Jornal de Brasília

Informação e Opinião

Brasil

Médica de RR é acusada de desviar vacinas contra Covid de refugiados para o TJ

Segundo denúncias que estão sendo apuradas internamente, essas vacinas teriam sido desviadas da Operação Acolhida

Foto: Reprodução

Flávia Mantovani
FolhaPress

Uma médica que chefiava o centro de saúde do Tribunal de Justiça de Roraima foi exonerada do cargo por aplicar vacinas contra a Covid-19 de maneira irregular dentro da instituição. Segundo denúncias que estão sendo apuradas internamente, essas vacinas teriam sido desviadas da Operação Acolhida, força-tarefa que atende refugiados venezuelanos no Brasil.

Além de servidora do TJ, Mariângela Nasário Andrade também era integrante da Operação Acolhida, onde coordenou o hospital de campanha montado durante a pandemia. Conhecida como Dra. Mari, acompanhou o general Antônio Manoel de Barros, comandante da operação, em vários eventos e reuniões. O programa é uma ação conjunta do Exército, do governo federal e de organizações humanitárias na fronteira.

Em junho deste ano, Andrade recebeu a Medalha do Mérito do Ministério Público do Estado de Roraima. Em 2017, foi condecorada com a comenda Orgulho de Roraima, da Assembleia Legislativa, concedida a pessoas consideradas “símbolo e referência para a população” local.

Andrade foi exonerada do cargo de coordenadora do Centro Médico e de Qualidade de Vida do Tribunal de Justiça no último dia 13. O TJ confirmou à Folha que houve a aplicação de vacinas de forma irregular na instituição e que esse foi o motivo da demissão da servidora. Segundo o órgão, a aplicação ocorreu nos dias 12 e 13 de julho.

“Assim que teve conhecimento das ações não autorizadas e irregulares nas suas dependências, foi determinada a sua imediata interrupção”, diz o comunicado enviado à reportagem. Segundo a nota, ela teria “agido por iniciativa própria e em desrespeito à legislação vigente”.

O TJ não informou, porém, quem recebeu as vacinas aplicadas no local. Segundo as denúncias, os imunizantes podem ter sido aplicados em juízes -algo que a Associação dos Magistrados de Roraima nega.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

A nota do Tribunal de Justiça afirma ainda que o juiz estadual mais jovem tem 32 anos, quando a vacinação geral nos dias 12 e 13 em Boa Vista já contemplava uma faixa etária inferior: pessoas de 26 a 31 anos.

Pessoas ouvidas pela reportagem que conhecem alguns envolvidos no caso, no entanto, levantam a possibilidade de que a aplicação irregular viesse acontecendo antes dessa data. Questionado, o TJ afirmou não ter recebido nenhum relato indicando que isso tenha ocorrido e acrescentou que “nunca houve solicitação ou permissão para vacinação de Covid nas dependências do Tribunal em qualquer data”.

A Folha telefonou e mandou mensagens para o celular de Mariângela Andrade nesta quarta-feira (21) à tarde, mas não recebeu resposta até a publicação desta reportagem.

O TJ diz ter solicitado providências à Corregedoria-Geral de Justiça, à Procuradoria-Geral de Justiça e ao Ministério Público Federal (MPF), tendo avisado também o Conselho Nacional de Justiça. O MPF de Roraima confirmou à Folha ter recebido a denúncia e afirma estar em uma etapa de análise preliminar do ocorrido.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Depois de Andrade, outros servidores comissionados foram exonerados. Segundo o TJ, isso ocorreu devido a uma reestruturação da equipe diante da nomeação de um novo coordenador, e não por envolvimento deles nas irregularidades.

Venezuelanos que ingressam no país e se dirigem aos postos da Operação Acolhida em Pacaraima são imunizados contra a Covid. Após mais de um ano de fronteira fechada devido à pandemia, a entrada de refugiados dessa nacionalidade voltou a ser permitida no dia 23 de junho, ainda que em quantidade restrita –primeiro 50 por dia, agora 300.

A Operação Acolhida informou não ter constatado até o momento nenhuma ilegalidade relacionada à vacinação e acrescentou que trabalha “sempre em observância aos princípios da legalidade e da legitimidade”.
Sobre o vínculo de Andrade com a operação, afirmou-se que a força-tarefa trabalha em cooperação com mais de 120 instituições, entre elas o TJ e o Ministério Público de Roraima, nos quais ela atuava como médica perita.

Nesta terça-feira (20), o senador Telmário Mota (PROS-RR) divulgou um vídeo dizendo ter recebido a denúncia sobre a aplicação de vacinas desviadas da Operação Acolhida em juízes do estado. “Se isso é verdade, por que demitir só os pequenos? Os magistrados não vão ser penalizados? Têm que ser penalizados, ninguém está acima da lei”, disse.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Mota enviou ofícios solicitando esclarecimentos ao general Barros e ao Ministério Público, mas não havia recebido resposta até a publicação desta reportagem.






Você pode gostar