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Marinha decide sair de Missão de Paz no Líbano

Ministério da Defesa confirmou o pedido ao Jornal de Brasília. A Marinha ainda não se manifestou oficialmente sobre as razões do pedido

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Lucas Neiva
redacao@grupojbr.com

Após 8 anos no comando de uma frota naval internacional no litoral libanês, a Marinha do Brasil requisitou a saída do país da Força Interina das Nações Unidas no Líbano (UNIFIL). O Ministério da Defesa confirma receber o pedido da Marinha para sair da força-tarefa até dezembro de 2020.

A UNIFIL atua no país mediterrâneo desde 1978. É a única missão de paz no
mundo a contar com um componente naval permanente, que é comandado desde 2011 por uma força naval brasileira. Começou como uma missão de paz terrestre, criada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em razão de uma guerra entre Israel e Líbano, com o objetivo de confirmar a retirada do exército israelense, preservar a paz na região e ajudar o governo libanês a recuperar sua autoridade sobre o próprio território. Em 2006, os dois países entraram em guerra novamente, e a ONU se viu obrigada a ampliar o mandato da UNIFIL e aumentar o número de países participantes (atualmente, 42 países participam da força-tarefa).

Além do conflito terrestre, durante a guerra de 2006 o Líbano foi vítima de um bloqueio naval israelense. Para confirmar a saída da marinha israelense de seu litoral e garantir a segurança de suas águas, o governo libanês pediu ajuda à ONU, que criou a Força Tarefa Marítima (FTM-UNIFIL) para atuar no país. Essa força-tarefa foi comandada por um componente italiano até 2010, quando a força italiana se retirou e entregou o comando ao Brasil em 2011, ano da entrada brasileira no componente.
Atualmente a FTM-UNIFIL conta com navios de seis países (Brasil, Alemanha, Turquia, Grécia, Bangladesh e Indonésia), comandados por uma nau capitânia brasileira: antes uma fragata com cerca de 200 tripulantes, mas atualmente a função é exercida pela Corveta Barroso, com pouco mais de 150 homens.

O Brasil também coopera com o envio de militares para compor o Estado-Maior tanto da força-tarefa naval quanto terrestre, e também o Estado-Maior da brigada espanhola que participa da missão.

Uma fonte ligada às Forças Armadas que acompanhou a entrada do Brasil na UNIFIL explica que o Brasil não foi escolhido à toa para essa tarefa, pois questões políticas e militares importantes estavam envolvidas: “Para comandar o setor naval, o país tinha que levar uma nau capitânia: originalmente era uma fragata, e não é qualquer país que tem condições logísticas de manter um navio desse porte naquele lugar por seis meses. Além disso, havia uma questão política envolvida: precisava ser um país com livre trânsito pela região, e com boas relações com os países vizinhos”.

O observador explica que missões desse tipo costumam ser bastante vantajosas para os países que participam: “missões como essa dão aos nossos militares uma oportunidade de adestramento da tropa, de comandar uma frota internacional em um ambiente em que não estão acostumados, de obter novos conhecimentos de logística ao manter uma fragata a milhares de quilômetros de distância, além de ser um excelente instrumento de projeção de poder e com boa parte dos custos pagos
pela própria ONU”.

De volta para casa

Depois de 8 anos comandando a FTM-UNIFIL, a Marinha solicitou o fim de suas atividades na missão de paz. Um comunicado vazado no último dia 15 vindo do Centro de Comunicação Social da Marinha solicita ao Ministério da Defesa que seja encerrada, até o dezembro de 2020, a participação de seus navios na força-tarefa.

O Ministério da Defesa confirmou o pedido ao Jornal de Brasília. A Marinha ainda não se manifestou oficialmente sobre as razões do pedido, mas o
comunicado cita três fatores que motivaram a decisão: um político-estratégico, um econômico e um de custo/benefício.

Em termos estratégicos, o comunicado informa que a Política Nacional de Defesa (PND) e a Estratégia Nacional de Defesa (END) priorizam a defesa e o controle marítimo da Antártica e do Atlântico Sul, incluindo os países do litoral oeste africano, estando o Mar Mediterrâneo fora dessa zona de interesse. Cita também a importância de aumentar a presença marítima militar brasileira no Caribe e na África, onde cada vez mais se percebe o crescimento da influência de países do Hemisfério Norte.

Em termos econômicos o comunicado apenas fala que a atual conjuntura
econômica impõe limitações aos recursos da Marinha, que se vê forçada a dar prioridade a algumas iniciativas no lugar de outras. Vale ressaltar que, contando com a corveta que atua hoje no Líbano, a Marinha conta hoje apenas com quatro navios de escolta ativos (três fragatas e mais a Corveta Barroso) para a proteção de mais de 4 milhões de km² de mar territorial.
Em termos de custo-benefício, o comunicado aponta que os ganhos políticos e operacionais obtidos com a missão de paz não compensam o esforço logístico e o gasto estratégico de se manter todos os anos um navio de guerra afastado de sua base por oito meses.

  • Corvetas e fragatas são as principais categorias de navios de escolta
    adotados hoje pela Marinha. São navios equipados tanto para garantir a segurança das demais embarcações em tempos de paz quanto para
    enfrentar navios inimigos em situações de guerra.
  • O Brasil é um país frequentemente procurado pela ONU para atuar em
    missões de paz. Os soldados brasileiros possuem a reputação de conseguir manter boas relações com a população dos países onde atuam, gerando grande prestígio entre os capacetes azuis. Você pode conferir algumas dessas histórias na QR Code abaixo.

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