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Diretores de escola temem Covid em evento para 4.000 pessoas convocado pela gestão Doria

Os educadores, de todas as regiões do estado de São Paulo, terão que viajar à cidade para participar de um evento

Por FolhaPress 28/09/2021 3h54
Foto: Nelson Almeida/AFP

Isabela Palhares
SÃO PAULO, SP

O governo João Doria (PSDB) convocou cerca de 4.000 diretores de escolas para uma reunião de trabalho em Serra Negra, município no interior do estado (a aproximadamente 150 km da capital paulista). Os educadores, de todas as regiões do estado de São Paulo, terão que viajar à cidade para participar de um evento. Com três dias de duração, ele foi programado para discutir a implementação das ações do novo ensino médio no próximo ano.

Desde agosto, com a queda de internações por Covid em São Paulo, o governador liberou a realização de eventos sem limitação de público. Apesar da autorização, sindicato e educadores reclamam do risco desnecessário ao qual o governo expõe os profissionais e, consequentemente, os alunos.

Eles defendem que a reunião poderia ser feita de forma virtual, como tem ocorrido desde o início da pandemia, sem que os profissionais precisassem se deslocar e passar tanto tempo reunidos. A Folha mostrou que o secretário de Educação, Rossieli Soares, intensificou nas últimas semanas sua agenda em compromissos públicos, especialmente com diretores, dirigentes e supervisores de ensino.

O evento começa nesta quarta (29) e segue até sexta (1º). A convocação dos diretores foi publicada no Diário Oficial de sábado (25), em uma portaria assinada pelo chefe de gabinete, Henrique Pimentel. Em julho, Doria testou positivo para Covid pela segunda vez, três dias após participar de um evento com mais de mil educadores. Na ocasião, a Secretaria de Educação disse que a reunião tinha sido segura por ter contado com a testagem de todos que estiveram presentes no local.

A Folha de S.Paulo teve acesso a um comunicado enviado por uma diretoria de ensino em que são elencadas as medidas de segurança: uso obrigatório de máscara, higienização das mãos e aferição de temperatura antes de entrada no local. Não haverá testagem prévia.

Os diretores terão de dormir em hotéis da cidade, sem que tenham sido informados se terão direito a acomodação individual. Segundo o comunicado, a Secretaria de Educação liberou duas diárias para profissionais que atuam em escolas a até 280 km de Serra Negra e três para os que atuam mais longe.

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Nas redes sociais, o prefeito de Serra Negra, Edmir Chedid (DEM), comemorou a escolha da cidade para sediar o evento. “Um evento muito importante, muito grandioso com cerca de 4.000 diretores.” “Hotéis, bares, restaurantes, lanchonetes se preparem para receber os 4.000 profissionais da educação em Serra Negra. Vamos abrir o centro de convenções, o turismo vai começar forte e pesado. Gerando emprego, renda, levando o nome de Serra Negra”, continua o prefeito.

Além da convocação no Diário Oficial, diretores relatam terem recebido ligações dos dirigentes e supervisores de ensino para reforçar que são obrigados a comparecer ao evento. Caso contrário, eles contam, ficarão com falta no dia de trabalho.

Mesmo diretores do grupo de risco para a Covid não estão dispensados de participar do evento. Só podem deixar de comparecer aqueles que tiverem tomado apenas uma dose da vacina ou que estiverem com sintomas de Covid. A diretora de uma escola da região de Mogi Guaçu diz que foi cobrada pela dirigente de ensino a confirmar presença no evento. Ela afirma não se sentir segura em passar tanto tempo em um evento com milhares de pessoas, dormir e se alimentar fora de casa por tantas horas.

“A gente já se arriscar para ir trabalhar na escola, mas entendo que é importante para os alunos. Agora, uma reunião de dois dias em outra cidade é necessária neste momento? Se eu pegar Covid, vou levar para a minha casa, para minha escola, para os meus alunos”, diz ela, que pediu para não ser identificada por medo de represália.

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Nesta segunda-feira (27), o deputado estadual Carlos Giannazi (PSOL) entrou com representação no Ministério Público para a suspensão do evento. “A realização de eventos presenciais, com tamanha aglomeração oficial e obrigatória (lembremos que se trata de uma convocação do titular da pasta), é um atentado contra a saúde pública e contra a saúde dos profissionais da educação que ali estarão reunidos”, diz o pedido.

A Apeoesp, principal sindicato dos professores da rede estadual, também criticou a organização do evento e diz se tratar de mais uma ação que mostra a posição negacionista do governo Doria. “Ao convocar gestores para esse evento presencial de grandes proporções, o secretário Rossieli, mais uma vez, ignora esse fato e as quase 600 mil mortes provocadas pela Covid no Brasil”, disse Maria Izabel Noronha, presidente do sindicato e deputada estadual pelo PT.
Questionada, a secretaria de Educação não informou por que optou pelo evento presencial e por deslocar milhares de pessoas.

A pasta informou que a participação não é obrigatória e que a convocação formal pelo Diário Oficial “se deu em função da necessidade de planejamento do pagamento das diárias aos servidores, considerando o custeio dentro do orçamento previsto por se tratar de implementação de política pública da pasta”. A secretaria não informou o valor previsto para custear o evento.

Ainda segundo a secretaria, o evento está em conformidade com as diretrizes do Plano SP, conjunto de normas para a rebertura da economia do estado em meio à Covid. Também informou que 93% dos profissionais público-alvo do evento estão com esquema vacinal completo.

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“Os profissionais que porventura ainda não concluíram o esquema vacinal somente poderão participar caso tenham tomado ao menos uma dose de vacina e apresentar um teste negativo com validade de 48h para os do tipo PCR ou 24h para os testes de antígeno”, disse em nota. A informação não consta na convocação oficial.








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