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Covid: guia de sobrevivência para o novo pico da pandemia

Nos últimos dias, diversos municípios e Estados também ampliaram restrições para evitar o colapso no sistema de saúde

Diante do surgimento de variantes do coronavírus, especialistas alertam para a importância de a população manter em prática medidas já conhecidas desde o início da pandemia. Além da higiene correta das mãos, uso de máscara e distanciamento social, a testagem em massa, o rastreamento de contatos e o avanço de imunização são ações necessárias.

Nos últimos dias, diversos municípios e Estados também ampliaram restrições para evitar o colapso no sistema de saúde, em razão do aumento de mortes e internações. As novas cepas vão agora desafiar a ciência. Confira a seguir a resposta para 40 dúvidas, parte delas enviadas por nossos leitores.

Confira as principais dúvidas sobre as novas variantes:

Quando foi identificada a P1 no Brasil?

Em 12 de janeiro, o Instituto Leônidas & Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia) confirmou a identificação de uma nova linhagem do novo coronavírus com origem no Amazonas. Um estudo liderado pelo pesquisador Felipe Naveca apontou que a nova cepa brasileira era recente, provavelmente surgida entre dezembro de 2020 e janeiro deste ano.

Denominada P1, a variante brasileira é a que foi identificada pelo Japão em quatro viajantes (um homem e uma mulher adultos e duas crianças) que retornaram da Amazônia em 2 de janeiro. O homem chegou a ser hospitalizado, por dificuldades respiratórias, enquanto a mulher e uma das crianças (um menino) tiveram sintomas leves e a menina esteve assintomática. “A evolução nos vírus é uma coisa já esperada.

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Por que, assim como as variantes britânica e africana, a P1 chama muita atenção?

Essas variantes acumularam muitas mutações em pouco tempo acima do que estávamos vendo até o momento”, afirma o pesquisador.

Quais são as variantes britânica e africana, que também preocupam o mundo?

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A primeira mutação significativa foi a B.1.1.7, identificada no Reino Unido no fim de 2020. Os dois primeiros casos foram registrados em Kent e em Londres, na Inglaterra. No Brasil, Manaus foi o primeiro local a registrar uma variante própria, a P1. Outra cepa, originária da África do Sul, a B.1351, já se mostrou resistente a vacinas e anticorpos. Ainda em estudo, não é possível afirmar com total segurança se essas variantes são mais ou menos letais.

A P1, variante encontrada no Brasil e já disseminada para outros países, tem mutações em comum com as variantes briânica e sul-africana?

Segundo Lucas Augusto Moyses Franco, pós-doutorando da Faculdade de Medicina da USP e colaborador do grupo Cadde, além de também carregar a N501Y, que provoca alterações na proteína spike do vírus, a nova linhagem “contém uma composição única de mutações definidoras de linhagem”, como a presença das mutações E484K e K417N/T. Essa E484K motiva preocupação por já ter sido associada em outros estudos a um potencial de escapar de anticorpos. Isso precisa ser melhor estudado, mas, segundo especialistas, é mais provável que esse escape favoreça reinfecções, mas não atrapalhe a ação das vacinas contra a covid-19.

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O que é uma mutação e por que ela acontece?

Gabriel Maisonnave Arisi, professor da Unifesp, explica que as mutações surgem no momento em que o vírus está se replicando em outro organismo. Nesse momento, pode haver erros e alterações no material genético do vírus. Muitas mutações deixam-no inviável, mas algumas conferem vantagem a eles. Quando isso acontece o vírus passa a ser muito mais viável. As mutações são mais comuns em locais com alta taxa de circulação do vírus.

Por meio da Fiocruz Amazônia, o pesquisador Felipe Naveca disse acreditar que a mutação não seja a única responsável pela aceleração de casos do novo coronavírus no Estado, embora possa ter influência. “Primeiro, porque a gente não tem certeza se ela está circulando no Amazonas em grande quantidade”, comenta o cientista, que pesquisa variantes do novo coronavírus desde março de 2020.

Casos da variante brasileira, a P.1, já foram confirmados em quantos Estados?

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A P.1 já foi identificada em ao menos 17 Estados: Amazonas, São Paulo, Goiás, Paraíba, Pará, Bahia, Rio Grande do Sul, Roraima, Minas, Paraná, Sergipe, Rio, Santa Catarina, Ceará, Alagoas, Pernambuco e Piauí. Essa nova cepa, identificada originalmente em Manaus, tem maior poder de transmissão, segundo estudos preliminares.

A variante brasileira chegou a quais países?

Países nas Américas, na Europa e na Ásia já identificaram a mesma mutação. Entre eles, Japão, Estados Unidos, Reino Unido, Itália, Alemanha, Coreia do Sul, Irlanda, Índia, Canadá, Catar, Argentina, Colômbia, Peru, Portugal, França, Espanha, Holanda já confirmaram ou investigam casos da variante brasileira.

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Em quais Estados já prevalecem as três variantes mais preocupantes do novo coronavírus?

Análise feita pela Fiocruz em oito Estados das regiões Sul, Sudeste e Nordeste constatou a prevalência das variantes do Amazonas, do Reino Unido e da África do Sul em pelo menos seis Estados. O dado, obtido a partir de uma nova ferramenta de análise genética, indica que há uma dispersão geográfica dessas variantes nos Estados, assim como uma alta prevalência em todas as regiões avaliadas.

De acordo com nota divulgada pelo Observatório Covid-19 da Fiocruz em 4 de março, foram avaliadas mil amostras de Alagoas, Ceará, Minas, Pernambuco, Paraná, Rio, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. A ferramenta usada é capaz de detectar a mutação no vírus que é comum nas três variantes que mais vêm preocupando o mundo atualmente.

A análise não mostra exatamente qual é a variante, mas a ocorrência da mutação, o que já serve como indicativo de que o vírus circulante mudou. As três são chamadas de “variantes de preocupação” ou VOCs, na sigla em inglês, e já são associadas a uma maior transmissibilidade. Também há indícios de que elas são capazes de escapar de anticorpos gerados em infecções anteriores, possibilitando a reinfecção.

Dos seis Estados, só nas amostras de Minas Gerais e Alagoas a presença da mutação ocorreu em menos da metade das amostras – respectivamente 30,3% e 42,6%. Os Estados em que elas mais aparecem são Ceará (71,9%) e Paraná (70,4%). A situação nos demais é: PE (50,8%), RJ (62,7%), RS (62,5%), SC (63,7%).

A variante P.1 também já é predominante na Grande São Paulo, segundo estudo da rede Dasa de laboratórios em parceria com cientistas do Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo (IMT-USP). Os pesquisadores analisaram 91 amostras de infectados e verificaram que 77% delas se mostraram positivas para a nova cepa.

As variantes são realmente mais perigosas?

Novos estudos sobre a variante brasileira, a P.1, têm mostrado que ela é até 2,2 vezes mais transmissível, aumenta em dez vezes a quantidade de vírus nas células do doente e tem chance até 61% maior de escapar da imunidade protetora conferida por uma infecção prévia.

Quem já notava nos dados e nas ruas o efeito do avanço da doença ainda no ano passado era o epidemiologista Jesem Orellana, da Fiocruz-Amazônia. Com o colapso da saúde de Manaus no início deste ano, Orellana rapidamente fez a associação com o que poderia ser um efeito da nova variante. A forma de combate, ressalta, permanece a mesma já preconizada em 2020.

“A sequência de erros que cometíamos em 2020 se repete agora, assim como as narrativas negacionistas contra máscara e lockdown. Temos o mesmo palco e o mesmo enredo. A diferença agora é que o nosso algoz é mais poderoso e se chama P.1”, disse.

No fim de janeiro, o primeiro-ministro da Inglaterra, Boris Johnson, disse que havia evidências de que a variante britânica poderia estar associada a um maior grau de mortalidade, além de ser mais transmissível. A mutação da África do Sul também é mais transmissível e, por consequência, se torna potencialmente mais letal.

Os sintomas de infectados pela variante P1 são os mesmos de outras mutações do vírus?

Até o momento, não há estudos que apontem outros sintomas para infectados pela P1, segundo Marcelo Otsuka, membro da Sociedade Brasileira de Infectologia.

A covid-19 causa danos neurológicos? É pior, diante de novas variantes?

Sim. Os sintomas neurológicos foram significativamente mais comuns nos casos graves em comparação com os menos graves. Os pacientes tiveram dor de cabeça, tontura, convulsões e até acidente vascular cerebral (AVC).

“É difícil falar de uma enfermidade que ainda é nova, costumamos trabalhar com doenças que têm 10 anos de evolução. Ainda é preciso mais estudos, mas pesquisas já estão apontando que o novo coronavírus pode causar problemas neurológicos como AVC hemorrágico e AVC isquêmico. Quanto mais grave a manifestação do quadro clínico, maior a chance de comprometimento neurológico, sendo o quadro agravado em pacientes mais velhos”, afirma o neurocirurgião Alexandre Meluzzi, membro titular da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia.

Variante de Manaus aumenta carga viral no corpo, além de ser mais transmissível?

Dois novos estudos feitos por pesquisadores brasileiros trazem mais evidências de que a variante de Manaus é mais transmissível e pode escapar dos anticorpos formados por uma 1ª infecção.

As pesquisas apontam que a cepa P.1 é até 2,2 vezes mais contagiosa, aumenta em dez vezes a quantidade de vírus nas células do doente e tem chance até 61% maior de escapar da imunidade protetora conferida por uma infecção prévia. As pesquisas ainda não foram revisadas por outros cientistas nem publicadas em revistas científicas, mas estão disponíveis online.

O aumento da carga viral foi identificado por pesquisadores da Fiocruz Amazônia a partir da análise do material genético de 250 amostras de infectados no Amazonas entre março de 2020 e janeiro de 2021.

A variante P1 afeta mais os jovens?

Ainda não é possível afirmar que a variante afeta mais os jovens nem se vão evoluir de forma mais grave. “A gente tem melhorado a triagem e os exames, há mais diagnósticos. Acaba tendo mais casos. Mas a maior proporção de óbitos continua sendo na população de risco e em idosos. Não se sabe se, com a nova variante, vai ter casos mais graves ou não, Mas a gente vai acabar vendo evoluções piores em jovens, o serviço vai ter mais jovens proporcionalmente”, explica o infectologista Marcelo Otsuka, vice-presidente do Departamento de Infectologia da Sociedade de Pediatria de São Paulo e coordenador do Comitê de Infectologia Pediátrica da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

Como identificar uma nova cepa do vírus?

É preciso fazer o sequenciamento do genoma completo do vírus.

Como é realizado o sequenciamento para identificar as novas cepas no Brasil?

A escassez de centros especializados e as dificuldades na aquisição de insumos são entraves para a ampliação do monitoramento genômico no Brasil. A rede Coronaômica, instalada em outubro pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, foi criada com o objetivo de ampliar essa vigilância. Há também laboratórios de referência definidos pelo Ministério da Saúde que recebem rotineiramente amostras de todo o Brasil – a média de exames enviados por Estado é de 12 por mês.

Em janeiro, a pasta montou uma rede de quatro laboratórios para ampliar o número de genomas sequenciados diante do surgimento de novas cepas, mas o volume ainda é baixo. O projeto prevê sequenciar 1.200 amostras em 16 semanas.

Onde está sendo feito o monitoramento do sequenciamento genético do vírus no Brasil?

O monitoramento do sequenciamento genético do vírus está sendo feito pelos laboratórios da Fiocruz, Instituto Adolfo Lutz e Instituto Evandro Chagas. O ministério informa que outros laboratórios públicos e privados também contam com análises do sequenciamento em suas linhas de pesquisa.

A média de sequenciamentos no Brasil é similar a de outros países?
O Brasil depositou cerca de 2,6 mil genomas, equivalente a 0,02% dos casos de covid, no banco online de sequenciamentos com dados do mundo inteiro, o Gisaid. O Reino Unido já sequenciou 215 mil genomas – 5,3% das suas infecções. Já a África do Sul fez 3,3 mil sequenciamentos (0,22% do total).

Como funciona o teste rápido criado pela Fiocruz Amazônia de detecção de novas variantes?

Pesquisadores da Fiocruz Amazônia desenvolveram uma ferramenta para a detecção rápida de linhagens do novo coronavírus de maior importância em circulação no Brasil, por meio do exame RT-PCR.

Diante da importância de maior vigilância genética da covid-19 no País, o teste desenvolvido ajudará a controlar a disseminação de cepas ao contribuir para o acompanhamento das linhagens que circulam nas cidades. O ensaio foi desenhado para detectar uma deleção que existe em todas as variantes do vírus, como a brasileira, a da África do Sul e a do Reino Unido.

“A principal vantagem do novo ensaio que estamos utilizando no laboratório é que permite diferenciar logo se é uma das variantes. Com essa detecção, a gente consegue direcionar melhor o sequenciamento. Como temos um predomínio hoje da P1 no Amazonas, ela nos ajuda a ver exatamente qual é a frequência em relação a outras linhagens já conhecidas no Estado”, afirma o pesquisador e vice-diretor de Pesquisa e Inovação da Fiocruz Amazônia, Felipe Naveca.

Poderá ser disponibilizado para todos os Estados?

A nova tecnologia será disponível, em breve, para diversos laboratórios brasileiros. Conforme a Fiocruz Amazônia, o Laboratório Central de Saúde Pública do Amazonas (Lacen-AM) será o primeiro a usar o produto, que depois seguirá para Rondônia, Roraima, Mato Grosso do Sul, Ceará, Rio e outros laboratórios interessados.

A mutação é a única responsável pela aceleração de casos do novo coronavírus no Amazonas?

O pesquisador Felipe Naveca, da Fiocruz Amazônia, disse acreditar que a mutação não seja a única responsável pela aceleração de casos no Estado, embora possa ter influência. ““Sempre considero que essa situação é multifatorial, a gente tem o início da temporada de vírus respiratórios no Amazonas, que historicamente acontece em meados de novembro em diante, o que a gente chama de inverno amazônico, onde outros vírus respiratórios, como o influenza, também aumentam. A gente tem essa situação sazonal, a variante e a diminuição do distanciamento social”, comenta. “Pode ser que haja sim contribuição dessa variante, mas a gente ainda não tem certeza.”

De acordo com o pesquisador, o vírus evolui “até mais lentamente que os outros”. Nesse cenário, a nova variante chama a atenção, pois “acumulou muitas mutações em pouco tempo”, assim como as encontradas no Reino Unido e na África do Sul.

As mutações vão continuar surgindo?

Para diminuir o número de mutações é necessário parar a epidemia. Isso só vai acontecer se as medidas de higiene e distanciamento forem levadas a sério pelas pessoas. Caso contrário, mutações mais resistentes e transmissíveis tendem a surgir.






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