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Brasil

Inclusão digital no Brasil avança, mas segue desigual

No Recife, a distância entre o Pilar e o Porto Digital ajuda a expor como a falta de computador, internet fixa e franquia de dados limita o acesso à cidadania.

Redação Jornal de Brasília

09/07/2026 9h53

Foto : Tânia Rêgo / Agência Brasil

Foto : Tânia Rêgo / Agência Brasil

O Brasil avançou no acesso à internet, mas a inclusão digital ainda é incompleta e desigual. No Recife, a distância entre a comunidade do Pilar e o polo de tecnologia Porto Digital ajuda a ilustrar como a falta de computador, internet fixa e franquia de dados limita estudo, trabalho e o acesso a serviços públicos.

A comunidade do Pilar, única área residencial do Recife Antigo, nasceu da ocupação das ruínas da região por famílias de baixa renda. Em quase 600 domicílios, vivem majoritariamente famílias negras, chefiadas por mulheres e com trabalho informal como principal fonte de renda, segundo pesquisa feita em 2023 pela própria comunidade, com apoio da Universidade das Nações Unidas.

Do outro lado da rua, o Porto Digital reúne mais de 500 empresas de tecnologia e faturou R$ 7,4 bilhões em 2025. O contraste entre os dois lados evidencia a distância entre o avanço do setor e a realidade de parte da população, especialmente quando o acesso à internet não vem acompanhado de estrutura mínima para uso contínuo.

Os dados da PNAD-TIC 2026, do IBGE, mostram que 90,5% das pessoas usaram a internet em 2025, mas a qualidade do acesso continua desigual. Segundo a pesquisa, 10,7% dos domicílios dependem exclusivamente da internet móvel, enquanto 59,2% não têm computadores ou tablets. Especialistas ouvidas na reportagem apontam que planos com franquia limitada e bloqueio do serviço quando os dados acabam restringem o uso de serviços como banco, estudo, trabalho e atendimento público.

A situação aparece na rotina de moradores do Pilar. Em 2023, a comunidade passou a contar com o programa Pilar Universitário, que oferece bolsas integrais em faculdades do Senac para moradores. Ainda assim, estudantes relatam dificuldades para acompanhar as exigências do ensino superior sem computador e sem internet estável.

É o caso de Eurídize Lima de Santana, que entrou no programa em 2024 no curso de Análise e Desenvolvimento de Sistemas, mas trancou a faculdade um ano e meio depois por não ter computador. Hoje, ela estuda Gestão Financeira à distância, usando celular e franquia de dados do telefone.

Na comunidade, a queixa se repete: a inclusão digital é parcial e não acompanha a necessidade de formação dos jovens. A líder comunitária Ana Cláudia Miguel afirma que, mesmo em uma área cercada por empresas de tecnologia, faltam internet na escola, equipamentos e condições para que os moradores permaneçam na universidade e tenham mais oportunidades.

A reportagem também mostra que o problema não se limita ao acesso. Em 2025, pela primeira vez, mais de 90% dos brasileiros usaram a internet, mas a maior parte do uso se concentrou em redes sociais e aplicativos de mensagem. Para especialistas, a oferta de pacotes que mantêm o acesso apenas a determinados aplicativos, como os da Meta, também fere a neutralidade da rede.

Em janeiro de 2023, a Coalizão de Direitos da Rede abriu um processo administrativo na Secretaria Nacional do Consumidor do Ministério da Justiça questionando o bloqueio de acesso à internet por provedoras e a quebra da neutralidade. Segundo a reportagem, não houve resposta do ministério sobre a situação do processo.

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