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Aumento de vacinados entre internados por Covid não significa falha da imunização; entenda

Se há mais gente vacinada, aumenta a quantidade de pessoas desse grupo que possa vir a sofrer com a Covid –nenhuma vacina é 100%

Por FolhaPress 15/09/2021 2h25
Foto: Kyodo / Reuters

Flávia Faria e Diana Yukari

O avanço da vacinação contra a Covid-19 gera um efeito matemático enganoso: aumenta o volume de pessoas imunizadas entre as internadas ou mesmo entre as que venham a morrer devido ao coronavírus. Isso, porem, não significa falha na imunização. Significa apenas que cresceu o número de pessoas vacinadas.

Se há mais gente vacinada, aumenta a quantidade de pessoas desse grupo que possa vir a sofrer com a Covid –nenhuma vacina tem proteção de 100%. Mas, dado que os imunizantes são eficazes, a probabilidade de complicação entre os imunizados vai ser menor do que entre os sem proteção.

No limite, se 100% da população estiver vacinada, 100% das internações e das mortes ocorrerão entre pessoas imunizadas. Só que a quantidade de internações e mortes seria muito maior se não houvesse vacinação. Movimentos antivacina já detectaram a oportunidade de tirar de contexto esses dados para atacar os imunizantes.

Um exemplo concreto do efeito aritmético do avanço da imunização pode ser visto em Israel. Grupos antivacina têm espalhado nas redes sociais que cerca da metade dos internados acima dos 60 anos no país já foram completamente vacinados contra Covid.

Essa informação é correta, mas omite que 92% dessa população já tomou as duas doses. Ou seja, os 8% dos idosos sem a proteção são responsáveis por 50% de todas as internações. Dito de outra forma, a chance de um não vacinado ser internado é mais de dez vezes maior do que os já protegidos, ainda que, no geral, os dois grupos respondam igualmente pelos internados. A situação poderia ser catastrófica se a cobertura vacinal fosse menor.

Abaixo, entenda por quê.

Há mais idosos vacinados do que não vacinados entre os internados com Covid em Israel?

Em números absolutos, sim, mas é preciso cuidado ao comparar esses dados. No dia último dia 3, os hospitais israelenses tinham 220 pessoas com mais de 60 anos que haviam tomado as duas doses da vacina, 7 pessoas que tomaram só uma dose e 210 pessoas que não se vacinaram. Ou seja, 50% dos idosos que estavam no hospital naquele momento eram totalmente vacinados.

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Mas esses números escondem uma questão importante: hoje, há mais israelenses que tomaram a vacina do que não vacinados. Assim, é esperado que o número absoluto seja maior, já que estamos falando de uma população muito maior. Para poder avaliar como a vacina está protegendo a população, é preciso observar a proporção de internados em cada grupo: vacinados, não vacinados e parcialmente vacinados.

Essa taxa é mais de dez vezes maior entre quem não foi imunizado do que entre quem tomou as duas doses do imunizante. Isso mostra que as vacinas estão, sim, reduzindo o risco de internações pela Covid.

Por que os números absolutos podem levar ao engano?

Imagine um grupo hipotético de 100 pessoas internadas. Dessas, 90 tomaram vacina e 10 não tomaram. Em números absolutos, há mais vacinados entre os internados. Mas, ainda nesse exemplo, 10 mil pessoas tomaram a vacina e 100 não tomaram. Ou seja, o grupo de vacinados é muito maior.

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Nesse grupo hipotético de 10 mil vacinados, 90 pessoas foram internadas, ou 0,9% (isto é, 0,9 a cada 100).
Já no grupo dos 100 não vacinados, há 10 internados, ou 10%. A chance de internação, portanto, é muito maior para quem não tomou a vacina. Essa é a mesma conta que se faz para comparar o número de mortes em dois países. Como as populações têm tamanhos diferentes, é necessário adotar uma medida comum para evitar distorções.

No dia 9 de abril, por exemplo, o Brasil registrou 3.693 mortes, e o Uruguai, 88. A princípio parece que a situação no Uruguai era muito melhor que no Brasil. Mas, quando calculada a taxa de óbitos por milhão, ou seja, quantas mortes foram registradas a cada grupo de 1 milhão de habitantes, vê-se que a realidade é outra. Enquanto no Brasil morreram 17 pessoas a cada 1 milhão de pessoas, no Uruguai esse valor era de 25 por milhão –24% maior, portanto.

Quais são as taxas de internação de idosos vacinados em Israel?

No último dia 3, a taxa de pessoas com 60 anos ou mais internadas com Covid e que tomaram duas doses da vacina era de 17 por 100 mil –a cada 100 mil pessoas vacinadas, 17 foram internadas com a doença. Entre quem tinha tomado apenas uma dose, a taxa era um pouco maior: 32 a cada 100 mil. Entre os não vacinados, a situação é bem mais grave: 274 internados a cada 100 mil.

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E para quem tem menos de 60 anos?

A chegada da delta impactou menos a população mais jovem, para quem a doença tende a ser menos grave. Isso é esperado: o sistema imunológico tende a ser menos efetivo à medida que a idade avança, e isso resulta em menor eficácia da vacinação. Mesmo entre os jovens, a taxa de internações é maior para quem não tomou vacina: 5 a cada 100 mil não vacinados, contra 1 internado a cada 100 mil vacinados com as duas doses.

Israel já vê o impacto da aplicação da terceira dose?

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Para tentar conter a delta e reforçar a imunidade dos israelenses, o governo passou a aplicar uma terceira dose da vacina. A taxa de mortes entre quem tem 60 anos ou mais e tomou a dose extra já é menor que entre quem tomou apenas as duas regulares –e bastante menor que entre quem não tomou vacina.

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No último dia 3, havia 0,4 morto a cada 100 mil vacinados com as três doses, 2,9 mortos a cada 100 mil vacinados com duas doses e 8,7 mortos a cada 100 mil pessoas que não tomaram vacina. A proteção contra mortes entre os vacinados com as três doses em Israel é mais de 7 vezes a de quem tomou duas doses e mais de 20 vezes a de quem não tomou a vacina.

E no Brasil? O que se pode dizer sobre internações entre vacinados?

Faltam dados públicos que permitam avaliar a situação com mais clareza, mas há algumas pistas. O Ministério da Saúde passou a coletar informações sobre vacinação contra a Covid em pessoas internadas com a doença. Contudo, quase metade dos registros disponíveis no Sivep-Gripe (banco de dados de hospitalizações e mortes) não informa se o paciente foi imunizado.

No mês passado, a Secretaria de Saúde do Rio de Janeiro afirmou que o número de idosos vacinados com duas doses e que morreram com Covid havia subido. A pasta informou apenas o número absoluto, sem considerar que o número de vacinados tem crescido ao longo do tempo.

Quanto à eficiência das vacinas, estudo recente da Fiocruz mostrou que ela é menor para os mais velhos. Segundo o levantamento, duas doses da Astrazeneca reduzem em 87% o risco de hospitalização e em 90% o de morte na população geral (de todas as idades). Com a Coronavac, os percentuais são de 73% para internação e 74% para morte.

Quando considerados apenas os maiores de 90 anos, observou-se que a redução do risco de morte caiu para 71% com a AstraZeneca e para 35% com a Coronavac. O Ministério da Saúde recomendou que idosos e imunodeprimidos que tomaram a segunda dose há seis meses ou mais recebam agora uma dose extra de reforço. A medida começa a valer oficialmente no país nesta quarta (15), mas alguns estados e municípios, como São Paulo, já começaram a aplicação.






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