana passada à horrível marca de 400 mil mortos por Covid-19, segundo maior número de mortes, só atrás dos EUA. Essas mortes eram evitáveis?

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Posso dizer que muitas mortes e sofrimento podiam ter sido evitados no Brasil. Não consigo te dar números, obviamente existem modelos projetando, mas sabemos que poderíamos ter evitado muitas mortes, especialmente em locais onde não houve nenhuma preparação para receber um aumento de doentes muito graves.

Os lugares onde as pessoas receberam orientações corretas, mensagem e comunicação clara sobre o que fazer e o que não fazer, tiveram desempenho muito melhor. O campo de batalha da Covid não é apenas nos hospitais, é preciso agir nas comunidades, nos sistemas de saúde básica.

Como essas mortes podiam ter sido evitadas?

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Bastava fazer o básico, adotar as medidas que funcionaram em muitos lugares. Medidas de saúde pública, usar máscara, evitar deslocamentos desnecessários, fazer distanciamento social, usar mensagens consistentes e claras e não negar a gravidade da doença, negar a doença. Obviamente, as coisas poderiam ter sido melhores em todos os países. Mas o mínimo é não negar a doença, não ignorar o que está acontecendo bem na frente dos olhos de todo mundo. Deveriam ter ouvido mais ciência. Não sabemos tudo, mas, depois de um ano de pandemia, aprendemos muita coisa.

Mas, aqui no Brasil, parece que não aprenderam nada. Além de tudo isso, é necessário ter uma resposta centralizada, bem coordenada pelo governo federal. As pessoas veem o presidente e influenciadores promovendo e adotando essas medidas que não funcionam e são prejudiciais, e eles não conseguem deixar de fazer a mesma coisa.

A culpa é das pessoas ou dos governantes?

Quando as pessoas entendem por que uma coisa e necessária e útil, elas seguem as orientações. As pessoas só precisam das orientações certas. Não dá para culpar a população. Só dá para culpar as pessoas encarregadas de dar as orientações e administrar a pandemia.

Podemos esperar que a situação continue melhorando nas próximas semanas, ou há risco de mais uma onda?

Vou falar do ponto de vista global. Modelos mostram que certamente teremos novas ondas, precisamos saber como as pessoas em diferentes países vão responder a essas novas ondas. Em lugares onde as medidas de saúde pública foram mantidas, as pessoas ainda estão alertas, onde há bons sistemas de testagem e de rastreamento de casos, a resposta será melhor. Também depende da velocidade da vacinação. Quanto mais rápido vacinarmos, mais gente estará imunizada quando vier a próxima onda.

Atualmente, no Brasil, apenas 9,7% receberam as duas doses e 19,7% receberam uma. A vacinação vai controlar a pandemia?

Com o ritmo de vacinação que temos hoje e pela maneira quer as vacinas funcionam, sabemos que não vamos conseguir controlar essa pandemia só contando com as vacinas. Vacina não pode ser vista como panaceia, algo que vai resolver tudo. Vacinação precisa ser acompanhada de testagem e medidas de saúde pública para reduzir a circulação do vírus.

No Brasil, a taxa de vacinação é decepcionante, considerando que o país tem grande capacidade de fabricação de vacinas e o know-how de campanhas maciças de vacinação. Além disso, as pessoas estão muito confusas por causa da desinformação, e, quanto mais confusas, mais elas perdem a confiança na ciência. Ou seja, temos agora o nacionalismo vacinal, em que países disputam para comprar vacinas, e a hesitação vacinal, causada por desinformação sobre a eficácia e efeitos colaterais das vacinas.

A Índia é o novo epicentro da pandemia, com recorde diário de mortes. O que houve?

A resposta inicial, no ano passado, foi bem sucedida. Mas, depois, comemoraram vitória de forma prematura. Não apenas deixaram as pessoas voltarem ao trabalho, já que o impacto sobre as pessoas mais pobres era muito grande, mas quiseram também ter exatamente a mesma normalidade de antes. Fizeram comícios maciços, festivais religiosos, em um momento de campanhas eleitorais, queriam vender como história de sucesso. As pessoas chegavam a dizer que tinham imunidade.

Há escassez de vacinas na maioria dos países, enquanto Estados Unidos, Reino Unido e algumas outras nações asseguraram uma quantidade de doses muito superior à necessária para vacinar a população. Os MSF estão envolvidos na discussão sobre a suspensão das patentes durante a pandemia, proposta liderada pela Índia e África do Sul na Organização Mundial de Comércio. É uma obrigação moral achar uma maneira de aumentar o acesso às vacinas?

Não é apenas uma obrigação moral. Mesmo se formos muito egoístas, precisaremos ter uma solução para todos, porque não vamos estar seguros se todo mundo não estiver seguro. Achei que íamos aprender com os erros que cometemos no início da pandemia, quando países disputavam para comprar equipamento de proteção, ventiladores. Com as vacinas, a ciência mostrou que estava preparada para responder, e desenvolveu várias armas viáveis contra a Covid. Mas estamos cometendo os mesmos erros que no início da pandemia, concorrendo para comprar, usando como arma política.

Alguns países já estão vacinando suas populações menos vulneráveis, os jovens, enquanto outros não receberam nem uma única dose. Por isso MSF apoia a suspensão de patentes. Sabemos que vai demorar para conseguirem fabricar vacinas em vários países. Mas esse é um problema que não vai embora tão cedo, será necessário repetir a vacinação, dar doses de reforço regularmente, então precisamos aumentar a escala de produção. As patentes nunca foram pensadas para pandemias, foram pensadas para condições normais.

As farmacêuticas argumentam que, com licenciamento compulsório, não há incentivo para investimentos em pesquisa e desenvolvimento e haverá menos descobertas de drogas. Elas também afirmam que, mesmo que suspendessem patentes, outros laboratórios ao redor do mundo não conseguiriam fazer engenharia reversa e começar a produzir as vacinas…

Vai levar meses para desenvolver, mas algumas vacinas podem, sim, ser reproduzidas. E há lugares com capacidade de fabricação, só precisam de suspensão de patente —Índia, Canadá, Bangladesh, África do Sul. Precisamos ao menos tentar. Em relação aos incentivos às farmacêuticas, não podemos nos esquecer de que grande parte dos investimentos para a pesquisa de vacinas de Covid veio de governos. Então temos de tratar as vacinas como um bem da coletividade, e não só uma oportunidade de lucro.

Há países que foram bem na administração da pandemia?

Alguns países que tiveram experiências (com epidemias) no passado, como Coreia do Sul, Taiwan, seguiram medidas de prevenção e seus sistemas de saúde estavam mais preparados para responder na comunidade e em hospitais. Também se destacaram locais onde a liderança foi eficiente, como na Nova Zelândia, onde os governantes mostraram empatia, não negaram a seriedade da doença. Boa liderança é muito importante, as pessoas confiam no governante, seguem as orientações.

O Brasil é o pior país em termos de gerenciamento da pandemia?

Não posso omitir outros países onde também fizeram escolhas péssimas, que comprometeram direitos humanos, ou países onde houve um péssimo gerenciamento da pandemia, mas houve mudança e, agora, estão melhorando. O que posso dizer é que, neste momento, o Brasil é um péssimo exemplo.

RAIO-X
Christos Christou, 47

Nascido em Trikala (Grécia), se formou na faculdade de medicina da Universidade Aristóteles em Tessalônica. Tem mestrado em saúde internacional – gerenciamento de crises de saúde pela Universidade de Atenas e doutorado em cirurgia pela Universidade Kapodestrian de Atenas. Se especializou em cirurgia geral e de emergência no Hospital Evangelism em Atenas e ingressou na MSF em 2002, onde foi médico em zonas de conflito, primeiro secretário-geral, vice-presidente e presidente do conselho administrativo de MSF-Grécia.






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